10ª Festa do Cinema Italiano | Sonhos Cor-de-Rosa, em análise

Sonhos Cor-de-Rosa de Marco Bellocchio abre a 10ª Festa do Cinema Italiano numa nota de sentimentalismo deprimente e cansativo.

Sonhos Cor-de-Rosa

Quer apreciemos o seu trabalho ou não, é difícil discordar com a noção que Marco Bellocchio é um dos cineastas italianos mais importantes da nossa época. Isto deve-se, em parte, à extensão do seu trabalho a épocas que não a nossa, sendo que a sua importância contemporânea é claramente um produto do seu percurso cinematográfico. Esse percurso começou no berço dos anos 60, a década mais frutífera de sempre no que diz respeito a vanguardas do cinema europeu, e chega aos nossos dias. Nesses tempos passados, Bellocchio ganhou a fama de ser um dos grandes provocadores do seu cinema nacional, sempre pronto a criticar a unidade familiar idealizada pela sociedade italiana assim como a tirania do catolicismo sobre a cultura do país e suas muitas hipocrisias. De certo modo, as ideologias latentes aos seus filmes quase sempre suplantaram qualquer tipo de virtuosismo ou criatividade formal e, chegados a 2017, mesmo esse poder ideológico parece estar a esbater-se na mesma medida em que Bellocchio vai parecendo cada vez mais como um mestre ancião que em si incorpora uma história vasta que lhe merece respeito, mas não relevância.

Fazemos esta, talvez cruel, sugestão de um provocador cuja ferocidade já foi domesticada, pois é difícil olhar para o seu mais recente trabalho, Sonhos Cor-de-Rosa, e, com a exceção de uma cena de interrogação cósmica, encontrar aí algo mais substancial que uma torrente de meloso sentimentalismo. O filme foi escrito pelo próprio Bellocchio com base na autobiografia do jornalista e escritor italiano Massimo Gramellini, cuja mãe se suicidou quando ele era ainda uma criança. Essa morte, cuja causa é escondida de Massimo durante décadas, atormentou o escritor durante toda a sua vida e, se acreditarmos no filme, deixou-o num estado de tal paralisia depressiva que, no fulgor desesperante da Guerra dos Balcãs, ele conseguia observar um rapaz traumatizado a brincar ao lado do cadáver ensanguentado da sua mãe com uma frieza abismal.

Sonhos Cor-de-Rosa

Esse momento macabro é, sem sombra de dúvida, o ponto mais baixo do filme. A imagem em si, que inclui um fotógrafo a manipular a situação de modo a ter um perfeito tableau choroso, poderia despertar uma série de questões fascinantes sobre jornalismo de guerra, ou mesmo sobre o modo como a ideia cultural da relação entre mães e filhos se reflete e emoldura a narrativa de tal horror, mas Bellochio não parece interessado em fazer nada disso. Face a esta Pietá invertida, o realizador digna-se apenas a usar este momento para mostrar a apatia do seu protagonista e nada mais. Reduzir tal sofrimento a um mero mecanismo de caracterização indireta parece quase amoral em reflexão e deixa um gosto amargo na consciência do espetador que, apesar do nome do realizador, está efetivamente a observar um melodrama meio freudiano sobre um homem a superar os traumas da sua infância.

Lê Também: Top 10 filmes do cinema italiano

Há muitos críticos que veem em Sonhos Cor-de-Rosa uma análise, ou mesmo uma crítica, ao conceito intrinsecamente italiano de a “mamma”. Quem tiver um conhecimento geral, mesmo que muito superficial, da cultura dessa nação certamente terá uma vaga ideia do tipo de veneração masculina a essa imagem idealizada da figura maternal, pronta a ser protegida, venerada e mantida num pedestal de abjeta inumanidade santificada. Certamente, tal análise não seria nenhuma novidade na filmografia de Bellocchio, onde o matricídio chegou a ser um tema recorrente, mas o máximo que vemos dessa intenção crítica encontra-se em alguns rasgos de ironia no meio de toda a lamechice.

Sonhos Cor-de-Rosa

Veja-se, por exemplo, a sequência em que, para responder a uma carta de um leitor que odeia a sua mãe, Massimo, que na altura trabalhava para um jornal italiano, reconta a dor da sua própria perda e alerta o leitor para que considere a sua sorte em ter uma mãe, pois seria muito pior se não tivesse, independentemente de qualquer tipo de maus tratos ou negligência emocional. No final de todo um desfile de reações lacrimosas, celebração do génio de Massimo e outros epítetos semelhantes, Bellocchio mostra-nos a mulher sobre quem a carta foi originalmente escrita. Longe de estar comovida, ela mostra-se seca, fria, brusca e sem uma ponta de compaixão para o seu filho e é o seu ceticismo face á sugestão de Massimo, que o filho a devia abraçar, que encerra a sequência. Humor negro e irónico que, infelizmente quase nunca mostra a cara a não ser nesta precisa instância.

Pelo contrário, o filme desdobra-se com a estrutura de um filme biográfico altamente convencional, em que cortamos entre Massimo na sua apática existência adulta e a sua infância e adolescência, antes e depois da morte que lhe definiu toda a vida. Eventualmente, o último ato do filme dedica-se a uma superação do trauma, tanto pela mão da verdade, que ele apenas conhece já com mais de 40 anos, e pelo desabrochar de um romance com Elisa, uma médica que o ajuda quando o escritor julga que vai morrer de um ataque cardíaco fulminante.

Sonhos Cor-de-Rosa

Noutros filmes, a inclusão desajeitada de um romance como método de salvação espiritual do protagonista poderia ter o efeito pernicioso de banalizar a narrativa e a reduzir a uma conflagração de clichés desinteressantes. Em Sonhos Cor-de-Rosa acontece o oposto. Na verdade, quando Bérénice Bejo entra em cena pela primeira vez é como se a abóbada de nuvens cinzentas de uma escura tarde invernal se abrisse para deixar passar preciosos raios de sol. Depois de mais de uma entediante hora na companhia do apropriadamente soturno Valerio Mastandrea, de Dario Dal Pero e de Nicolò Cabras como Massimo em três idades diferentes, o carisma inato que exsuda de Bejo eletriza o ecrã mesmo quando se torna evidente que o seu papel foi catastroficamente subdesenvolvido.

Lê Ainda: Lina Wertmüller | A rainha anarca do cinema italiano

Pelo menos quando estamos a olhar para a luminosa presença da atriz francesa, não temos de contemplar as ignóbeis faces dos atores a interpretar os familiares idosos de Massimo cuja maquilhagem de envelhecimento é particularmente má, ou refletir sobre o modo como o diretor de fotografia Daniele Ciprì alcança o diabólico milagre de criar um filme escuro e dessaturado que, ao mesmo tempo, parece sempre demasiado iluminado e manipulador no seu uso de cor. Nem tudo é medíocre em Sonhos Cor-de-Rosa, há que se salientar. A banda-sonora de Carlo Crivelli é belíssima, mesmo quando insiste em sublinhar o conteúdo emocional das cenas com demasiado vigor, e a história de vida de Massimo não é desprovido de interesse ou valor dramático. No entanto, ao fim de mais de duas horas (esta história não está nem perto de precisar de toda esta duração para ser contada) de clichés atrás de clichés, da maturidade emocional de uma telenovela de má qualidade e de uma surpreendente anemia intelectual, é difícil não nos rendermos ao negativismo ou, ainda pior, à indiferença.

Sonhos Cor-de-Rosa

O MELHOR: Esse raro momento de ironia que corta pelo meio de todo o sentimentalismo.

O PIOR: Quão entediante todo o filme acaba por ser.



Título Original:
Fai bei sogni
Realizador:
Marco Bellocchio
Elenco:
 Valerio Mastandrea, Valerio Mastandrea, Guido Caprino,  Barbara Ronchi, Emmanuelle Devos
Alambique | Drama, Romance, Biografia | 2016 | 134 min

sonhos rosa

[starreviewmulti id=30 tpl=20 style=’oxygen_gif’ average_stars=’oxygen_gif’] 


CA

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *