"Os Esquecidos" | © LEFFEST

LEFFEST ’20 | Os Esquecidos, em análise

O 14º Lisbon & Sintra Film Festival tem vindo a exibir muitos clássicos de autores respeitados juntamente com a sua programação mais contemporânea. O mestre do surrealismo ibérico Luis Buñuel é um dos cineastas em destaque com filmes tão primorosos como “Os Esquecidos” de 1950.

A carreira e a vida de Luis Buñuel, quiçá o maior cineasta espanhol de sempre, foram repletas de reviravoltas, cismas e tribulações. Na década de 30, o mestre do surrealismo em celuloide escandalizou os burgueses de Paris e ousou mostrar a miséria de uma Espanha que bebia a ambrósia arsénica do franquismo. Nos anos da Segunda Guerra Mundial, ele exilou-se nos EUA, mas ao fim da década de 40 já Buñuel encontrava nova casa a sul da fronteira texana. Foi no México que esse mestre do cinema caído em irrelevância ganhou novo fôlego e renovado propósito.

Foi depois de ter completado a sua primeira longa-metragem mexicana, “Gran Casino”, que Buñuel começou a desenvolver o projeto que havia de se tornar no seu novo bilhete para a fama internacional. Colaborando com o poeta espanhol Juan Larrea, o cineasta foi escrevendo um guião focado em galvanizantes causas sociais. Nomeadamente, Buñuel decidiu virar a sua câmara para a miséria das crianças que vivem na rua, para os meninos que passam fome e são negligenciados por todo um estado, esquecidos pelo mundo.

os esquecidos critica leffest
© LEFFEST

A introdução de “Os Esquecidos” é bem direta na sua crítica e no apelo ao progresso. Esta não é uma película otimista, avisa-nos a voz do narrador, mas sim um retrato de realidades duras que só a sociedade, não o indivíduo, podem resolver. Pelo ecrã passam imagens de várias cidades, desde a paisagem vertiginosa de Nova Iorque à beleza da arquitetura parisiense, salientando como os problemas mostrados pela narrativa não são exclusivos do México.

A história que se segue a estes portentosos avisos é o conto infeliz de Pedro, um menino delinquente que vive, como tantos outros, nos bairros pobres da Cidade do México. Sua vida é virada do avesso com a chegada de um rapaz mais velho que acabou de sair de um reformatório. El Jabilo é uma influência demoníaca no menino, ume entidade que corrompe e trama, que dá inveja e serve de ídolo disforme. O que dói mais, contudo, é o afeto que esse adolescente no limiar da idade adulta capta a atenção da mãe ríspida de Pedro. O enredo esculpe a observação naturalista em forma de tragédia que lacera e sensibiliza.

Lê Também:
A Volta ao Mundo em 80 Filmes

Com isso dito, desengane-se quem presumir que se trata de uma fita panfletária, ativismo didático ao invés de drama cinematográfico. Buñuel foi um dos grandes cineastas políticos do século XX e sua glória vinha exatamente do modo como ele imprimia ideologia em celuloide sem nunca descurar na vertente artística do ofício. “Os Esquecidos” tanto alerta como encanta, sugerindo a interioridade das suas personagens através do símbolo e do sonho. É neorrealismo extravasado pelo surreal.

Tal alquimia estilística nunca é mais óbvia que nas inesquecíveis passagens de onirismo violento. Os pesadelos de Pedro transbordam com as inseguranças de um menino cuja existência é definida pela crueldade das ruas, pela indiferença materna e o ódio dos vagabundos. Sangue e leite jorram pela mente, a luxúria Edipiana e o horror de galinhas esmigalhadas. Penas flutuam e o tempo arrasta-se numa câmara lenta que separa a imaginação do corpo, o espírito da carne. Pobreza manifesta-se em medo, desejo transfigura-se em erotismo com uma faca na mão.

os esquecidos critica leffest
© LEFFEST

Nem todo o floreado se prende somente ao sonho. Perto do final, temos a sublime brincadeira de um ovo atirado à câmara, uma irreverência risonha que precede uma explosão de carnificina. Infelizmente, se algo que a miséria tem ensinado a Pedro é que, para expiar sua dor, nada melhor que descarregar naqueles mais indefesos que ele. São lições tristes, venenos que padecem do antídoto da empatia. Se “Os Esquecidos” sucede, é porque pede desesperadamente por essa empatia, usando realismo poético como o veículo para o apelo.

Os Esquecidos, em análise
os esquecidos critica leffest los olvidados

Movie title: Los Olvidados

Date published: 18 de November de 2020

Director(s): Luis Buñuel

Actor(s): Alfonso Mejía, Roberto Cobo, Estela Inda, Miguel Inclán, Alma Delia Fuentes, Francisco Jambrina

Genre: Drama, Crime, 1950, 85 min

  • Cláudio Alves - 90
  • José Vieira Mendes - 90
90

CONCLUSÃO:

Um canto febril de pobreza e miséria, “Os Esquecidos” é um antídoto para o olvido daqueles que se deixam inebriar pelo conforto e se esquecem de pensar no sofrimento que serve de fundação para prosperidade de outros. Buñuel era um mestre do cinema e este drama é uma das obras-primas dos seus anos mexicanos.

O MELHOR: Esse sonho diabólico.

O PIOR: A violência contra animais é um rasgo de crueldade em que Buñuel vai longe demais. A realidade de galinhas a morrerem em frente à câmara não coere com as performances dos atores, ou a poesia dos mecanismos cinematográficos.

CA

Sending
User Review
5 (2 votes)
Comments Rating 5 (1 review)

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

Cláudio Alves has 1520 posts and counting. See all posts by Cláudio Alves

Leave a Reply

Sending