The Mandalorian | © Disney

The Mandalorian, primeira temporada em análise

The Mandalorian” é o novo spin-off da eterna saga “Star Wars” que, para variar, acrescenta substância e valor a uma franquia desgastada num “looping” existencial. Favreau introduz-nos ao primeiro “live action” do universo estelar, conferindo-lhe a vibe espicaçante de um western espacial.

“The Mandalorian” é, provavelmente, a derivação ficcional mais relevante até à data com a chancela “Star Wars“, não só porque inaugura novas técnicas de filmagem em tempo real, favorecendo, assim, o florescimento de paisagens mais realistas com gente de carne e osso. Mas também remodela ligeiramente o tradicional conceito de ópera espacial, repescando o seu lado mais terreno e faroestiano, ao invés daquela forte presença de apertados corredores futuristas e da chuva de lasers multicoloridos a beijarem-se na imensidão do espaço. Aliás, a visão romantizada de Favreau, que cresceu com os cowboys de Eastwood e os samurais de Kurusawa, tal como Lucas, aproximam este “The Mandalorian” da sua essência benigna mais exploratória e aventureira, assente na valoração da ação humana implícita nessas referências do cinema sexagenário. Poderá dizer-se, portanto, que “The Mandalorian” possa ser acolhido como uma agradável surpresa para os fãs mais puristas de “A Guerra das Estrelas”, e o porta-estandarte do recém-lançado canal de streaming “Disney+”.

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The Mandalorian | © Disney

O enredo co-redigido por Favreau e Filoni poderá suscitar, num primeiro olhar, aquele tipo de simplicidade barata formatada para ser mais digerida que pensada. Mas a verdade é que, a lucidez pragmática e objetiva da narrativa, aliada a uma disruptiva estrutura formalista mais Tarantino, de novelização fugaz estilo banda-desenhada, concedem a “The Mandalorian” um desejado tanque de oxigénio altamente respirável nas linhas laterais da história principal. Assim sendo, “O Mandaloriano” não é nada mais nada menos que uma reprodução física do mítico guerreiro sem rosto “Boba Fett”, cuja eloquente assinatura vocal é creditada a Pedro Pascal (Narcos), pese embora se discuta nos bastidores a dobragem da sua voz em duplos, que vão alternando consigo debaixo do indestrutível capacete de ferro “Beskar”. O resultado dessa colaboração mutual, seja verdade ou não, admitamos que sim, volta a reavivar a ideia galdéria de um mercenário a soldo, que vai descarnando um código moral mais próximo do anti-herói altruísta que do vilão ganancioso. Favreau descreve-o como “a versão desconstruída de “O Homem sem Nome”, que consagrou Sergio Leone como o artífice do “western spaghetti” ou “bang bang” – um sub-género importado dos famosos filmes do Velho Oeste Americano, sempre carregados de duelos fervorosos, personagens marcantes e texturas selvagens.

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E é um bocadinho dessa fabulação nostálgica de grandes paixões e grandes “cojones”, que Favreau vende habilmente em “The Mandalorian”, compensando a banalidade do argumento por algo tão ou mais valioso, o seu espírito. Só o simples facto de estarmos na presença de um elemento mascarado, é o bastante para a nossa imaginação ser estimulada pela curiosidade nata de compreendermos e acedermos ao oculto misterioso. O próprio Pedro Pascal revela que sentiu-se empoderado com a premissa de se esconder na pele de um pistoleiro solitário; e que o privilégio de poder humanizar aquela figura anónima para o mundo, proporcionou-lhe uma sensação estranhamente libertadora. Cronologicamente, as incidências da trama levam-nos para os terrenos mais longínquos e baldios da galáxia, algures entre o vazio temporal da queda do Império e o advento da Primeira Ordem – cerca de cinco anos após os eventos de “O Regresso de Jedi”, para ser mais preciso. Num período tumultuoso de transição e consolidação do poder central da Nova República, os mundos periféricos da Orla Exterior debatem-se com resistências internas instigadoras de anarquia e criminalidade – o ambiente perfeito para os caçadores de prémios construírem a sua temível reputação.

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The Mandalorian | © Disney

E Favreau não se demora em colocar o moderno cowboy à porta de um “saloon” repleto de criaturas excêntricas, como aquele típico forasteiro convencido que chega preparado para a bagunça da praxe, e precisa de um bom aperitivo antes de reivindicar o seu “bounty puck” – um disco holográfico que contem a informação de captura da sua recompensa. Mas “Mando” (diminutivo de clã), não trabalha propriamente por conta própria, é subcontratado por um comerciante de missões remuneráveis, um tal de Greef Karga (o “Apollo Creed” de “Rocky”), que por sua vez satisfaz os caprichos de uma clientela muito seleta e bem relacionada. E é numa rara diligência de caráter clandestino, requerida por um individuo enigmático apenas conhecido como “Cliente”, que “Mando” tropeça no caminho iluminado do tão badalado “bébé Yoda”, um evento inusitado que mudará as suas vidas para sempre.

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Mas antes de avançarmos mais além, importa adensar como Favreau edificou o universo “Star Wars” mais credível até à data, envolvendo o estúdio de produção com monstruosas telas LED (7 m de altura por 20 m de diâmetro), que permitem a filmagem mais sofisticada e dinâmica alguma vez criada num ambiente virtual, usando adereços verdadeiros e atuações captadas no momento. A técnica designa-se por “Stagecraft”, e basicamente transforma qualquer painel digital num “wallpaper vivo”, que projeta imagens reais com as quais os atores interagem no imediato, criando um novo patamar de realismo, sobretudo em produções televisivas. É assim que Favreau consegue acicatar o despertar daquelas memórias cinematográficas adormecidas no coração, recriando uma outra “Tatooine” mais poeirenta e arenosa a partir das fotografias tiradas de um deserto tunisino, ancorando o “Mandaloriano” à aura presencial do inesquecível “Skywalker”. Mas o que seria de “Star Wars” sem os seus nativos esquisitóides e as suas vozes carismáticas de sabedoria e sensatez?

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The Mandalorian | © Disney

Pois bem, no seu periclitante percurso de atividades mercenárias, “Mando” é surpreendido por uma esquecida raça de seres alienígenas (Ugnaught), primeiramente introduzidos em “O Império Contra-Ataca”, mas que agora ganham na voz áspera e rosnada do transfigurado Nick Nolte (Kuiil), um representante de peso. Estamos a falar de um bizarríssimo humanóide sénior de aparência suína, que debaixo daquelas plausíveis camadas de maquilhagem e próteses faciais, revelam um sábio aliado da causa mandaloriana, cuja assertiva tomada de decisão não passa impune sem a inolvidável frase: “I have spoken!” E, claro, o velho amiguinho droid não podia faltar, que desta vez é colega do nosso cavaleiro, só para apimentar a sua participação com menos retórica e “bips”, e mais poder de fogo. É esse o cartão de visita de IG-11, que na verdade é uma cópia chapada do desertado andróide assassino IG-88B, repescado do mesmo episódio já mencionado encima, com uma deliciosa vocalização de Taika Waititi, que auto-define o tom da sua voz como “o cruzamento ingénuo de um “HAL 9000” e a “Siri”. E depois há a possante Cara Dune (Gina Carano), uma ex-soldado de choque, que lutou na guerra civil ao lado da Aliança Rebelde contra o Império Galático. Tal como “Mando”, ela é uma verdadeira “one woman show” com queda para a pancadaria, mas depois de cruzarem olhares e punhos numa taberna local no campestre planeta Sorgan, unem esforços e armas para protegerem uma aldeia agrícola de invasores Klatooinian.

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E é ao bom estilo “Star Trek”, que a folgada e descomissionada “Razer Crest” – uma utilitária nave militar pré-império com ares de “Firefly”, transporta “Mando” e a criança prodígio pelos vórtices vertiginosos do hiperespaço, atiçando-nos em cada odisseia interplanetária, com uma ligeira infusão de distintas personalidades invocadas de um punhado de séries televisivas de culto. E isso não pressupõe uma irrefutável falta de originalidade, antes pelo contrário, sem perder a sua essência declaradamente “Star Wars”, relembra-nos da magia descomprometida e casual dos clássicos, que nos prendiam ao televisor pela promessa de entreter com humor e honestidade. E seja numa rixa de blasters com stormtroopers, numa corrida de speeders pelo deserto, numa manobra aérea digna de um “Maverick”, ou num àvido tête-à-tête vilanesco, “The Mandalorian” possui uma assinatura charmosa simultaneamente vintage e moderna, à qual é impossível escapar com indiferença. Em pouco mais de trinta e cinco minutos, Favreau demonstra ser um feiticeiro do “storytelling”, que sabe encher cada segundo com um laivo de emoção, mantendo sempre a adrenalina a fervilhar com a habitual baforada de sarcasmo.

The Mandalorian T1 Análise Corpo
The Mandalorian | © Disney

E chegamos ao manda chuva disto tudo, que só revela a respetiva identidade no dramatismo dos derradeiros capítulos, com a icónica aterragem da arrepiante mosca “vaderiana” a impor respeito. Moff Gideon (Giancarlo Esposito) – um ex-espião da polícia secreta do velho regime imperial, posiciona-se, aqui, como uma entidade de proa facilmente conotada com o chamado “lado negro da força”, que Esposito tão bem interpreta com uma serenidade passivo-agressiva dotada de imponência e carisma. Mas de quase nada valeriam as inspiradas performances dos senhores e senhoras, sem uma igualmente triunfante injeção de sonoridades que falam por si mesmas, tanto mais quando temos uma liderança interpretativa atribuída a alguém que mal fala e não se vê, apenas gesticula. Ludwig Göransson, que já conta com um Óscar no seu palmarés por conta de “Black Panther”, é o maestro que sonoriza imageticamente, como o próprio refere, as “expressões faciais” negadas a “Mando”, ao mesmo tempo que transfere as remodernizadas vibrações mais tribalistas e exóticas para a orquestra normativa da novela interestelar. “The Mandalorian” encerra, assim, uma primeira temporada deveras promissora, augurando-se um vento mais viçoso para este mega franchise, agora imbuído dos cânones tradicionais do discurso e da ação “rapidfire”, que carregam a intriga às cambalhotas numa fraterna e apaixonante pescaria épica por esse cosmos desconhecido.

P.S. – “May the Force be with you”…

The Mandalorian (Disney+)
The Mandalorian T1 Análise Póster

Name: The Mandalorian

Description: A saga de um guerreiro solitário, que também é um mercenário e pistoleiro, viajando pelos territórios esquecidos e marginais do espaço, logo após a queda do Império e antes da criação da temida Primeira Ordem.

  • Miguel Simão - 90
  • Inês Nogueira - 80
85

CONCLUSÃO

"The Mandalorian", a produção televisiva mais dispendiosa até à data, faz muita coisa bem: pega em mecânicas simples e retira-lhes todo o sumo possível, com uma execução técnica de se lhe tirar o chapéu. Se "Star Wars" é sinónimo de visuais espalhafatosos e efeitos especiais de ponta, Favreau consegue elevar a fasquia do verosímil para patamares nunca antes vistos, respeitando que tal abordagem pressuponha mais travão no fogo de artifício digital. Mais ainda, a sua habilidade para elevar um guião vulgar como quem transforma os restos de comida num pitéu, é somente impressionante. Claro que um elenco de altíssimo gabarito ajuda, e muito, mas "The Mandalorian" prova que é preciso muito mais que tecnologia cara para se produzir uma grande metragem, e só os mestres com um gosto adquirido conseguem aceder à essência de qualquer forma de arte.

O Melhor: Pináculo visual alcançado por Favreau; tributo aos grandes clássicos televisivos; divertimento e aventura do princípio ao fim; personagens icónicas com interpretações memoráveis; montagem sonora inigualável.

O Pior: Enredo algo simplista, apesar do resultado eficiente; Episódios demasiado curtos.

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Miguel Simão

Jurista e Poeta em algumas horas vagas. Cinéfilo incurável com forte pancada pelo sci-fi, que se perde algures pelo vício noturno de umas quantas séries televisivas de renome; amaldiçoado pelo perfecionismo estético de uma resma de palavras mais ou menos caras. Podem encontrar-me a divagar entre a Terra e o Espaço no meu blogue premiado Última Transmissão Humana.

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