Mamã, em análise

 

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 FICHA TÉCNICA

  • Título Original: Mommy
  • Realizador: Xavier Dolan
  • Elenco: Anne Dorval, Antoine-Olivier Pilon, Suzanne Clément
  • Género: Drama
  • Alambique | 2014 | 139 min

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O amor de mãe. Essa entidade metafísica que não conhece impossíveis, que se entranha nas recônditas entranhas, que governa o universo com leis desconhecidas, que rejeita condenar o condenável, que oculta os defeitos e exalta as virtudes, que dá sem nunca esperar receber, que é capaz de tudo para fazer tudo. É este o personagem central da nova odisseia humana de Xavier Dolan, “Mamã”.

Na trama, encontramos Diane “Die” Dépris (Anne Dorval), uma mãe viúva que dá por si a lidar com o fardo de ter a guarda exclusiva do seu filho de 15 anos, Steve (Antoine-Olivier Pilon), cuja condição psicológica é muito mais gravosa do que uma aparente hiperatividade. Steve jura proteger a sua mãe, mesmo que esta o deixe de amar, e Die, embebida numa esperança maternal quase desmesurada, só quer o melhor para o seu problemático príncipe. Na casa em frente, vive Kyla (Suzanne Clément), uma vizinha com uma dificuldade vocal que se oferece para ajudar Die e Steve, e que simultaneamente parece finalmente encontrar aquilo que lhe faltava para poder encarar de frente os fantasmas do seu passado.

Mamã (1)

O realizador canadiano tem apenas 25 anos, mas já conta com cinco aclamadas longas-metragens no currículo, às quais se somam diversos reconhecimentos, entre os quais o Prémio do Júri no prestigiado Festival de Cannes (em ex-aequo com “Adeus à Linguagem”, de Jean-Luc Godard). Será, portanto, um equívoco grosseiro considerar Dolan como um mero prodígio e não como um talento firme e incontestável. Em “Mamã”, porventura a sua obra mais completa, as suas qualidades na condição de autor absoluto estão patentes e à vista de quem as quiser apreciar.

Dolan pisa o terreno das relações familiares, regressando ao tema da figura maternal que lhe valeu a sua estreia em “J’ai tué Ma Mère”, com apenas 19 anos. Aqui, Anne Dorval e Suzanne Clément quase repisam os seus papéis num filme que partilha os estilhaços autobiográficos da sua obra de estreia, mas que é dissemelhante na sua abordagem final. Segundo Dolan, este “Mamã” é mais uma visão universal do supracitado amor de mãe. E nesse sentido, acaba por ser um retrato agridoce e visceral das relações fraternas, cuja genuinidade muitas vezes se confunde com aquela que já se tinha visto em “A Vida de Adèle”, de Abdellatif Kechiche.

Mamã (2)

Se Adèle Exarchopoulos havia sido a grande descoberta do ano transato, é fácil dizer o mesmo do irrepreensível Antoine-Olivier Pilon. Pilon é dono de uma performance tão perturbadora quanto energética, representando um jovem violento e imprevisível, mas também doce e carismático. O tour de force de Anne Dorval é também digno de registo, principalmente se formos capazes de observar a assombrosa disparidade da densidade espiritual da sua personagem entre o princípio e o termo da sua jornada. Suzanne Clément completa o trio de protagonistas com uma personagem mais discreta, mas subtilmente complexa e recheada de segredos que Dolan nunca desvenda explicitamente – qualquer realizador americano cairia no erro de explicar detalhadamente a história de vida de Kyla.

Mamã” também não é uma típica obra em progressão, nem quer gozar das leis matemáticas que descrevem probabilisticamente a distribuição de picos emocionais. O filme de Dolan é poderoso e avassalador em cada uma das suas cenas, e isso coloca-o no panteão das obras raras.

Quando Pilon, de headphones nos ouvidos e sorriso nos lábios, desliza por aquela rua no seu longboard ao som de Wonderwall dos Oasis e abre os braços em sinal de protesto contra o confinamento geométrico do ecrã de Dolan, sabemos que atingimos o auge. Os braços de Pilon abrem, a tela expande-se de forma proporcional ao insuflamento emocional do espectador e percebemos que a intenção de Dolan é que a exultação seja vivida na maior dimensão possível. É claro que a extensão correcta da vida restringe-nos à dimensão daquilo que somos capazes de sentir, e por isso Dolan vê-se obrigado a encurtar o ecrã nos momentos subsequentes, e a devolver a normalidade à vida de Steve.

Mamã (4)

Mas este é só um dos supremos artifícios da realização de Xavier Dolan que, para além de ser argumentista e produtor, ainda exibe um imaculado trabalho de montagem viciado por influências pop ao serviço da narrativa.

A musicalidade fundamentalmente pop é, aliás, um trunfo imprescindível de Mamã. Não falta a prata da casa na voz da também canadiana Céline Dion (Xavier Dolan já se confessou um admirador de “Titanic”, de James Cameron), o tema erudito de Ludovico Einaudi que protagoniza uma das mais belas sequências do ano cinematográfico ou um “Born to Die” nas palavras sorumbáticas de Lana del Rey, que nos mostra que o caminho da vida se faz caminhando.

Cenicamente, “Mamã” é também uma das obras mais virtuosas do ano. Ao apoiar-se nos jogos de luzes, cores e slow-motions, Dolan é capaz de representar sentimentos avassaladores em parcas sequências de imagens, levando-nos à derradeira rendição emocional, já perto do fim.

E no fim, fica a certeza que só há uma coisa capaz de fragilizar a imagem do enfant terrible: o futuro. O que está diante dele é a sua estreia na realização de um filme em língua inglesa mas o nível de exigência está demasiado alto para ser desconsiderado.

Interessa, contudo, olhar o presente. E o presente diz-nos que “Mamã” é um dos filmes incontornáveis do ano.

DR

Daniel E.S.Rodrigues

Sonho como se estivesse num filme de Wes Anderson, mas na verdade vivo no universo neurótico de Woody Allen. Sou obcecado pela temporada de prémios, e gostaria de ter seguido a carreira de cartomante para poder acertar em todas as previsões dos Óscares, Globos de Ouro (da SIC), Razzies, Troféus TV7 Dias e Corpo do Ano Men's Health. Mas, nesse universo neurótico e imperfeito em que me insiro, acabei por me tornar engenheiro. Sigam-me no Instagram para mais bitaites sobre Cinema, Música, Fotografia e outras coisas desinteressantes.

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