Lina Wertmüller | A rainha anarca do cinema italiano

Para celebrar o início da 10ª Festa do Cinema Italiano em Lisboa, a nossa rubrica sobre Mulheres realizadoras foca-se, esta semana, na cineasta italiana que se tornou na primeira mulher a ser nomeada para o Óscar de Melhor Realização – Lina Wertmüller.

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Lina Wertmüller e a atriz Elena Fiore nas filmagens de FERIDO NA HONRA (1972)

 

Apesar de não haver falta de grandes realizadoras na história do cinema, a Academia de Hollywood apenas nomeou uma mulher para o Óscar de Melhor Realização em 1977 (ao todo apenas quatro mulheres receberam esta honra até hoje). A cineasta em questão foi a italiana Lina Wertmüller por Pasqualino das Sete Beldades, que também recebeu indicações para Melhor Filme Numa Língua Estrangeira, Melhor Ator e Melhor Argumento Original. Por um lado, este feito garantiu um lugar para Wertmüller nos livros de História, por outro, o seu sucesso dos anos 70 levou a que o resto da sua carreira fosse ofuscada e que o seu nome fosse eternamente reduzido a uma mera curiosidade sobre os Óscares. Quer dizer, para além desse famoso facto, há muitas pessoas que apenas conhecem Lina Wertmüller pela sua presença no livro dos Recordes Guinness como a realizadora do filme com o título mais comprido de sempre – Un fatto di sangue nel comune di Siculiana fra due uomini per causa di una vedova. Si sospettano moventi politici. Amore-Morte-Shimmy. Lugano belle. Tarantelle. Tarallucci e vino que é conhecido em Portugal por Pacto de Sangue.

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Mesmo pondo de parte o seu gosto por títulos monumentais, é surpreendente que Wertmüller tenha sido a primeira realizadora a ultrapassar os preconceitos sexistas da Academia. Dizemos isto, pois nada no seu repertório é particularmente ao gosto dos Óscares. Para se entender isso, basta ver-se a abertura do filme que lhe valeu a tão falada nomeação. Pasqualino das Sete Beldades inicia-se com uma montagem de filmagens de arquivo a representar os movimentos fascistas da Europa e sua capacidade para destruir, ao mesmo tempo que, em voz-off, um narrador descreve e delineia o objeto da crítica da realizadora – a burguesia e classe média que se deixam levar por movimentos populistas e deliberadamente se mantêm à distância da política para seu conforto pessoal. Para quem dominar a língua inglesa, deixamos aqui uma versão dessa abertura legendada para o público anglófono:

 

 

Tal exemplo de descarado fulgor panfletário é uma antítese do tipo de prestígio apolítico que os Óscares usualmente honram. É claro que, para Wertmüller, tal abordagem é o pão nosso de cada dia. Nascida em Roma no seio de uma família aristocrática, fortemente católica e de ascendência suíça, Lina Wertmüller foi uma rebelde desde a infância. Depois de ser expulsa de uma insólita quantidade de colégios católicos, ela foi contra a vontade dos pais e estudou teatro na Universidade, tornou-se numa militante de causas comunistas e numa anarquista assumida. Graças à amizade que ela travou com vários atores durante estes anos, Wertmüller acabaria por entrar no mundo do cinema.

 

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OS INATIVOS (1963)

 

Mais especificamente, foi graças a Marcello Mastroianni que ela foi contratada por Federico Fellini para ser a sua assistente de realização em 8 ½. Wertmüller já tinha trabalhado num filme dez anos antes e tinha também escrito para televisão, mas foi esta colaboração com Fellini que a levou a realizar a sua primeira longa-metragem. Estreado em 1963, Os Inativos foi filmado com muita da mesma equipa de Fellini, mas os seus temas de disparidade social são completamente obra de Wertmüller. Neste e no seu segundo filme, Questa volta parliamo di uomini, a cineasta trabalhou numa estética neorrealista mas depressa o seu estilo veio a adotar características mais típicas da commedia all’italiana com alguns elementos estilísticos e performativos reminiscentes da tradição teatral da opera buffa.

 

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FERIDO NA HONRA (1972)

 

A esta preocupação cómica tipicamente italiana, Wertmüller acrescentou o seu fervor político e um olhar cinematográfico bem focado no potencial físico dos corpos em cena. Tal conflagração de ideias e estilos viria a ser aperfeiçoada em Ferido na Honra de 1972. O filme, que marcou a primeira colaboração cinematográfica de Wertmüller e o seu ator fétiche Giancarlo Giannini, viria a tornar-se num imenso sucesso crítico e popular que transcendeu as fronteiras de Itália e veio a ganhar fama internacional. O filme, tal como muitas obras da realizadora, é descarado no seu teor político, contando a história de um operário siciliano que perde o emprego após votar contra as vontades da máfia local, se envolve com a Causa Comunista mas acaba por se provar egoísta e apenas interessado na sua honra masculina. Apesar disso, a realizadora nunca vilifica as suas personagens e mostra sempre uma peculiar compaixão. Essa humanidade intensifica-se nos seus trabalhos seguintes, Amor e Anarquia, sobre um anarquista campestre que viaja até Roma para matar Mussolini, e Tudo a Postos, Nada em Ordem, o retrato de um grupo de imigrantes operários em Milão.

 

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AMOR E ANARQUIA (1973)

 

Os sumários das narrativas de Lina Wertmüller poderão sugerir uma obra de coerência absoluta, mas, na verdade, esta é uma realizadora de eternas contradições. Por um lado, os complexos argumentos de Wertmüller sugerem uma séria destilação de ideias políticos em conflito, mas os seus filmes são paródias em que os seus atores parecem estrelas do cinema mudo tal é a sua gesticulação. Por um lado, ela é uma cineasta feminista, por outro, os seus filmes normalmente têm protagonistas masculinas que são claramente misóginos nas suas atitudes. Por um lado, Wertmüller foca o seu cinema nas classes baixas, mas ao mesmo tempo tende a caricaturar as suas figuras e a filmar os seus corpos politizados de modo caricaturado. Insólito destino é o exemplo máximo dessa natureza paradoxal e veio a causar muita polémica pela sua apresentação de ideologias políticas em conflito através da relação violenta entre um marinheiro machista e comunista e uma arrogante dondoca social-democrata. Muita controvérsia foi gerada em volta da obra devido à sua representação de uma relação claramente abusiva entre um homem violento e uma mulher subjugada, mesmo que o filme também seja parcialmente uma desconstrução do ideal masculino italiano (um tema recorrente nos filmes de Wertmüller).

 

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INSÓLITO DESTINO (1974)

 

A polémica apenas alimentou as chamas da notoriedade internacional de Wertmüller e foi precisamente essa fama que resultou no estrondoso sucesso de Pasqualino das Sete Beldades. O filme retrata a vida de um típico exemplo de masculinidade machista italiana que, depois de matar um homem para defender a honra de uma das suas irmãs, é posto num manicómio e daí acaba no exército de onde deserta. A maior parte do filme passa-se num campo de concentração nazi e testemunha os extremos a que Pasqualino está disposto a ir para sobreviver. Este é o mais sério dos grandes sucessos de Lina Wertmüller nos anos 70, mas o seu exagero cómico continua a marcar presença, assim como a forte materialidade física da sua mise-en-scéne. Essa mistura de exagero e visceralidade corporal levou muitas pessoas a queixarem-se do modo como a realizadora filmou o horror dos campos de concentração, mas uma coisa é certa, ninguém ficou indiferente.

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O sucesso desse filme e subsequentes nomeações para os Óscares fizeram com que Hollywood mostra-se interesse em Wertmüller, o que resultou numa série de colaborações mais ou menos infelizes. Como acontece com muitas mulheres realizadoras, o mais pequeno deslize provou-se catastrófico e, apesar de muitos atores de renome dos dois lados do Atlântico terem continuado a querer trabalhar com a realizadora, o seu perfil de estrela do cinema internacional esfumou-se. A insistência de Lina Wertmüller em não abandonar o estilo exagerado da comédia italiana não a ajudou a manter-se relevante aos olhos do público, especialmente quando o próprio circuito artístico se virou para o realismo europeu de autores como os irmãos Dardenne. Apesar de tudo isso, Lina Wertmüller nunca deixou de trabalhar ou de se mostrar obstinada tanto no seu estilo como nas suas ideologias e ainda realiza filmes e televisão hoje em dia.

 

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PASQUALINO DAS SETE BELDADES (1975)

 

Apesar de termos dado mais relevância às suas obras-primas dos anos 70, na obra mais tardia de Lina Wertmüller encontram-se deliciosos filmes como Camorra e o erótico Ferdinando e Carolina que também merecem ser vistos e celebrados.

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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