"Lúa Vermelha" | © IndieLisboa

IndieLisboa ’20 | Lúa Vermelha, em análise

Na interseção do mito moderno e do folclore ancestral, “Lúa Vermelha” do cineasta galego Lois Patiño é uma arrojada proposta de cinema fantasmagórico. Depois de passar pela Berlinale, esta obra encontra-se agora integrada na Competição Internacional do 17º IndieLisboa.

Lendas são essas histórias contadas de geração em geração, contos rebuscados que tentam dar sentido a um mundo caótico. Como um organismo, eles vão evoluindo e cada passagem de boca para boca representa uma metamorfose. No mundo das artes, essas narrativas da tradição oral raramente têm direito à representação assumida, sendo filtradas pela ambição do criativo ou pela convenção do género. Dentro da filmografia de Lois Patiño, não é a lenda que se transforma à imagem do cinema, mas sim a sétima arte que se tem de adaptar à forma da lenda.

Assim tem sido com todos os seus projetos cinematográficos e assim continua a ser. “Lúa Vermelha”, a segunda longa-metragem do cineasta perpetua a sua exploração da lenda e do mito no grande ecrã, apelando a um universo onde a emoção humana e a crueldade da natureza vivem numa atribulada comunhão, explodindo em formas retorcidas. Como tantas destas histórias, é o mistério da Morte que tudo despoleta. É o definhar humano que vem das águas do Atlântico, a onda que afundou um barco e com ele levou um dos filhos da comunidade litoral.

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Ele era Rubio, um homem que já tinha salvo muitas pessoas do mar traiçoeiro antes de ele mesmo ser vítima das suas águas. No rescaldo da sua morte, uma maré de perda abateu-se sobre as pessoas da vila, luto e dor parecem surgir das pessoas como farrapos de fumo que contaminam a atmosfera. A terra, os riachos, plantas e até o ar estão oxidadas pela angústia das pessoas, doentes com uma infeção de infelicidade que sufoca o espectador que os observa. Contudo, da malignidade metafísica vem também uma certa beleza. É o belo que nasce do feio.

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Longe de transmitir tais ideias através de texto expositivo ou do diálogo, Patiño constrói uma experiência de cinema imersivo à base do tableau paisagístico e do retrato soturno, da quietude da imagem e o ribombar ominoso da banda-sonora. As poucas palavras que nos chegam aos ouvidos são como ecos fantasmagóricos, lamentações sussurradas, quase cânticos rituais. A mãe do morto chora e seus vizinhos comentam, fala-se do monstro que é o oceano e do que se pode fazer para contrariar a tragédia. Por fim, chamam-se as bruxas.

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Três mulheres de vestes modestas traçam linhas de discórdia na paisagem escura e cobrem a população com lençóis brancos. A terra dos vivos torna-se terra dos mortos e, quando a lua vermelha brilha no céu, Rubio reaparece. As bruxas ressuscitaram-no ou foi o monstro das águas? A onda que o matou é uma rocha que apareceu do dia para a noite ou trata-se de um monumento ancestral? Tantas perguntas e nenhuma resposta. Assim funciona o filme, essa pintura folclórica em tons de ferrugem e sangue que faz da Galiza costeira um lugar de magia e superstição.

Avisamos, contudo, que a proposta de “Lúa Vermelha” não é para todos. Apesar do ocasional grande plano, quase todo o filme é composto por paisagens estéreis e silêncio profundo. É cinema que se move ao ritmo de uma procissão fúnebre e não tem personagens, mas sim sensações. Glacial e ponderado, o filme perturba mais do que elucida, desorienta ao invés de iluminar e acaba mesmo por resvalar para uma inquietude próxima do terror. Ver esta “Lúa Vermelha” é como viver um pesadelo lúcido onde a penumbra da noite e a profundeza do oceano são o ventre de onde nascem os mais incompreensíveis horrores.

Lúa Vermelha, em análise
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Movie title: Lúa Vermelha

Date published: 28 de August de 2020

Director(s): Lois Patiño

Actor(s): Rubio de Camelle, Ana Marra, Carmen Martínez, Pilar Rodlos

Genre: Drama, 2020, 84 min

  • Cláudio Alves - 85
85

CONCLUSÃO:

Perturbador e belo, “Lúa Vermelha” é cinema poético que transtorna ao mesmo tempo que nos fascina. Em tons de terra queimada, ferrugem e sangue, Lois Patiño concebeu uma pintura infernal.

O MELHOR: A fotografia rubi e a sonoridade assombrosa.

O PIOR: A opacidade das figuras humanas torna o filme numa experiência formalista que carece de alguma humanidade. Discursa-se sobre a dor das pessoas, mas elas mesmas nunca são mais que abstrações.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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