LEFFEST ’17 | Tesnota, em análise

“Tesnota”, a primeira longa-metragem do russo Kantemir Balagov, foi um dos títulos mais controversos da secção Un Certain Regard no Festival de Cannes deste ano. Agora, este sufocante drama chega aos cinemas portugueses através do Lisbon & Sintra Film Festival, onde está em competição.

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Em 1998, na vila de Nalchik perto do norte do Cáucaso, histórias de raptos são algo comum no dia-a-dia de uma comunidade fortemente dividia por fronteiras étnicas e religiosas. É nesse tipo de ambiente que, certa noite, uma família judia celebra o noivado do seu filho David com uma simpática rapariga, também ela parte da “tribo” judaica de Nalchik. Entre as muitas caras risonhas e celebrantes, encontra-se o semblante desconfortável de Ila, a irmã do noivo cuja mãe forçou a envergar um vestido contra a sua vontade. Esta impetuosa jovem, que trabalha com o pai como mecânica, sente-se muito mais confortável no seu familiar par de jardineiras de ganga e um casaco do mesmo material com um leão desenhado nas costas, mas sua feminização forçada está longe de ser o único gesto opressor de uma família e comunidade conservadora contra Ila.

Assim que pode escapar da festa, Ila veste o seu traje habitual e parte, pela calada da noite, ao encontro do seu namorado, um homem que dá pelo nome de Zalim e que pertencente à etnia da Cabárdia. Remetendo para uma versão russa e monstruosamente anti sentimental de Romeu e Julieta, Ila e Zalim têm de se encontrar clandestinamente, para evitarem o olhar reprovador dos pais da rapariga ou a descoberta potencialmente perigosa dos amigos antissemitas dele. Chegada a manhã do dia seguinte, não é o namoro proibido de Ila que causa alarido, mas sim o rapto de David e sua noiva, que só serão libertados depois do pagamento de um resgate de considerável valor.

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Desesperados, os pais de Ila vendem a oficina onde patriarca e filha trabalham, mas o dinheiro não chega. Pela sua parte, a comunidade judaica local, orientada pelos líderes religiosos, está a auxiliar a angariação de fundos, mas somente para a recuperação da noiva de David. Encurralados entre a espada e a parede, os pais da protagonista viram-se para o último recurso que têm nesta sociedade patriarcal, a sua filha. Tornada comodidade comercial, Ila é prometida em casamento ao filho de uma família judia abastada, um amigo seu cujos avanços amorosos ela tinha rejeitado anteriormente. Tudo isso é engendrado sem o consentimento da hipotética noiva, sendo que nesta comunidade, ela não tem o poder de manifestar a sua vontade e é assim relegada à posição de um bem a ser vendido por um pai outrora simpatético e uma mãe cujo apego à filha nunca parece ter sido muito grande.

Avaliada com um olhar impiedosamente analítico, a narrativa de “Tesnota” não é totalmente livre de lugares-comuns e questionáveis desenvolvimentos, que tendem a parecer mais motivados pela vontade toda-poderosa de um argumentista principiante do que pelo orgânico encadeamento de ações e reações humanas das suas personagens. Com isso dito, a ferocidade com que o filme lida com os seus principais temas de sexualidade, subjugação feminina numa sociedade patriarcal, conflitos étnicos e questões de identidade cultural é admirável e acaba por ofuscar muitas das mais notórias fragilidades textuais.

No que diz respeito à sua construção formal, “Tesnota” demonstra muito menos fragilidades em relação ao seu texto, mas a impetuosa, quase obstinada atitude já patente no argumento volta a marcar presença aqui. Este é um filme de grandes planos apertados e de uma estética realista, mas não há possibilidade de confundir esta obra com uma aventura russa dos irmãos Dardenne. Ao contrário da displicência formal, que tudo sacrifica em nome da crua e superficial ideia de realismo social, típica desse influente duo de cineastas belgas, “Tesnota” demonstra um enorme cuidado com a criação de um mundo material cheio de exatas reconstruções do passado recente e de estudados discursos cromáticos que dão um toque de estilização visual à narrativa.

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Onde melhor a ferocidade textual e impetuosa confiança formalista se cruzam é precisamente na figura de Ila. Com uma psicologia palpavelmente complicada, o seu figurino em vibrantes tons de azul e uma câmara determinada a capturar todas as possíveis variações da sua expressão ora desconsolada, excitada ou motinosa, a protagonista de “Tesnota” é uma presença difícil de ignorar durante o decorrer do filme e quase impossível de esquecer depois dos créditos finais terminarem e as luzes da sala se acenderem. Grande parte desse triunfo não se deve, contudo, nem ao texto ou às imagens do filme, mas sim à assombrosa prestação de Darya Zhovnar.

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Este é um filme sem grandes máculas qualitativas no seu leque de prestações, sendo que o trabalho de Olga Dragunova como a áspera mãe de Ila e David é merecedor de particular destaque. No entanto, Zhovnar é uma revelação. Nas mãos desta atriz, que nunca antes tinha entrado num filme, Ila é uma força da natureza e uma jovem oprimida em igual medida, cheia de arestas vivas e facetas abrasivas que testam as simpatias da audiência ao mesmo tempo que hipnotizam o espetador e o prendem ao olhar cortante da protagonista.

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É uma pena, portanto, que um filme como este, cheio de potencial e insinuações de grandeza, seja quase descarrilado pela inclusão justamente controversa de filmagens reais, onde se veem execuções humanas. Para o realizador Kantemir Balagov, que aprendeu ao lado de Aleksandr Sokurov e aqui se está a estrear no panorama das longas-metragens, “Tesnota” é um filme com uma clara e muito intensa componente pessoal. Segundo algumas notas introdutórias e conclusivas, esta é uma história real de Nalchik, onde o cineasta cresceu, e, para além disso, o vídeo em questão terá sido algo encontrado pelos amigos de Balagov quando este era adolescente.

Para o realizador de “Tesnota”, as imagens de morte documentada nesse vídeo representam a primeira e muito traumática confrontação dele com a realidade de alguém a morrer assim. Nunca antes ele tinha testemunhado tais horrores de forma tão direta, e, numa cena em que Ila vê as execuções enquanto está na companhia dos amigos de Zalim, Balagov parece quase tentar recriar o seu trauma nos membros da audiência. Tal como acontece em filmes muito menos prestigiados como “Holocausto Canibal”, este tipo de imagens constitui uma violação ética contra o espetador e contra as pessoas que perderam a vida para a sua existência, reduzindo tais epítetos do sofrimento humano a uma forma fácil de chocar o público. Este cataclísmico erro, nascido de um indisciplinado impulso autobiográfico, acaba por ofuscar muitas das qualidades de “Tesnota”, um filme que, não obstante esse interlúdio documental, constitui uma das mais promissoras estreias do cinema europeu em 2017.

 

Tesnota, em análise
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Movie title: Tesnota

Date published: 23 de November de 2017

Director(s): Kantemir Balagov

Actor(s): Darya Zhovnar, Olga Dragunova, Atrem Cipin, Nazir Zhukov, Veniamin Kac,

Genre: Drama, 2017, 118 min

  • Claudio Alves - 75
75

CONCLUSÃO

Com exceção do seu uso eticamente condenável de filmagens de pessoas a serem executadas, “Tesnota” é uma bombástica estreia do seu realizador e atriz principal, cheio de fascinantes considerações sobre uma área e comunidade normalmente ignorados pelo cinema russo.

O MELHOR: O plano de Ila a deixar-se levar pela música e luzes de uma discoteca que acabou por tornar-se na principal imagem promocional de “Tesnota”, estando até presente no poster. Trata-se do momento mais imersivo do filme, assim como de uma montra para os extraordinários talentos de Darya Zhovnar.

O PIOR: A já muito referida utilização de imagens documentais de execuções humanas, que aparece mais ou menos no ponto médio do filme.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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