"Man Made" | © Roadside Entertainment

Queer Lisboa ’19 | Man Made, em análise

Man Made” é um dos documentários em competição na 23ª edição do Queer Lisboa e conta a história de quatro homens transgéneros envolvidos em culturismo e bodybuilding.

A TransFitCon é, atualmente, a única competição de culturismo feita única e exclusivamente para trans-culturistas, homens transgéneros independentemente do seu estado de transição. O evento realiza-se em Atlanta, no estado da Geórgia, e atrai todos os anos um público seleto que inclui até culturistas rejeitados por competições mais mainstream. Este é também o ponto de partida usado pelo realizador de “Man Made”, T Cooper, para explorar as vidas de quatro homens transgéneros, sua transição, suas famílias e a relação que têm com os seus corpos.

Ao invés de se focar em pessoas com experiências semelhantes, o cineasta teve a sagacidade para dar variedade ao seu retrato da comunidade. Dominic, o primeiro dos homens que vemos, é o filho adotivo de um casal caucasiano, mas sempre soube que biologicamente pertencia a outra etnia. Ao longo do filme, Cooper mostra-nos como Dominic finalmente cumpre o sonho de ter uma mastectomia e se livrar do peito de aspeto feminino. Contudo, o cineasta também nos cria uma ligação entre a procura pela identidade de género a uma procura pela identidade racial.

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© Roadside Entertainment

A história de Mason é bem diferente. Ele é um culturista ferrenho e o seu corpo corresponde a qualquer noção tradicional de masculinidade que se consiga imaginar. No entanto, a identidade de género dele e as marcas biológicas do seu sexo de nascença levantam obstáculos para ele. Vimos a descobrir que Mason anda a encontrar problemas no que diz respeito a competir em provas de culturismo comuns, sendo que até já houve quem exigisse que ele entrasse na competição como uma mulher. Isso implicaria que Mason teria de desfilar de saltos e biquíni, uma proposta que certamente provoca disforia no atleta.

Tanto Dominic como Mason têm relações amistosas com a família e ambos também têm sorte a nível romântico. Infelizmente, o mesmo não se pode dizer dos outros dois protagonistas deste documentário. Rese tem uma namorada extremosa, também ela uma pessoa transgénero, e ambos criam os filhos juntos, mas as suas relações com a família de sangue foram inexoravelmente cortadas quando ele saiu do armário. O jovem afro-americano chegou mesmo a ser expulso de casa e de refúgios para sem-abrigos, pois os organizadores não sabiam em que dormitório o colocar, se no dos homens se no das mulheres.

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Kennie, o último protagonista do documentário nunca sofreu tamanhos transtornos, mas a sua relação com a família não é particularmente amistosa. De todos os sujeitos de “Man Made”, este é aquele que ainda é reconhecido como mulher no seu círculo social. A confusão de pronomes na boca dos seus clientes, no ginásio em que trabalha, e até na boca da mãe são pequenas agressões que se vão acumulando, sendo algo com que ele lida todos os dias. A pedra basilar de Kennie, aquela figura que mantém o equilíbrio emocional na sua vida é a namorada, mas essa própria dinâmica não é muito saudável para as pessoas envolvidas.

Ela, uma lésbica assumida, conheceu Kennie quando o corpo deste ainda apresentava várias características femininas. Ela sempre o viu como um homem, mas era a feminilidade da sua fisionomia que estava no âmago da sua relação sexual. À medida que Kennie vai avançando na sua transição, a namorada vai perdendo interesse sexual nele. Esta não é uma situação fácil, especialmente quando estes parceiros se parecem realmente amar e querem apoiar o outro sem se traírem a si mesmos e às suas identidades, seus desejos e sua integridade. Desde o início, o espectador sabe que os dias do casal estão contados, mas vê-los aceitar isso mesmo confere à obra um toque de tragédia romântica.

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© Queer Lisboa

De facto, todas estas histórias poderiam ser o foco de um só filme e é um pouco frustrante ver como “Man Made” as tem que fragmentar e intercortar umas nas outras. O que isto dá ao filme é uma certa energia e estrutura mais ou menos definida. Tantos destes retratos documentais sofrem pela falta de uma estrutura legível, mas a qualidade quadripartida de “Man Made” até remedia o que podia ser um problema. Isso e o modo como T Cooper orientou tudo isto em volta da TransFitCon. É claro que nem tudo é perfeito, especialmente quando Rese não pode participar e, de repente, o projeto perde um protagonista. É difícil criticar um projeto por fragilidades que tão claramente se devem a acasos da vida ao invés de más decisões cinematográficas.

No entanto, é impossível não ver como a repentina ausência de Rese desequilibra o filme e faz com que o seu jogo concetual descarrile um pouco na fase final. Enfim, como um retrato de quatro pessoas unidas pela identidade de género e a passar por experiências completamente distintas, “Man Made” é um triunfo modesto. Também há algo de fascinante no modo como a obra encara os culturistas em si, assim como a sua relação com os corpos. De certo modo, é fácil ver como estes homens são atraídos por um desporto, uma arte, que usa o corpo como matéria-prima a ser esculpida até chegar a um paradigma de perfeição muscular. Para eles, que passam a vida a transformar o corpo para que este corresponda à sua identidade, o culturismo parece quase uma extensão orgânica do dia-a-dia.

Man Made, em análise
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Movie title: Man Made

Date published: 22 de September de 2019

Director(s): T Cooper

Genre: Documentário, 2018, 93 min

  • Cláudio Alves - 60
60

CONCLUSÃO:

“Man Made” mostra-nos um retrato coletivo de uma comunidade, ao focar-se em quatro homens transgéneros interessados em culturismo. Esse desporto de tomar controlo dos corpos e moldá-los com exercício do mesmo modo que um escultor usa o cinzel é algo que apela a estes homens e o cineasta T Cooper explora tal relação com sagacidade. Infelizmente, alguns desequilíbrios narrativos e acasos da vida fazem com que a obra comece a descarrilar lá para o fim.

O MELHOR: A franqueza, por vezes abrasiva, com que o documentário lida com os seus sujeitos e as pessoas que os rodeiam, quer sejam namoradas, mães ou irmãos intolerantes.

O PIOR: Há algo de desconfortável no modo como o realizador se intromete na sala em que os bodybuilders se secam depois do bronzeado em spray. Há uma fetichização meio feia no modo como olha para os genitais dos outros homens cis e os compara indiretamente com a silhueta de Mason.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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