Venice Sala Web | Liberami, em análise

Em Liberami, o grande vencedor da secção Orizzonti do Festival de Veneza, a cineasta Federica Di Giacomo retrata a realidade da prática de exorcismos nos dias de hoje. Tal como todos os filmes presentes no Venice Sala Web, esta obra foi exibida no Festival Internacional de Veneza e está, de momento, disponível no Festival Scope.

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Desde que, em 1973, William Friedkin chocou o mundo com o pesadelo cinematográfico de O Exorcista, que a possessão demónica, e a subsequente luta pela libertação do inocente possuído, se converteram em partes essenciais do cinema de terror. Pode-se até dizer que nasceu aí um subgénero, cujas sementes de medo estavam, ao contrário de histórias de vampiros e lobisomens, fortemente enraizadas nas crenças ainda tidas por muitas pessoas. Afinal, mesmo em 1973, O Exorcista foi publicitado como uma adaptação do testemunho de um caso verídico. No conforto do nosso ceticismo contemporâneo é fácil assumir que a maior parte do mundo vê tais histórias como histerias de um fanatismo religioso que não sabe lidar com problemas comportamentais e nervosos, no entanto, é verdade que continuam a fazer-se exorcismos nos dias de hoje.

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Apesar de começar como tantos outros filmes de terror, com uma passagem bíblica do Livro de Job e uma cena de exorcismo, Liberami, que valeu à italiana Federica Di Giacomo o prémio máximo da secção Orizzonti na Bienal de Veneza, não se trata de uma obra espampanante de entretenimento visceral. Pelo contrário, este é um documentário e a sua perspetiva está longe dos sensacionalismos lúridos. Isso regista-se logo durante esse referido exorcismo, onde a câmara está sempre distante das pessoas, com a mulher “possuída” virada de costas, numa imagem austera e despida de diabólicos floreados. É claro que tal austeridade formal não impede a cena de ser arrepiante, especialmente quando os gritos enfurecidos da “possuída” reverberam pelas paredes da igreja, rasgando a serenidade do tableau com uma agressividade digna de uns bons calafrios.

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A câmara de Di Giacomo não se mantém tão quieta e distante durante o resto do filme, mas existe sempre uma barreira entre ela e os seus sujeitos. Poderíamos mesmo dizer que, na construção deste estudo do exorcismo nos tempos modernos, a realizadora procurou reproduzir a abordagem “fly on the wall” tão popular no auge do cinema verité. A presença da câmara é para ser ignorada e nada é diretamente perguntado aos intervenientes. Focando-se numa comunidade de Palermo e nos dois padres exorcistas que aí praticam a sua fé, esta intrépida cineasta limita-se a observar tudo com uma surpreendente objetividade.

Tal abordagem, que se estivesse provida de maior precisão formal poderíamos quase comparar ao cinema anti-estilo de Wiseman, não significa, no entanto, que Liberami não tenha nada a dizer sobre o que apresenta. Pelo contrário, este documentário tem subjacente uma forte tese sobre este tipo de práticas medievais que ainda perduram nos nossos dias, mas faz a sua argumentação, não a partir da palavra, mas através da articulação de imagens e pequenos fragmentos de informação. Repare-se, por exemplo, no uso de várias conversas em que se fala de psicologia e da impotência médica face a problemas demoníacos, e depois vemos o nosso protagonista, o padre Cataldo, a receber do seu farmacêutico uma montanha de medicamentos para tratar tantas maladias como a osteoporose e problemas de tiroide. Noutra ocasião, a cineasta pede-nos para considerarmos três cenas com o mesmo “possuído”. Primeiro, vemo-lo numa missa de libertação a contorcer-se e em convulsões, depois testemunhamos o seu uso de drogas e, finalmente, ouvimo-lo falar com a sua namorada sobre a sua necessidade de exorcismo. Quando se mostra como nenhuma destas pessoas pensa em levar este homem a um centro de reabilitação para toxicodependentes, Liberami está a dizer muito sobre a mentalidade desta comunidade italiana.

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Silenciosamente, o filme vai expondo uma realidade ainda mais assustadora que as possessões demoníacas. Falamos, pois claro, de comunidades tão presas a uma versão fanática da doutrina católica, que condenam pessoas com graves problemas psicológicos, nervosos e comportamentais a sofrerem a falta de tratamento médico. Quando contrapomos as imagens trágicas de Giulia, uma mera adolescente, a ter convulsões que os pais veem como um sinal de falta de fé e o seu tratamento, que consiste num ritual religioso, com o absurdo do padre Cataldo a fazer exorcismos por telemóvel, o resultado final dá tanto para rir, como para chorar e gritar de raiva.

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Numa lancinante coda, Di Giacomo dá um murro no estômago de uma audiência indignada. Esta comunidade de Palermo, que ao longo do filme se tornou tão relevante como os rituais de exorcismo, não é um caso isolado. Na verdade, existem convenções de exorcistas sancionadas pelo Vaticano e, segundo as revelações de uma investigação do Le Monde, estamos a viver uma epidemia de supostas possessões demónicas e exorcismos. Em França, todas as dioceses têm a obrigação de apresentarem um exorcista de serviço, em Madrid há uma procura tal que se andam a tentar contratar sete novos padres capazes de exorcizar demónios, nos EUA o número de casos tem aumentado tão vertiginosamente, que, desde 2013, há 10 vezes mais exorcistas qualificados. A apoteose de todo este grotesco e absurdo revela-se quando somos informados que O Vaticano está a considerar criar um call center para este tipo de emergências. A mensagem final de Federica Di Giacomo e Liberami é bastante clara e consegue ser mais assustadora que qualquer prosaico filme de terror.

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O MELHOR: Os últimos 10 minutos e sua revelação de uma autêntica economia e subcultura em volta dos exorcismos.

O PIOR: Apesar dos seus triunfos jornalísticos, Liberami é bastante repetitivo, especialmente nas constantes cenas de missas de libertação. No entanto, a repetição tem um grande propósito, visto que assim nos mostra como, por muito que se faça na igreja, nenhuma destas pessoas parece melhorar.


 

Título Original: Liberami
Realizador:  Federica Di Giacomo
Festival Scope | Documentário | 2016 |89 min

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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