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Lux Film Prize | 3 Filmes, 3 Visões da Europa

Parlamento Europeu (PE) e Cinemateca Portuguesa apresentaram  uma mostra competitiva dos três filmes finalistas ao Lux Film Prize. Este prémio, anunciado daqui a dias, tem como objectivo ampliar a distribuição das obras cinematográficas europeias, pelos países da UE.

Em final da temporada cinematográfica de 2019, além dos European Film Awards (Prémios do Cinema Europeu), entregues em dezembro próximo, está em marcha mais uma iniciativa de promoção do cinema produzido no continente europeu: os Dias do Cinema Lux, que aconteceram na Cinemateca Portuguesa entre 19 e 22 de Novembro e vão continuar em várias instituições e cineclubes de países da União Europeia. Este mini-festival competitivo consiste na apresentação dos três filmes finalistas, — escolhidos por um comité de selecção que vai desde críticos a directores de festivais — que apesar de terem um país de produção de origem, foram financiados, como aliás uma boa parte dos filmes europeus, como co-produções internacionais: o documentário ‘Cold Case Hammarskjöld’, de Mads Brügger (Dinamarca), o drama ‘God Exists, Her Name Is Petrunya’, de Teona Strugar Mitevska (Macedónia) e o thriller político ‘The Realm’, de Rodrigo Sorogoyen (Espanha). Este filmes são realmente três grandes exemplos da diversidade temática e estilística do cinema europeu, onde apesar da produção no total ser superior à de Hollywood, a maioria dos filmes, por razões linguísticas e promocionais não estreiam fora dos seus territórios nacionais. Contornando esta dificuldade é assim que no âmbito destes Dias do Cinema Lux, os três filmes finalistas são distribuídos e legendados nas 24 línguas oficiais da União Europeia.

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O documentário ‘Cold Case Hammarskjöld’, do jornalista e apresentador de televisão dinamarquês Mads Brügger (‘The Red Chapel’, 2010 e ‘The Ambassador’, 2012), assenta quase como nos seus filmes anteriores, entre teorias da conspiração e manipulações bem encenadas ao melhor estilo do reality show. Dir-se-ia que Brügger é quase uma espécie de Michael Moore europeu, mas talvez mais sofisticado. No entanto, ‘Cold Case Hammarskjöld’ é um trabalho muito perturbante, sobretudo pela maneira como é construída toda a trama, e da forma como como nasce a partir do estranho caso do sueco Dag Hammarskjöld, secretario-geral da ONU, que morreu num misterioso acidente de avião em Ndola, na Zambia, em 1961. Algo que a maioria dos espectadores desconhece e que parece ter ficado esquecido nas conturbadas memórias históricas do fim do colonialismo no século XX. Juntamente com o investigador privado Göran Björkdahl, Brügger procura, no seu jeito espectacular e provocatório, encontrar novas pistas sobre esse fatídico acidente aéreo e quais as suas possíveis ligações organizações clandestinas e terrorismo de estado. A dupla leva-nos, não sem algum cinismos e mitomania — chegam mesmo a escavar à pá o local do acidente, vestidos ao estilo colonial — mas ao ritmo de um thriller de investigação, a descobrir novas e desconcertantes histórias do colonialismo em África e de crimes inimagináveis praticados por organizações para-militares, financiadas por grandes empresas e potências internacionais. O filme é de uma espantosa actualidade já que se a questão da supremacia branca parece ter voltado sem qualquer pudor, às agendas políticas da extrema-direita europeia.

O filme da macedónia Teona Mitevska intitulado ‘God Exists, Her Name Is Petrunya’ — um dos filmes mais interessantes da competição da Berlinale 2019 — conta a história de uma jovem mulher que se opõe à tradição e ao patriarcado de uma forma bastante convincente e corajosa. Petrunya, tem 32 anos e apesar de uma licenciatura em História, está desempregada, mora com os pais em Stip uma pequena cidade do norte da Macedónia. Um dia, no regresso de uma entrevista de emprego que não foi muito bem sucedida, vê-se envolvida na multidão e no meio de uma importante festa religiosa local. A festa consiste numa competição em que os jovens rapazes tentam apanhar uma cruz que o padre atira de uma ponte ao rio. A recompensa e a superstição para quem a apanha é um ano de sorte e prosperidade. Sem pensar duas vezes, Petrunya atira-se à água e recolhe a cruz. Essa vitória incontestável vai atrapalhar a ordem social, porque as meninas não podem participar dessa competição, pondo obviamente em causa os dogmas da Igreja Ortodoxa e as normas da sociedade civil e retrógrada da comunidade. O filme em boa medida mostra os conflitos entre a modernidade e a tradição, a religião e a sociedade laica, temas e contradições, que por mais exóticos que nos pareçam, são ainda muito presentes nas culturas de alguns países do leste europeu, como neste caso nas Balcãs. ‘God Exists, Her Name Is Petrunya’, critica ainda o papel sensacionalista dos media, e sobretudo a secundarização das mulheres, no que diz respeito os preconceitos em relação ao mundo do trabalho, aos padrões de beleza e obesidade.

O filme ‘The Realm’ ou ‘El Reino’, no original do realizador espanhol Rodrigo Sorogoyen, trata-se de mais um excelente filme do cinema espanhol, que raramente estreia nas salas portuguesas e vai direito a um tema que está na ordem do dia: a política e a corrupção. O filme conquistou sete prémios Goya 2019, da Academia de Cinema de Espanha (melhor Realizador, Actor, Actor Secundário [Luis Zahera], Argumento Original, Edição, Som e Música) e isso demonstra de imediato a sua apetência para audiências mais alargadas do que as do art cinema. ‘El Reino’, efectivamente inspira-se num esquema de corrupção real que aconteceu em Espanha, denominado ‘caso Gürtel’, que passou em conceder contratos públicos a empresas, em troca de dinheiro, algo que ajudou a financiar as campanhas do Partido Popular (PP) de Espanha. O então primeiro-ministro, Mariano Rajoy, chegou mesmo a depor em tribunal. A história contada a um ritmo incessante e frenético de thriller e ao som de uma marcada música techno em fundo e uma fotografia nervosa, segue à primeira vista a derrocada do elegante Manuel Gómez Vidal (António de la Torre), um político influente, com uma família feliz, amigos em toda a parte e um carisma que o tornou uma figura amada na sua comunidade autónoma. No entanto, Manuel também é um corrupto que enriqueceu à custa de trocas de favores e dos dinheiros públicos.  Depois também do excelente ‘Dios nos perdone’, juntam-se novamente o realizador Rodrigo Sorogoyen e o excelente ator Antonio de La Torre, que nos brinda com uma espetacular interpretação, muito diferente dos seus papeis anteriores. A originalidade de ‘El Reino’ está não apenas na denuncia da corrupção política, das negociatas e da obsessão cega pelo dinheiro e pelo poder, mas também da forma original e intensa com que tudo é contado: isto é do ponto de vista do acusado, através de um argumento bem construído, tenso e imprevisível e que mostra como as consequências dos crimes de ‘colarinho branco’, acabam por ter  efeitos psicológicos e na vida privada dos envolvidos, até os limites do terror. Ação, tensão são mostrados com mestria, num filme poderoso e que termina de forma absolutamente inesperada e impactante. O seu grande alerta é um dos seus diálogos do filme (os reis se vão, mas os reinos permanecem) que remete obviamente para o título do filme, que além de ter passado no Festival de Toronto, foi um dos grandes sucessos de público do cinema espanhol. 

Dentro de dias, será anunciado pelo presidente do PE, o vencedor do Prémio do Lux Filme Prize,escolhido pelos deputadosum prémio que foi criado em 2007 e que visa incrementar a circulação e distribuição europeias das obras cinematográficas e, ao mesmo tempo estimular o debate à escala europeia, envolvendo público, realizadores produtores e deputados, sobre as principais questões sociais e políticas da União Europeia.

JVM

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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