The Mandalorian | © Disney

The Mandalorian, segunda temporada em análise

“A segunda temporada de “The Mandalorian” recupera o carisma temperamental e o gatilho impulsivo da auspiciosa estreia em Setembro passado, cimentando o merecido estatuto de clássico instantâneo. Favreau e Filoni elevam ainda mais o tempero do seu western-spaghetti, provando que as derivações de grandes êxitos de bilheteira são uma raridade, mas de quando em vez surgem pérolas arrebatadoras como esta.

Com as salas de cinema encerradas à chave devido à Pandemia, e sem a habitual manutenção cinematográfica anual, uma das franquias mais veneradas por miúdos e graúdos (Star Wars), encontrou no seu primeiro formato “live-action” televisivo, o nicho perfeito para continuar a difundir a essência valorativa que informou o início apaixonante de toda a Saga. E tal como aterrámos nos “finalmentes” da primeira temporada pendurados nas notas triunfantes de um desfecho heróico ancorado à inevitável sobrevivência do maligno Moff Gideon (Esposito), a segunda incursão ao universo do Mandaloriano volta a levantar voo com a mesma fervura em polvorosa dos seus capítulos antecessores. Aliás, é precisamente com esse ávido espírito para inquietações eminentes, que o episódio “The Marshall” convida o encapsulado bebé “Yoda” e o seu cowboy protetor – igualmente referido na gíria como “Din Djarin” -, para uma caminhada periclitante pela penumbra da noite, com a aura do lado negro da força a pairar nas sombras não refratadas pela iluminação dos candeeiros de rua.

The Mandalorian T2 Análise Corpo
The Mandalorian | © Disney

Desta feita, a bagunça da praxe não tem início no típico “saloon” local como seria apanágio de um qualquer western, mas lá iremos parar, ao invés temos um ring de combates clandestinos como pano de fundo e a mesma plateia esquisitóide a clamar por pancadaria. Mas já sabemos que é nesta estrutura frontal de oferta e contrapartida que assentam os rastilhos das tramas maioritariamente redigidas por Filoni, sendo que o foco em “Mando” começa a desdobrar-se numa escala superior de outras mini-histórias interpessoais ligadas à proposição mãe. E “The Marshall” é a prova disso mesmo, quando o caçador de prémios trava um tête-à-tête com um pseudo irmão Mandaloriano, impiamente interpretado pelo mesmo ex-marechal de “Justified”, que tenta chegar a termos para libertar o seu povo de uma ameaça carnívora em troca da sua honrosa armadura “Beskar”. Sim, estamos a falar de Timothy Olyphant, um dos “newcomers” desta novíssima fornada de eventos faroestianos, que injetam a malagueta insolente no caril galanteador das relações proveitosas instigadoras da novela espacial. E é justamente nessa tal permuta explosiva de interesses antagónicos à procura de terreno comum, que reside uma das maiores valias argumentativas de “The Mandalorian”, que pega na moralidade das suas personagens sui generis e joga ping-pong com ela sem que o drama seja capaz de engolir o imprescindível calor humorístico.

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E se é um facto inegável, que Favreau é exímio em edificar uma atmosfera imaculadamente realista com coreografias de ação estonteantes ao virar de cada esquina, em “The Passenger” os decibéis agudos não temem ser mais abafados em prol do favorecimento introspetivo de temáticas chave relacionadas com os valores da obra magna de George Lucas, tais como: a noção de irmandade, o sentido de responsabilidade, o dever de retidão…De resto, é nesta entrada na história, que o argumento de Filoni escava mais uma camada no caráter do nosso mercenário sem rosto, na medida em que para se reunir com os seus pares Mandalorianos, é-lhe incumbido a tarefa de proteger as crias de uma linhagem alienígena em extinção, como se a desafiante tutela do pequeno “Yoda” já não fosse um fardo menor. É aqui, que “Din Djarin” conhece a derradeira provação parental, tendo que estar como já dizia o ditado “com um olho no peixe e outro no gato”, porque de facto, “quem tem filhos, tem cadilhos”, e as ameaças estão sempre à espera de serem destapadas. E à medida que “Mando” e a “Criança” exploram os planetas mais longínquos da galáxia, a rede de pesca adensa-se pela captura de ambos, aumentando o risco de cada missão, mas do mesmo modo a possibilidade de atrair novos intervenientes para a sua causa, como um trio de Mandalorianos liderado pela guerreira Bo-Katan Kryze, que revela debaixo do capacete oval , uma Katee Sackhof com a nervura de uma batedora de “furyans”, não estivesse Bryce Dallas Howard a dirigir a cena para empoderar a mulher com a sua coragem jurássica.

The Mandalorian T2 Análise Corpo

Mas nem só de sangue fresco vive a série do momento, com a repetente Marechal Dune (Gina Carano) de “Nevarro” que, infelizmente, não voltará a encarnar o belíssimo papel, depois de comentários discriminatórios nas redes sociais terem ditado o fim da relação contratual com a Disney. No entanto, temos o mais que lendário Carl Weathers (Greef Karga) de pedra e cal, ele que dirigiu eloquentemente o décimo segundo capítulo em que participa, provando que aos 73 anos ainda tem muita corda para dar aos sapatos. Não obstante, é uma pena que este duo dinâmico cheio de garra e charme seja desfeito, mas pelo menos ainda os temos em grande plano nesta segunda rodada. E à medida que o pequenote verdinho se aproxima da Força, é no luminoso episódio “The Jedi”, que a ponta do véu começa a ser levantada quanto ao seu misterioso destino. Favreau, que já nos tinha dado solarengos desertos e luxuosas vegetações fotorealistas de cortar a respiração, cortesia de uma inovadora técnica de filmagem designada por “Stagecraft”, à qual fizemos já referência na nossa análise à primeira temporada, leva-nos para a floresta estéril do planeta “Corvus”, que Filoni diz ser inspirado nos violentos incêndios californianos. Num jogo de lampejos crepitantes e sombras turvas visualmente espicaçantes, somos apresentados a uma mestre do sabre de luz de aparência tribal conhecida por Ashoka Tano (Rosario Dawson), que tenta infiltrar-se nas fortificações da cidade de “Calodan”, a fim de libertar a plebe da tirana magistrada imperialista Morgan Elsbeth (Diana Lee Inosanto).

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Se bem se recordam, Ashoka Tano foi aceite como aprendiz Padawan de Anakin Skywalker em “A Guerra dos Clones”, e regressa em “The Jedi” para fazer a ponte entre “The Mandalorian” e os enredos principais. E para não “spoilarmos” mais dois regressos de peso, há que dar mérito a Favreau e Filoni por enquadrarem tão bem este tipo de referências nostálgicas para os fãs: seja pela repescagem de figuras icónicas, seja pela revisitação de lugares emblemáticos. Assim sendo, a segunda temporada de “The Mandalorian” expande, enriquece e amadurece todo o universo “Star Wars” ao permitir focar-se noutras lendas que já não se limitam só a existir como meras referências históricas no cinema, mas que agora ganham vida própria como se dele fizessem parte integrante. Nota-se o carinho e adoração que os criadores depositaram nesta mega produção televisiva, que conta ainda com a ampla visão diretiva de alguns ilustres da indústria de Hollywood, em mais uma marcante e inesquecível carta de amor dedicada a toda a comunidade da “Guerra das Estrelas”.

P.S. – “This is the way”…

The Mandalorian T2 | Em Análise

Name: The Mandalorian (Disney+)

Description: "O Mandaloriano e a Criança continuam a sua jornada, enfrentando inimigos e reunindo aliados enquanto fazem seu caminho através de uma galáxia perigosa na era tumultuada após o colapso do Império Galáctico.”

  • Miguel Simão - 95
  • Inês Serra - 90
93

CONCLUSÃO

A segunda temporada de “The Mandalorian” capitaliza no estado de graça alcançado pela primorosa apresentação visual coadjuvada por um storytelling simples mas persuasivo repleto de ritmo e personalidade, que devolve a franquia à sua essência mais purista. Favreau e Filoni conseguiram transformar uma série televisiva de oito magros episódios,
em algo tão épico como os primeiros capítulos cinematográficos da Saga.

Pros

  • Pináculo visual alcançado por Favreau
  • Tributo aos grandes clássicos televisivos
  • Divertimento do princípio ao fim
  • Personagens icónicas
  • Interpretações memoráveis
  • Montagem sonora inigualável

Cons

  • Episódios demasiado curtos
  • Enredo algo simplista, apesar do resultado eficiente
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Miguel Simão

Jurista e Poeta em algumas horas vagas. Cinéfilo incurável com forte pancada pelo sci-fi, que se perde algures pelo vício noturno de umas quantas séries televisivas de renome; amaldiçoado pelo perfecionismo estético de uma resma de palavras mais ou menos caras. Podem encontrar-me a divagar entre a Terra e o Espaço no meu blogue premiado Última Transmissão Humana.

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