"The Twentieth Century" | © IndieLisboa

IndieLisboa ’20 | The Twentieth Century, em análise

Na secção Boca do Inferno do 17º IndieLisboa, “The Twentieth Century” destaca-se como uma ensandecida proposta de cinema política na sua vertente mais fantasiosa e desbocada.

Deve um filme ser feito para todo o mundo ver? É correto esperarmos que um cineasta conceba obras universais em todos os seus aspetos ou é a especificidade o caminho a seguir? Quando nos referimos a trejeitos culturais e detalhes da História local, a procura pelo sentimento universal ganha um teor particularmente desagradável. Afinal, pensando no cinema português, seriam obras-primas como “As Mil e Uma Noites” e “O Ornitólogo” beneficiadas por uma escoriação da sua identidade lusitana? Pensamos que não, pelo que jamais denegriremos filmes de outras nacionalidades por ser culturalmente ilegível para nós.

Tudo isto para dizer que “The Twentieth Century” é quiçá o filme mais intensamente canadense alguma vez feito. Partindo de uma premissa biográfica, o realizador Matthew Rankin conta a história de William Lyon Mackenzie King e sua ascensão ao cargo de primeiro-ministro do Canadá. Até hoje, ele é o homem que mais tempo deteve essa posição e sua liderança do país durante a Segunda Guerra Mundial tem-lhe valido lugar de honra nas páginas dos livros de História. Contudo, longe de se prender a homenagens hagiográficas, Rankin troça abertamente do seu protagonista e aproveita-se dele para dissecar um século de nacionalismo cego.

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© IndieLisboa

Se estão à espera de uma aula de História convencional, este filme não é para vocês. As personagens têm praticamente todas bases factuais, mas o modo como interagem pouco ou nada tem que ver com a realidade. Segundo o próprio Rankin, “The Twentieth Century” podia ser um pesadelo de Mackenzie King por volta do virar do século, uma alucinação política onde tudo é exagerado e o próprio Canadá aparenta ser uma falsidade engendrada pelas psicoses do protagonista. A identidade nacional é uma ficção aos olhos de Rankin, o que torna o advento do fascismo ainda mais irracional do que já é no mundo real. Ser patriota é uma loucura quando a Pátria não é mais que uma brincadeira de miúdos.

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De facto, todo o processo político é uma brincadeira jogada pelos privilegiados aos olhos de Rankin. Ao invés de eleições, as personagens do filme defrontam-se em duelos de caligrafia urinária, corte de fitas, corridas labirínticas e até na chacina de focas bebés. King é quem sai mais denegrido no fim de tudo, sendo que a sua ambição pelo poder nasce da predestinação ao invés de qualquer ideologia. Ele não acredita em nada e não tenciona melhorar a vida de ninguém. O que quer é mandar, ou, pelo menos, ser respeitado como alguém que manda. Além disso também almeja ser o paradigma máximo de masculinidade canadense…seja lá o que isso for.

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Ou seja, a História é do Canadá, os símbolos são do Canadá, o humor é do Canadá. Até o estilo rebuscado da obra se consegue ligar a uma tradição canadense. Matthew Rankins segue os passos do visionário de Winnipeg, Guy Maddin, na procura de uma forma de cinema que apela ao arcaísmo e ao surreal. Por um lado, as imagens granulosas remetem para o cinema de outros dias. Isso é ainda mais reforçado pelo uso de cenografias inspiradas no Expressionismo Alemão e estilos de performance desenterrados da herança do melodrama propagandista dos anos 40.

Contudo, a imagética representada por esses mecanismos antigos não podia ser mais arrojada ou divorciada do tradicionalismo cinematográfico. A abstração espacial domina tudo o que vemos e os fortes sentimentos fazem-se ver pelo engenho abertamente teatral. A luxúria, por exemplo, é um cato que ejacula enquanto o sonho de um Québec independente se manifesta como uma estrela luminosa no céu pintado. Este jogo vai tão longe que, por vezes, é difícil entender o que se está a passar em cena. Como dissemos antes, “The Twentieth Century” dança no precipício da incompreensão e nunca tenta explicar as suas analogias históricas a um público desconhecedor da História do Canadá. Isso frustra, mas também impressiona, acabando por resultar num filme que é mais fácil de respeitar do que de amar.

The Twentieth Century, em análise
the twentieth century critica indielisboa

Movie title: The Twentieth Century

Date published: 30 de August de 2020

Director(s): Matthew Rankin

Actor(s): Dan Beirne, Sarianne Cormier, Catherine St-Laurent, Mikhaïl Ahooja, Brent Skagford, Seán Cullen, Louis Negin, Kee Chan

Genre: Biografia, Comédia, Drama, 2019, 90 min

  • Cláudio Alves - 75
75

CONCLUSÃO:

Como que progénie de David Lynch, Fritz Lang e Guy Maddin, “The Twentieth Century” é um pesadelo surreal que Matthew Rankin criou sobre temas canadenses. A História e a biografia são subvertidas por todos os elementos deste filme, onde catos têm orgasmos, botas malcheirosas são o maior afrodisíaco e o Canadá é o filho bastardo de um Império europeu com laivos de fascismo. O MELHOR: A cenografia tresloucada e o casting que transcende a identidade demográfica dos atores. O PIOR: A estrutura narrativa pede por personagens, mas Rankin não nos apresenta mais que caricaturas esvaziadas de humanidade. Isso torna o humor mais fácil, mas rouba poder e incisão política aos jogos do filme. CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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