Marvel 616 | ©Christopher Willard, Disney+

Marvel 616 / Entrevista com os produtores da série

A Magazine.HD esteve à conversa com Paul Scheer e Sarah Amos, produtores e realizadores da Marvel 616, a nova série documental do Disney+.

Conhecer as histórias que fazem da Marvel aquilo que ela é. É esse o objetivo do Marvel 616, uma série de antologia documental que estreia no próximo dia 20 de novembro, exclusivamente na Disney+.

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Com 8 episódios, dirigidos por 8 realizadores diferentes, esta série de antologia apresenta alguns dos criadores, artistas e personagens da gigante de banda desenhada, dando a conhecer um pouco do percurso que levou à consolidação da marca Marvel, nos seus 80 anos de história.

A Magazine.HD teve a oportunidade de falar com Paul Scheer (“The League”; “Black Monday”), realizador do episódio Lost & Found, e Sarah Amos, produtora executiva da série e Vice-Presidente para o Desenvolvimento na Marvel Entertainment.

 

Qual é a vossa personagem esquecida da Marvel favorita?

Paul Scheer (PS): Meu Deus. Existem tantas. Tivemos a oportunidade de falar de algumas personagens nesta série. Falámos de um condutor de camiões que tem um rádio implantado na sua cabeça, mas fico fascinado pelas personagens que não tivemos oportunidade de falar. Por exemplo, existe uma personagem chamada Microbe. E o Microbe é um X-Men ou um X-Man que, bem, comunica com germes. E ele é capaz de – quer dizer, ele podia ser muito importante relativamente ao COVID. Ele pode mesmo falar com as doenças. É como o Aquaman das doenças. Eu acho que esse é um personagem divertido que podíamos trazer de volta neste momento.

Porque é que existe uma ideia errada de que a banda desenhada são como a cultura pop e não são valorizados como tal?

PS: Bem, relativamente a isso, penso que a Sarah provavelmente terá uma resposta mais articulada porque ela está a trabalhar na Marvel. O que digo é que, muitas vezes, os livros de banda desenhada são uma porta de entrada para muitos dos leitores mais jovens. É a primeira coisa em que eles se lembram de ler. Eu não li um livro. Eu li um livro de banda desenhada. Como tal, eles pensam que são histórias para miúdos.

E o que aconteceu na minha vida é que toda a gente que cresceu a ler livros de banda desenhada acabou por escrever livros de banda desenhada. Nos últimos 30 anos, existiu este fenómeno incrível de verdadeiros fãs que seguem a tradição do Stan Lee e lutam para criarem e contarem estas histórias que eles querem ver. Porque quando eu lia um livro em criança, eu pensava “E se o Spider-Man fizesse isto? E se, por exemplo, o Quarteto Fantástico se envolvesse aqui?” Temos, assim, estes criadores magníficos. E eles são fantásticos, e acabas por ver estes escritores de banda desenhada a desenvolver argumentos para filmes gigantes e séries de televisão e tu vês que esta é uma forma de ativação da imaginação, e existe muito mais pessoas que continuam a participar.

Eu estou a escrever livros de banda desenhada, eu estou a escrever séries de televisão. E eu participo nas séries de televisão, mas adoro regressar aos livros de banda desenhada porque existe um budget ilimitado, e tu podes fazer tudo aquilo que quiseres, dentro dos limites da razão. E para mim, eu sinto que é injusto, porque apesar de eles serem coloridos e brilhantes como as histórias para crianças, não quer dizer que sejam para crianças. Especialmente se olhares para a Marvel, eu acho que eles criam algo que não só é fácil para um leitor principiante como para alguém que já tem 2 filhos.

Sarah Amos (SA): Concordo com tudo o que foi dito, e acrescento que a Marvel foi, de certa forma, criada tendo como base uma espécie de ethos que o Stan [Lee] tinha de que deve ser uma reflexão do mundo que está na parte de fora da tua janela, certo? Claro que eles são super-heróis. Sim, têm superpoderes, mas nós conseguimos ver um pouco de nós neles, e à medida que vais lendo, começas a identificar-te com as personagens, eles tocam em alguma coisa, seja a dar-te confiança ou ensinar-te uma nova lição na forma como interages com os outros ou fazem crescer a tua imaginação e a perspetiva que tens sobre cultura, sobre raça, sobre identidade. E tudo isto nas páginas de uma banda desenhada.

E quando ficas viciado, é o storytelling. São as personagens, os visuais. Isso atrai-te. E, de repente, percebes que, além de te estar a dar lições de vida, também se está a ligar contigo e a deixar a sua marca em ti de um modo que muitos fãs de banda desenhada, quando são crianças, não se apercebem que 20, 30 anos depois, recordam-se de uma memória da série animada de X-Men ou da edição daquele Amazing Spider-Man que leram. E fica contigo de uma forma muito poderosa. Por isso é que eu penso sempre que, se começas a ler quando és uma criança ou se os descobres aos 80 anos, como fez a minha avó. Eu dei-lhe algumas edições da banda desenhada da Miss Marvel e ela disse “Isto é incrível”. É um conjunto universal de verdades, e é apenas isso que nós queremos.

Paul Scheer foi um dos realizadores da Marvel 616
Paul Scheer foi um dos realizadores da série Marvel 616 © Disney+

Paul, qual foi o nível de liberdade que teve na escolha do tema do vosso episódio? Porque escolheu esse tema em particular?

PS: Comigo aconteceu numa reunião com um dos produtores da série. Eles tinham esta ideia de criar uma série que abraçasse o mundo da Marvel Comics. Então, ele sabia que eu tinha escrito bandas desenhadas da Marvel e que eu era um fã, e começamos a falar sobre as coisas que seriam interessantes para mim. Passamos por diferentes fases do que podia ser um documentário interessante. E havia uma coisa que estava na minha cabeça ou que me recordava sempre. Nós conhecemos os principais personagens da Marvel. Eles são icónicos e, muitos deles ainda não foram apresentados na televisão ou no cinema.

Mas existem muitas personagens ao longo dos tempos que talvez não tenham este tratamento, e existe uma espécie de código que tens quando um fã da Marvel está a falar para outros fãs da Marvel. Por exemplo, Billy Ray Cyrus foi uma banda desenhada da Marvel, sim foi. E tu tens este tipo de conversa. Isso entusiasmou-me. E acabou por ser o ponto de partida.

Não sabia onde é que eu iria, e o que foi divertido é que este processo realmente ajudou-me a mergulhar neste mundo, falar com alguns dos meus criadores favoritos e nós, pouco a pouco, encontrámos esta grande ideia e encontrámos estes personagens que estavam inexplorados. Por isso, para mim, foi uma liberdade criativa total e eu penso que a Marvel, por adorar o seu material tanto como eu adoro o seu material, eles apenas queriam que eu fosse e conseguisse as entrevistas com qualquer pessoa que eu quisesse.

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Qual é que pensam que é o lugar que a Marvel e a banda desenhada de super-heróis tem na história cultural americana?

SA: Eu sou um pouco parcial porque trabalho para a Marvel, mas digo que tem um grande lugar. Eu acho que o que amamos na Marvel Comics é o facto de que podemos inovar constantemente e não tentamos descansar à sombra do que fizemos ou onde estivemos no passado, mas, em vez disso, olhamos para o nosso público e para a nossa base de fãs e a cultura à nossa volta e percebemos como é que podemos pegar no fundamento do que é a Marvel e usá-lo no momento certo no tempo. Assim se olharmos para as novas personagens que estamos a criar, se virem como estamos a trazer novos escritores, se olharem para a expansão e todo o trabalho que estamos a fazer em áudio, no digital e em diferentes meios, certo?

Se olharem para o nosso trabalho nos livros para crianças ou jovens adultos, estou muito orgulhosa pelo facto da Marvel não descansar num momento ou olhar para si mesma como sendo capaz de fazer apenas uma coisa. Estamos constantemente a procurar como é que podemos ser os melhores contadores de histórias em todos os formatos de conteúdos e ter a certeza que a nossa base de fãs se sinta ligada a nós, sentir que é uma conversa de dois sentidos, percebem? Tudo começou com o Stan’s Soapbox [crónicas escritas pelo criador da Marvel para os fãs] e queremos essa ligação em tudo o que fazemos. E eu acho que, enquanto continuarmos a fazer isso, então teremos sempre um lugar nas conversas de cultura pop, desde que continuemos a apresentar grandes conteúdos.

PS: Exato, eu apenas acrescento que a Marvel faz parte da tapeçaria da cultura pop da América. Eu acho que o que eu adoro na Marvel é que é tão diversa naquilo que te identificas na tapeçaria da cultura pop. Eu acho que o Spider-Man é tão universal como a Coca-Cola ou o Rato Mickey, percebes? Essa ideia, essa cara, e o que representa, é aquilo que a Sarah está a dizer. É a face debaixo da máscara. E eu acho que todos podemos ser a face debaixo da máscara. Por isso, eu acho que esta é uma fantástica metáfora.

Somos todos heróis no nosso próprio mundo e caso te ligues ou não ao Black Panther ou ao Iron Man ou ao Spider-Man ou ao Fantastic Four, há um lugar para ti. E há uma personagem com o qual te identificas. E essa é a melhor parte. De muitas formas, e até partilha uma similaridade com o desporto. É como a minha personagem. A minha equipa. É o meu artista. O meu escritor. Eu adoro isso. Eu adoro o sentimento de pertença que podes ter e também adoro que isso faça parte do tecido de fabrico da nossa cultura pop.

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Porque é que pensam que é importante existir uma série como a Marvel 616?

SA: Eu estou na Marvel há, mais ou menos, 3 anos e eu lembro-me quando ingressei na empresa. Eu conhecia o produto final. Conhecia os filmes, as séries de televisão, as bandas desenhadas, mas não percebia verdadeiramente a paixão e o nível de preocupação que existia em criar 80 anos de storytelling. E durante estes três anos, tive a oportunidade de aprender tanto e existem tantas personagens loucas e histórias estranhas e coisas que é melhor não estarem num documentário. Tantas partes e, de alguma forma, tão atraentes como as histórias que contamos.

Assim, a partir do momento que o 616 foi explicado para mim, eu senti-me identificada porque acho que as pessoas se apaixonaram pelas nossas personagens e as nossas histórias. Elas querem saber qual foi o ímpeto que nos fez chegar a este ponto. Quem são as faces que desenharam o Miles Morales naquele livro que tu compras todos os dias na tua loja de banda desenhada local? Quais são as ligações que a comunidade de cosplay tem e isso leva a que se expanda o mundo, certo?

Eu acho que muitas crianças que estão a ler bandas desenhadas, especialmente fora dos Estados Unidos, estão a aprender que, não é por viverem na Europa ou na América do Sul ou na Ásia, que eles não possam ser o próximo artista ou o próximo grande escritor de banda desenhada da Marvel. E eu penso que é verdadeiramente importante que possamos abrir um pouco a porta e mostrar às pessoas como é que tudo funciona porque vai ajudar a inspirar a próxima geração de storytellers da Marvel, e é o que precisamos de fazer para que isto aconteça.

PS: Só quero acrescentar uma coisa Sarah. Na primeira banda desenhada da Marvel que escrevi, o artista que desenhou o livro era de Espanha e – eu troco correspondência com ele e eu adoro ver que os fãs daquele livro lhe pedem autógrafos em Espanha. Quando eu fui ao Japão no ano passado, vi os meus livros do Deadpool numa livraria japonesa e foi algo transcendente ver as minhas coisas traduzidas para diferentes línguas e vendidas numa estante como qualquer outro livro. Eu fico espantado pela atração que estes livros têm e saber que as minhas palavras foram traduzidas por aí e ainda funcionam nestes sítios diferentes, eu acho que isso é prova que devemos apostar nestes artistas fantásticos e, consequentemente, nestas personagens.

Artistas e escritores da Marvel são um dos destaques desta série documental
Artistas e escritores da Marvel são um dos destaques desta série documental © Disney+

Esta série tem variados tons e configurações. Como é que abordou a série como produtor?

SA: Desde o início, sabíamos que queríamos um grupo de histórias diversificado, certo? Se olharem para a Marvel Comics, algumas das personagens e histórias são muito sombrias. Olhas, por exemplo, para a Marvel Knights e vês que é um tipo de storytelling muito corajoso e quase a um nível de rua. Mas depois, também tens o Deadpool, e a Miss Marvel e até a Squirrel Girl. Queríamos essa diversidade nesta série porque acreditamos que seria o melhor reflexo do que representa a Marvel. Também nos permitiu que um maior conjunto de storytellers pudesse ser trazido para o projeto.

Porque, com o Paul, sabíamos que à partida, não importava o que acontecia, tu irias rir histericamente para qualquer coisa que fosse trazida para a mesa. E depois, com o Brian Oakes, que realizou o episódio The Marvel Method, ele tem uma grande experiência em storytelling visual que sabíamos como ele ia perceber a forma de traduzir a criação de uma banda desenhada para vídeo e como mostrar esse processo de uma forma cativante. Por isso, desde o início, sentimos que, se trouxéssemos o âmbito da série, então podíamos alargar as vozes criativas que traríamos e teríamos a melhor possibilidade de realmente mostrar a profundidade do que 80 anos da Marvel criou, desde os brinquedos, até aos livros de banda desenhada, e tudo o que acontece no meio. Tínhamos de ter a certeza que o abordávamos desde o início com o mesmo tipo de mentalidade aberta.

Teve oportunidade de ver os outros episódios? Se sim, qual foi a coisa mais fascinante que aprendeu?

PS: Sim, tive muita sorte de estar envolvido na fase inicial do processo. Então, como estávamos todos a editar no mesmo local, tive a oportunidade de me sentar e assistir a outras peças a serem editadas durante o processo, e consegui ver algumas das imagens à medida que iam sendo filmadas e até vi alguns dos episódios acabados. E eu acho que o que mais adoro é exatamente o que a Sarah disse. Por exemplo, o episódio do Spider-Man japonês surpreendeu-me porque é uma coisa que estava alojada na minha mente. Sou um grande fã de convenções de ficção científica, de banda desenhada e de ir às convenções de Star Trek. Então, lembro-me de ir ao Star Wars Holiday Special e, o que é que eu tenho? Tenho um Spider-Man muito esquisito que ninguém tinha visto. E isso transportou-me para algo da minha infância.

E depois, vi o episódio do Dan Slott [artista da Marvel], do qual sou um grande fã. Ver como ele vive e trabalha, deixa-me, nem sei bem explicar, deixou-me feliz. Eu acho que, por vezes, os artistas e escritores estão escondidos atrás dos seus ecrãs de computadores e não temos a possibilidade de os ver, de os sentir. E esta série trouxe isso mesmo. E também digo que o episódio da Gillian, wow [Higher, Further, Faster]. Estou tão feliz que já esteja feito porque ela falou de vozes e criadoras femininas tão diferentes e que moldaram o mundo da Marvel, não tendo o devido crédito por isso. E para perceber o poder que elas tinham, eu gosto de as trazer para o escalão do Stan [Lee] e do Jack [Kirby] no sentido que, tal como eles estavam no início, e tomaram medidas gigantes que puxaram a agulha para a frente e acho que isso nos ligou a todas estas personagens. Por isso, estou mesmo feliz por poder ter visto isso.

TRAILER DA NOVA SÉRIE MARVEL 616

“Marvel 616” estreia no dia 20 de novembro, em exclusivo, no Disney + Portugal.

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