Festival Scope | Makala, em análise

Makala é um documentário lírico e minimalista que teve a honra de ganhar o prémio principal da Semana da Crítica de Cannes e que está, de momento, disponível para ser visto online no site do Festival Scope. Não percas!

makala critica festival scope

Em 1993, a realizadora Flora M’mbugu-Schelling estreou aquele que é o seu único filme, These Hands. O documentário, de apenas 45 minutos, retrata o trabalho árduo de um grupo de mulheres que passam os seus dias a fabricar gravilha, martelando rochas até as reduzirem a pequenas lascas. O filme passa quase toda a sua duração no registo de observação passiva e hipnotizante lentidão, enfatizando a repetição, o aborrecimento e o esforço físico em cena. Com alguns minutos de sobra antes dos créditos finais, uma jubilante dança floresce entre as trabalhadoras exaustas e um texto aparece no ecrã a contextualizar a miséria que a audiência testemunhou sem, contudo, mostrar qualquer tipo de condescendência para com as pessoas que nos apresentou. Este documento cinematográfico da Tanzânia é uma pequena obra-prima de cinema africano e o seu legado assombra Makala, o novo documentário do francês Emmanuel Gras que ganhou o prémio principal do júri da Semana da Crítica no festival de Cannes deste ano.

Não queremos construir aqui uma análise de Makala somente através da comparação com um filme de 1993, mas as suas abordagens semelhantes a temas muito parecidos são algo a considerar. Distanciando-nos momentaneamente do triunfo de M’mbugu-Schelling, o filme de Emmanuel Gras passa-se no Congo e foca-se exclusivamente na figura de Kabwita Kasongo, um homem de 28 anos que sonha em um dia construir uma nova casa para a sua mulher e filhos, à volta da qual planeia plantar palmeiras e bananeiras. Para alcançar esse sonho e sustentar a sua família, ele passa os seus dias a cortar árvores, com a sua madeira fazer carvão e depois a transportar esse combustível, que em suaíli se chama “Makala”, para uma cidade onde o poderá vender.

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Apelando a um tipo de abordagem cinemática onde prima o minimalismo e a captura dos ritmos vagarosos da vida do seu protagonista, Gras dá início ao seu filme com uma sequência capaz de testar a paciência de quem não estiver já habituado ao “cinema lento” que é tão abundante no circuito dos festivais. Aí, vemos como Kabwita corta uma árvore, desde a primeira machadada até à eventual queda do tronco decepado no meio do terreno árido. Gras, que serviu de operador de câmara, ondula à volta do sujeito, foca-se no suor que lhe escorre pelo corpo e, quando a árvore já tombou, examina o seu coto machadado como uma criança curiosa.

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Nas suas danças de movimento e foco, a câmara quase ganha uma personalidade definida, na mesma instância em que os protagonistas humanos são apenas vagamente esboçados em conversas passageiras. O momento em que a mulher de Kabwita lhe extrai uma farpa do pé e o homem mal consegue aguentar a dor apesar de todo o esforço físico com que se tortura a si mesmo todos os dias é uma inesperada lufada de ar fresco e algum humor que precede a mais prolongada passagem de Makala. Referimo-nos, pois claro, aos três dias de viagem que o nosso protagonista tem de fazer para vender o seu carvão, que é posto em sacas amarradas por cima de uma bicicleta que é, claramente, o objeto de maior luxo desta unidade familiar.

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Com o escaldante sol africano a fustigar-lhe o corpo cansado, Kabwita avança lentamente no seu caminho, arrastando e empurrando a sua bicicleta e pequena montanha de carvão, à medida que veículos motorizados passam por ele e lhe cobrem o corpo de poeira. À sua volta a paisagem lembra um cenário pós-apocalíptico saído de um dos filmes de Mad Max, com a aridez desértica a ser apenas quebrada pela visão de cepos e fogueiras ocasionais. Todo o mundo natural foi sacrificado ao carvão, à necessidade de sobrevivência de pessoas como Kabwita. Aliás, algumas das mais belas imagens do filme ocorrem nesta parte da odisseia do carvão, como, por exemplo, a procissão de uma série de bicicletas iguais às de Kabwita ou o tableau sisífio da tortuosa subida de uma encosta atrás da bicicleta que mal se mantém em pé tal é o peso da sua carga.

Por muitas danças formalistas que a câmara de Gras faça e não obstante a clara justificação concetual da abordagem, este é um exercício em observar exaustão que acaba por exaustar a própria audiência. Felizmente para o espetador, quando Makala se começa a aproximar de um nível insustentável de repetição, Kabwita chega ao seu destino. No entanto, longe de encontrar uma gloriosa conclusão esta história apenas se desdobra em mais uma série de momentos de miséria, à medida que vemos como todo esforço de Kabwita quase nada lhe valeu em termos monetários. Não que o nosso herói de corpo estafado se mostre muito desiludido, surpreendido ou à beira do desespero. O seu olhar mantém-se sereno e é a audiência que é convidada a projetar qualquer tipo de angústia pessoal no seu semblante.

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No final, Makala e o seu protagonista chegam a uma espécie de igreja, onde muitas outras pessoas que sofrem misérias ainda maiores que as de Kabwita se encontram a pedir ajuda, misericórdia ou abnegação a deus. Eles cantam e a câmara deixa de se focar singularmente em Kabwita para serpentear pelas outras pessoas naquilo que se torna uma espécie de poderoso poema tonal em honra da resiliência humana, em honra daqueles que sofrem, mas continuam a viver e a lutar mesmo quando o futuro não lhes parece guardar nada de melhor.

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Ao contrário de These Hands, que é sempre um retrato coletivo, Makala utiliza este mecanismo final para nos sublinhar como o seu estudo de Kabwita se tratou de uma sinédoque, de uma pincelada de um retrato maior que muito ultrapassa o suplício singular do indivíduo. O nosso protagonista é um homem honroso e admirável, mas não é um caso único. Continuando ainda nesta comparação de dois filmes, as preces cantadas de Makala não têm nenhum do júbilo arrebatador da dança em These Hands. Enquanto o filme com mais de 20 anos é um murro no estômago de experimentalismo tonal e realismo social eletrizante, na sua procura por uma continuidade tonal e lirismo passivo, o filme de Gras perdeu muita da sua potencial intensidade e impacto visceral.

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A problematizar ainda mais a situação, está o modo como Gras nunca nos dá nenhum tipo de contexto sociopolítico para aquilo que Makala nos apresenta, preferindo manter-se no panorama do poema visual e não do manifesto. É uma escolha compreensível e bastante fácil de defender, mas não deixa de ser algo importante a apontar. Nada disso invalida a qualidade de Makala que, sendo aparentemente o primeiro documentário a estar em competição na Semana da Crítica, é um bom vencedor do prémio da sua secção paralela no Festival de Cannes. Nem que seja simplesmente pela audácia rítmica e tortuosa mostra de esforço físico, o filme merece ser visto e admirado pela cinefilia internacional.

 

Makala, em análise
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Movie title: Makala

Date published: 30 de May de 2017

Director(s): Emmanuel Gras

Actor(s): Kabwita Kasongo, Lydie Kasongo

Genre: Documentário, 2017, 96 min

  • Claudio Alves - 75
75

CONCLUSÃO

Como um documentário sociopolítico, Makala deixa um pouco a desejar, mas em termos de lirismo humanista este é um filme de qualidade, com alguns epítetos de grande beleza audiovisual, como a longa caminhada de três dias pela paisagem africana ou as mais delicadas passagens da banda-sonora minimalista.

O MELHOR: As imagens de cortar a respiração que Gras conseguiu capturar, especialmente nas cenas noturnas de Makala.

O PIOR: A duvidosa moralidade intrínseca a momentos como aquele em que a bicicleta de Kabwita é tombada e o realizador, cuja sombra é claramente visível, continua a observar o sofrimento do seu sujeito de forma completamente passiva.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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