"Lingui - Os Laços Sagrados" | © Leopardo Filmes

Lingui – Os Laços Sagrados, em análise

Estreado na competição principal do 74º Festival de Cannes, “Lingui – Os Laços Sagrados” é o novo filme de Mahamat-Saleh Haroun. Abordando temas de opressão patriarcal e resistência feminina, a obra representou o Chade na corrida para o Óscar de Melhor Filme Internacional no ano passado.

A luta pela legalização do aborto tem sido uma das grandes odisseias da democracia moderna. O que se julgava ser um direito adquirido para a maior parte dos países ditos desenvolvidos agora debate-se novamente. Nos EUA, o caso Roe contra Wade reconheceu e consagrou o direito à interrupção voluntária da gravidez em 1973, mas agora o Supremo Tribunal planeia desmantelá-lo. Em Portugal, ainda agora se discutiu desincentivos económicos para médicos na Assembleia da República. Este último exemplo já caiu por terra, mas o clima político mundial continua na mesma.

Neste paradigma, certos filmes ganham novo valor e importância. Regressando ao caso Americano, a recente distribuição do “Acontecimento” de Audrey Diwan parece uma coincidência diabólica apesar de a obra ter sido exibida no ano passado em Veneza, onde ganhou o Leão de Ouro. No nosso paradigma lusitano, temos agora a estreia de “Lingui – Os Laços Sagrados.” A longa-metragem de Mahamat-Saleh Haroun pode ter competido no Festival de Cannes em 2021, mas só agora chega a Portugal, incluída num novo contexto que sublinha a sua urgência.

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© Leopardo Filmes

Rodado em Chade, um país muçulmano onde o aborto é ilegal, “Lingui” centra-se nos dilemas de duas mulheres – Amina e Maria, mãe e filha. Elas vivem nos arredores de N’Djamena, a capital de uma nação onde a pressão do patriarcado é impossível de ignorar. Mahamat-Saleh Haroun é um cineasta com experiência no foro documental e tem demonstrado um gosto pelo trabalho com atores amadores. É um artista em busca de autenticidade, que cristaliza os ritmos da vida banal num cinema caracterizado pela observação paciente do quotidiano.

Retratando o dia-a-dia de Amina, Haroun força-nos a compreender as subtilezas da sua existência enquanto mãe solteira numa sociedade em que o seu género é visto como inferior. Gestos de misoginia internalizada marcam variadas interações, desde a mais corriqueira cena de uma mulher a passar na rua até à sugestão macabra de mutilação genital. Não que o realizador puxe pelo efeito-choque, expondo o seu país em jeito crítico face a um público estrangeiro. Pelo contrário, a fita investe pouco no melodrama e jamais sacrifica a sua especificidade para agradar ao gosto europeu.

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Os ritos da fé e da sexualidade são examinados com franqueza, mas nunca se tornam em lúgubres espetáculos de exoticidade grotesca. Muito pelo contrário, “Lingui” é uma experiência íntima, centrada na vivência das suas protagonistas e no modo como as mulheres se ajudem como resistência coletiva. O drama principal devém da gravidez de Maria, uma mera adolescente com quinze anos de idade cuja vida será destruída caso se torne mãe. Toda a vida ela testemunhou quanto a sua progenitora foi ostracizada, rejeitada pela própria família e vítima do escárnio alheio.

A própria Amina parece reconhecer-se no suplício de Maria. Ela chega ao ponto de apelar àqueles que lhe viraram as costas em tempos, desesperada para salvar a filha de um fado semelhante ao seu, senão pior. Em contraste com estas angústias pessoais que devem ser sempre escondidas da vista pública, a violência sexista de todos os dias é encenada com uma simplicidade inquietante. Isto é a normalidade, tanto que a câmara não precisa de reforçar o horror, apresentando-o como algo que se toma por garantido. Tais realidades tonais servem para realçar as ações de revelia.

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A narrativa segue a procura pelo aborto e culmina num perfeito exemplo de como as mulheres encontram modos de sobreviver face ao poderio masculino. Celebra-se uma violência machista para ofuscar a vista de quem a exige, enquanto, na realidade, o que acontece é o seu contrário. Não revelaremos mais, mas fica a garantia de uma conclusão capaz de comover sem cair no cliché sentimental. De facto, a verdadeira maravilha de “Lingui” vive nesses vislumbres de solidariedade secreta, estas ligações que definem todas as mulheres como irmãs. É certo que há algum didatismo no texto, mas não é suficiente para invalidar o restante exercício.

Dito isso, é do ponto de vista formal que “Lingui – Os Laços Sagrados” mais triunfa. Como a maioria dos trabalhos assinados por Mahamat-Saleh Haroun, o filme encontra lirismo na materialidade mundana. Os figurinos coloridos servem para orientar o olho através de enquadramentos pitorescos, onde a luz natural revela as texturas visuais de N’Djamena e sua comunidade. Na mesma medida em que aplaudimos o talento fotográfico de Mathieu Giombini e as roupas belíssimas, também temos de reconhecer quanto o som define as tensões inefáveis deste drama. A música de Wasis Diop e a sonoplastia de Corinna Fieig impressionam quase tanto quanto a realização elegante de Haroun ou a prestação de Achouackh Abakar Souleymane no papel de Amina.

Lingui - Os Laços Sagrados, em análise
lingui critica

Movie title: Lingui

Date published: 14 de May de 2022

Director(s): Mahamat-Saleh Haroun

Actor(s): Achouackh Abakar Souleymane, Rihane Khalil Alio, Youssouf Djaoro, Briya Gomdigue, Saleh Sambo, Hadje Fatime N'Goua, Hamid Khayar, Emmanuel M'Baide Rotoubam

Genre: Drama, 2021, 87 min

  • Cláudio Alves - 77
77

CONCLUSÃO:

Belissimamente filmado, “Lingui – Os Laços Sagrados” é um retrato de solidariedade feminina no contexto opressivo do Chade contemporâneo. Mahamat-Saleh Haroun assina aqui um conto moral e meio moralista que procura sensibilizar o público e expor realidades escondidas. As elegâncias audiovisuais de mãos dadas com temáticas urgentes compensam algumas das vertentes menos bem conseguidas do argumento. Achouackh Abakar Souleymane brilha no papel principal de uma mãe que tenta ajudar a filha a todo o custo.

O MELHOR: O final emotivo, o milagre da irmandade feminina.

O PIOR: Quanto algumas passagens do filme parecem concebidas mais como lições de moralidade em prol das mulheres do que como dramaturgia funcional. Enfim, louvamos as boas intenções e reconhecemos quanto pequenos defeitos não invalidam as outras qualidades da obra.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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