LEFFEST’15 | The Childhood of a Leader, em análise

 

The Childhood of a Leader, um dos filmes em competição no LEFFEST’15, é uma agressiva experiência cinemática e prova que o realizador estreante, Brady Corbet, não tem medo de alienar a sua audiência, ou mesmo de a atacar com a violência sensorial que consegue aqui construir.

 

the childhood of a leader leffest Título Original: The Childhood of a Leader
Realizador: Brady Corbet
Elenco: Robert Pattinson, Stacy Martin, Liam Cunningham,
Género: Drama
2015 | 115 min[starreviewmulti id=18 tpl=20 style=’oxygen_gif’ average_stars=’oxygen_gif’]

 

 

O primeiro filme a ser assinado por Brady Corbet na condição de realizador inicia-se com uma montagem de imagens da Primeira Guerra Mundial, acompanhada de uma infernal música a um volume que é quase doloroso para os ouvidos da sua audiência. Aqui, Corbet imediatamente estabelece a sua extravagante abordagem estilística e temática, sendo The Childhood of a Leader um filme sem concessões autorais, que reconta a infância de um líder totalitarista fictício, no período do final da 1ª Guerra Mundial.

The Childhood of a Leader divide-se em três capítulos e um epílogo, com cada um dos segmentos principais a ser denominado como um ataque de cólera, num raro momento de humor negro da parte de Corbet. A narrativa, com exceção do seu aterrador epílogo, desenrola-se numa região dos arredores de Paris, durante os meses de edificação do Tratado de Versalhes. Envolvido neste monumental momento político está o pai (Liam Cunningham) do jovem protagonista, um diplomata americano ao serviço do célebre presidente Wilson. É com sua mãe (Bérénice Bejo), no entanto, que Prescott (Tom Sweet), o protagonista, desenvolve a mais perigosa e antagónica relação familiar do filme. Mais que personagens humanas, The Childhood of a Leader é habitado por arquétipos e símbolos, com a matriarca, por exemplo, a revelar-se com uma multiplicidade de carga simbólica. Ela é alemã, imperiosamente aristocrata nas suas atitudes, uma fanática religiosa e uma visão em forma humana de um mundo antigo que ficou obsoleto depois deste primeiro conflito a uma escala mundial.

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O guião, escrito por Corbet e Mona Fastvold, toma a sua inspiração de uma impressionante bibliografia de ilustres autores, sendo os textos de Sartre, nomeadamente o que dá o título ao filme, de especial relevância. Ao contrário da estruturação textual de Sartre, Corbet não se interessa por observar o desenvolvimento intelectual do seu ditador juvenil. Pelo contrário, o realizador foca o seu olhar na crescente violência que caracteriza cada um dos episódios de manipulação e agressão familiar, examinando, em simultâneo, o panorama político que encerrou este turbulento período histórico.

Um dos seus mais fascinantes aspetos é o modo como o filme lida com dois dos principais tipos de análise histórica da origem de regimes totalitaristas. Por um lado, é apresentada a narrativa do indivíduo monstruoso e influente, que acaba por se tornar o veículo para o desenvolvimento de uma horrenda ditadura, por outro lado, Corbet tem a sagacidade de olhar sobre as maquinações políticas que posicionaram o mundo no rumo trágico que iria inevitavelmente levar aos horrores que assolaram o resto do século XX. Desse modo, The Childhood of a Leader consegue evitar ser apenas uma simples versão de Temos de Falar sobre Kevin vestida com o funéreo esplendor de uma Europa de luto.

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Há que louvar Corbet e a sua formidável equipa criativa pelo que aqui conseguem construir em termos formais. O mundo que morreu com a guerra e os seus interiores têm a beleza delapidada das mais elegantes ruínas da pintura romântica, enquanto a fotografia nos revela essas construções em tableaus de surpreendente precisão e frieza. Mas é a sonoridade de The Childhood of a Leader que se coloca como o mais ousado dos seus elementos. A música de Scott Walker é como um picador de gelo a violentamente perfurar os ouvidos da audiência, desde a explosiva abertura até ao final, em que o realizador perde quaisquer noções de contenção e decide atacar o seu público com um pesadelo tornado filme.

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É precisamente nos seus ensandecidos momentos finais que são reveladas as maiores glórias e os maiores problemas de The Childhood of a Leader. O primeiro filme realizado por Brady Corbet peca e prima pela sua ambição desmesurada, conseguindo desenvolver uma impressionante visão das origens do mal, ao mesmo tempo que tem a infeliz tendência de se assemelhar a um tratado académico. A experiência final é repetitiva e sem grandes complexidades na sua psicologia, ou inteligente subtileza. The Childhood of a Leader, no entanto, revela-se, não só como uma difícil experiência para o seu público, como também um dos filmes mais interessantes e essenciais do ano, em consequência da sua rara ambição, dos seus sucessos formais e até dos seus maiores fracassos.

 

CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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2 thoughts on “LEFFEST’15 | The Childhood of a Leader, em análise

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  • O ritmo europeu (lentíssimo) me agrada. Mas a inconsistência entre a vida familiar de um garoto americano nos arredores de Paris e o nascimento do Fascismo me chateou bastante. O que a personagem de Robert Pattinson está fazendo ali? Transando com a mãe do garoto protagonista? Se o “doce vampiro” de “Crepúsculo” é a encarnação de Hitler ou Mussolini, a personagem deveria ter mais falas e mais presença no filme. Quem escreveu, escreveu errado ou quem dirigiu, dirigiu errado. Se fosse o menino protagonista o líder fascista do futuro, seria tudo lógico e concatenado. Mas a personagem de Robert Pattinson não tem densidade na trama nem nos é informado nada relevante sobre ele para que ele apareça ao final como o novo líder fascista: Franco? Hitler? Mussolini? Quisling? Que filme chato e sem sentido para quem entende um mínimo de História.

  • Obrigado pelo comentário e pelo interesse.

    No que diz respeito à aparição de Robert Pattinson no final do filme, é implícito que ele está a desempenhar a versão mais velha do protagonista infantil. Nos próprios créditos do filme, ele está apontado como intérprete de dois papéis, Charles e “The Leader”. Efetivamente, o menino protagonista é esse líder fascista do epílogo, só que, na escolha de atores, os cineastas estavam a tentar dar a ideia de que o Líder seria o filho ilegítimo do amante da mãe.

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