Venice Sala Web | Kékszakállú, em análise

Inspirando-se numa ópera sobre o Barba Azul e suas mulheres, o cineasta argentino Gastón Solnicki construiu, em Kékszakállú, um solene estudo sobre as dores de crescimento que afetam os jovens a entrar na vida adulta, usando um primor estético que relembra as sublimes obras-primas da sua compatriota, Lucrecia Martel. Tal como todos os filmes presentes no Venice Sala Web, esta obra foi exibida no Festival Internacional de Veneza e está, de momento, disponível no Festival Scope.

Gastón Solnicki Kékszakállú festival scope venice sala web

A primeira cena de Kékszakállú serve como uma maravilhosa sinédoque para o resto da sua totalidade, tanto a nível estético, como temático, humano, cómico e até rítmico. Numa piscina durante o Verão, quando as famílias vão de férias para zonas costeiras, observamos um grupo de crianças. A câmara começa por estar distante delas, exibindo as linhas arquitetónicas do local como seu principal objeto de estudo e, só depois, os humanos que por elas se movem. Em planos estáticos, vamo-nos aproximando da prancha, passamos por um sinal que avisa que as crianças são da responsabilidade dos seus pais e, finalmente terminamos num tableau protagonizado por uma menina, paralisada na incerteza se irá saltar ou não.

Essa referida relação entre o ser humano e os espaços arquitetónicos que os rodeiam é uma constante em todo o filme que, mesmo quando dissolve esta harmonia e supremacia espacial em relação ao humano, está sempre a lembrar a audiência da sua importância. A mestria na mise-en-scène do cineasta argentino Gastón Solnicki é inegável e o resultado são imagens tão naturalistas como teatrais. O artifício da câmara e seu estudado enquadramento nunca é esquecível, mesmo quando as imagens que captura se vão desdobrando em momentos estendidos de languidez e relaxado tédio. Antes do título do filme aparecer no ecrã, cerca de 20 minutos dentro de Kékszakállú, as figuras humanas parecem flutuar atordoadas nesse limbo harmonioso de imagens rígidas, mas casualmente elegantes.

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Apesar dessa rigidez, contudo, não estamos perante uma sufocante severidade estética e humana. Pelo contrário, o cineasta parece estar sempre disposto a cortar o ambiente de observação solene com picadas de humor imprevisível. Quer dizer, o humor seco pode aparecer de modo imprevisível, considerando a austeridade estilística, mas a sua germinação é sempre orgânica e parece aparecer como consequência das simples idiossincrasias humanas que Solnicki vai astutamente observando. O que ocorre, portanto, é uma espécie de espetacularidade casual a florescer da frieza do estilo teatral, algo justificável quando nos apercebemos que todo o filme é inspirado numa ópera húngara, cujas passagens musicais vão marcando a sua presença pelo filme.

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Há algo de inquietante em tudo isto, o que dá uma qualidade quase existencialista ou cósmica ao simples enredo no coração do filme. É aqui que convém referirmos fortemente quão distante o filme está de ser uma adaptação do “Castelo do Barba Azul”, a dita ópera húngara, pois, como o filme indica, tal é apenas uma inspiração, uma influência tonal e estética. Na verdade, a história de Kékszakállú centra-se no processo de crescer, de abandonar a infância, ultrapassar a adolescência e dar os primeiros passos numa vida adulta cheia de incertezas. Não é por acaso que, nas primeiras cenas durante as férias, o tempo parece fluir como que num limbo suspenso da realidade e que, mais tarde, as estranhas escolhas estilísticas de Solnicki acabem por transmitir mais inquietação que simples serenidade.

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No mundo de Kékszakállú, o empurrão para a vida adulta é marcada pelo desconforto e pelo temor do desconhecido. Da harmonia outrora existente entre humanos e o seu espaço, onde as linhas dos corpos pareciam complementar as linhas dos edifícios, passamos a uma abordagem onde a personagem ora se impõe por completo ao espaço ou é esmagada por ele. Sequências dentro de uma fábrica de salsichas e de uma Faculdade de Design e Arquitetura são de particular destaque, mostrando como as linhas retas, superfícies refletoras e cores inaturais podem, de repente, deixar de ser uma marca de passiva simbiose visual, mas sim do antagonismo do mundo para com jovens inseguros. Sair da letargia e começar a mover é um processo complicado, mas, segundo o filme, no final parece haver uma luz ao fundo do túnel, uma libertação existencial.

Também é na segunda metade de Kékszakállú que o filme ganha uma protagonista bem definida, cuja relação com o pai irritadiço se torna tão volátil que, quando ela acidentalmente espatifa o carro dele, esta acaba por tentar fugir do país e da ira paternal. Um desenvolvimento assim pode parecer melodramático e insólito, mas no mundo sonhador e teatral pintado por Gastón Solnicki e sua câmara, tudo isso consegue ser perfeitamente compreensível e orgânico. Em Kékszakállú, criou-se uma sublime e breve experiência de cinema, onde os sentidos da audiência são estimulados a partir de sons e imagens a um nível quase primordial, ao mesmo tempo que é estabelecido um fascinante discurso sobre as dores inerentes ao crescimento e ao avançar na direção da vida adulta. Contudo, há que destacar como, mesmo nos seus momentos mais dolorosos e angustiantes, o filme mantém sempre em mente os prazeres de outros tempos, como uma relaxada noite passada com amigas a cozinhar um polvo, a partilhar sorrisos e a desfrutar da companhia humana.

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O MELHOR: A mestria pitoresca que cada uma das precisas composições evidencia. No panorama do cinema independente de festivais, onde o realismo é tão usado como desculpa para o desleixe visual, esta proposta é particularmente preciosa.

O PIOR: Para muitos, mesmo com apenas 72 minutos, o filme vai, de certeza, provar-se uma monstruosidade de tédio. No entanto, para quem estiver disposto e aberto a cair nos seus particulares prazeres, essa duração tão curta acaba por se provar um motivo de frustração, não pelo tédio mas porque a sua brevidade nos rouba o maior número de prazeres de uma proposta mais comprida.


 

Título Original: Kékszakállú
Realizador:  Gastón Solnicki
Elenco: Laila Maltz, Katia Szechtman, Lara Tarlowski, Natali Maltz, Maria Soldi, Pedro Trocca
Festival Scope | Drama | 2016 |72 min

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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