Afonso Molinar © teatroàfaca

Além dos Mares do Fim do Mundo | Afonso Molinar, em entrevista

A MHD teve o privilégio de entrevistar o jovem ator e criador teatral Afonso Molinar, no âmbito da estreia de Além dos Mares do Fim do Mundo. 

Além dos Mares do Fim do Mundo”, performance documental inspirada em Bernardo Santareno (1920 – 1980) e Augusto Boffa Molinar, está prestes a chegar ao Espaço Escola de Mulheres – Oficina de Teatro (Clube Estefânia) e a Magazine.HD teve o privilégio de entrevistar o seu criador: Afonso Molinar.

Afonso Molinar é um rosto ainda pouco conhecido dos portugueses, muito embora tenha já um percurso invejável junto da representação e do teatro em Portugal. Ator da telenovela “Valor da Vida”, que esteve em exibição na TVI entre 2018 e 2019, Molinar é atualmente diretor artístico da companhia teatroàfaca. Com apenas 25 anos, apresenta a odisseia “Além dos Mares do Fim do Mundo” sobre um jovem escritor Bernardo Santareno, e com recurso a fotografias, cartas e memórias do seu próprio avô, Augusto Boffa Molinar. A performance documental, cuja antestreia já havíamos noticiado, foi bastante influenciada pela atriz Fernanda Lapa, que faleceu no passado dia 6 de agosto de 2020 aos 77 anos.

Além dos Mares do Fim do Mundo clube estefânia
Além dos Mares do Fim do Mundo © teatroàfaca

Além dos Mares do Fim do Mundo” é apenas o primeiro projeto de Afonso Molinar em 2020. Para outubro tem planeado a estreia de “BALL”, espectáculo que chegará ao Teatro Taborda.

MHD: Como surgiu a ideia para a criação de “Além dos Mares do Fim do Mundo”?

AM: Surgiu de forma progressiva, mas nem sempre foi pensado enquanto um espectáculo. Há cerca de um ano atrás, enquanto estávamos, também no Espaço Escola de Mulheres, a apresentar “Apocalipse segundo Alpha e Beta”, surgiu em conversa com a Fernanda Lapa que, em 2020, haveria as celebrações do centenário de Bernardo Santareno, e que era vontade dela que houvesse o máximo de companhias, entidades, pessoas, a participar nesta enorme homenagem. Com o passar das semanas, e ao longo de uma série de conversas, e até por sugestão da Fernanda, acabámos por decidir fazer algo que relacionasse as fotografias das viagens a bordo do navio-hospital Gil Eanes, tiradas pelo meu avô, com os textos de Santareno que rodeavam o mesmo tema.

Ela emprestou-me o “Nos Mares do Fim do Mundo”, de Bernardo Santareno, pôs-me em contacto com algumas entidades que também nos ajudaram muito, e acabámos por, ao longo de uma série de conversas, determinar que o teatroàfaca faria uma leitura de passagens selecionadas da obra, enquanto se projectavam fotografias. Mas, ao longo do trabalho de leitura, pesquisa, relacionamento das fotografias com os textos e a História, comecei a sentir a necessidade de acrescentar um ponto de vista pessoal a tudo aquilo. Uma releitura, talvez se lhe possa chamar. Comecei a aperceber-me, que me estava a relacionar com aquele material de uma forma quase infantil, com a mesma nostalgia que sentia ao olhar para álbuns de fotografias ou VHS antigas. Comecei a escrever e acabou por nascer daí o espectáculo.

Afonso Molinar
Afonso Molinar e Mário Coelho, acompanhados pela HERA, banda formada por Beatriz Almeida, Miguel Galamba e Pedro Moldão © teatroàfaca

MHD: A história de uma peça teatral ou performance documental parece ser mais difícil de ser contada quando se rebuscam memórias dos nossos ascendentes familiares ou quando irrompe por completo da nossa imaginação?

AM: Não sei se é mais difícil, por assim dizer, mas é decerto mais pessoal, o que pode ser complicado. Quando estamos a mexer com ligações pessoais tem de haver uma medida certa de distanciamento. Se nos distanciamos demasiado, corremos o risco de tratar os assuntos de forma fria e desligada, mas se nos mantemos demasiado próximos, a exposição aumenta consideravelmente. Existe uma espécie de limbo que deve ser respeitado, e é aí que a imaginação entra.

Se o espectáculo fosse, por si só, uma passagem dos acontecimentos, não creio que tivesse grande interesse. O teatro vive muito da imprevisibilidade, da nova informação, da relação com o espectador. Não pode ser algo asséptico, tem que ter mais vida, para além do que está à primeira vista. Colocar a escrita deste texto de um ponto de vista quase infantil permite-me criar esse limbo, que ora vacila para um lado ora para outro, mas mantém-se equilibrado. Uma criança que está a reviver acontecimentos sobre os quais leu e ouviu falar, mas aos quais junta a sua dose de fantasia.

MHD: A estreia de “Além dos Mares do Fim do Mundo” insere-se no centenário de nascimento de Bernardo Santareno, dramaturgo português que tantas vezes se opôs ao Estado Novo e a Salazar, sendo alvo de censura. Sendo o Afonso um jovem de 25 anos, como olha para esta condição inerente ao regime, e o que gostaria de passar aos novos dramaturgos do século XXI?

AM: Cada pessoa e artista é produto do seu tempo quando começa, mas o grande artista é aquele que acaba por inverter o processo e fazer do seu tempo um produto de si mesmo. Santareno era, certamente, um produto do seu tempo, mas foi também essencial na luta contra o regime opressor, e era exemplar no seu ativismo político e coragem. Por aqui, há três pontos:

Para haver bons artistas, tem que haver um estado ao qual interesse ter bons artistas.

Primeiro: Ser apolítico é também um produto do nosso tempo, e é resultado de anos e anos de falta de educação política por falta de necessidade. Vivemos conformados, e permitimos abusos diários contra os nossos direitos, como o silêncio da Ministra da Cultura durante a crise pandémica, ao silêncio do Primeiro Ministro e Presidente da República após o assassinato de Bruno Candé. Ser apolítico é uma atitude política. Permanecer no silêncio é uma atitude política. São atitudes políticas de conformismo, e estão espalhadas por todas as estirpes da sociedade, e até nos mais altos postos do Governo. Creio que alguém que crie algo para o seu tempo tem a obrigação de estar informado sobre o seu tempo e de não se conformar com o silêncio. Há sempre coisas a melhorar, injustiças por resolver, crises a precisar de resposta; e quando uma injustiça fica muito tempo sem resposta e não é esquecida, os governadores não nos estão a representar, não estão a fazer aquilo para que foram eleitos. Ser ministro não é uma promoção dentro de uma empresa, é ser o porta-voz de uma secção do povo, e é algo que o próprio governo tende a fazer por se esquecer. Parafraseando a Teresa Coutinho, no maravilhoso discurso que deu na manifestação pelos direitos dos artistas, falta muita humildade aos nossos líderes. O apoio dado às artes pelo governo é miserável, a lei do mecenato é uma anedota, e isso foi muito claro pela resposta inadequada e quase satírica que foi dada quando dezenas de milhares de artistas e técnicos ficaram sem trabalho em Março deste ano. Para haver bons artistas, tem que haver um estado ao qual interesse ter bons artistas.

Afonso Molinar
Além dos Mares do Fim do Mundo © teatroàfaca

Segundo: Não considero que uma obra artística o possa ser se quiser passar uma mensagem. Uma obra artística deve só existir na sua relação com o receptor, e portanto não há um crítico que esteja certo, um espectador que esteja certo, ou um artista que esteja certo quando diz que uma obra é boa ou má. É redutor. A arte é validável pela passagem do tempo e pela memória. Um objecto artístico não tem valor prático, e a estética é subjectiva e referente à teoria que lhe for aplicada. Não há uma resposta certa, e sabendo disso, só nos resta criar. Pode ser que um dia o que criamos possa ser importante para a humanidade, ou que venha a agradar um grande núcleo intelectual, mas definir isso não é o papel do artista.

Terceiro: Já são raros os dramaturgos que não estão associados a companhias de teatro, que não são os próprios encenadores dos seus textos, ou que não escrevem em colectivo durante a criação e o processo de ensaios. Eu próprio me encaixo nestes parâmetros e conheço poucos, só 3 ou 4 em Portugal, que são exclusivamente dramaturgos dentro do processo de criação teatral, e todos têm outros trabalhos além desse, encarando esse processo quase como algo secundário. E é devastador que assim seja, mas não podemos deixar de o fazer, porque surge como uma necessidade, e não um capricho.

Juntando tudo, e incluindo-me enquanto (muito) jovem dramaturgo: Há que ser político e não nos conformarmos; há que criar sem ter ilusões de perfeição ou necessidade de agradar; há que continuar a lutar pelo direito à criação digna.

MHD: Que influência teve Fernanda Lapa ao longo do seu percurso no teatro e, em particular, na Escola de Mulheres – Oficina de Teatro?

AM: Grande parte da influência que a Fernanda Lapa teve no meu percurso é-me invisível e vem de antes de eu ter nascido ou decidido fazer teatro. Há pessoas que têm uma importância tão grande que posso, com segurança, afirmar que não teria começado a fazer teatro no mesmo panorama em que comecei se não fosse por ela. Mais directamente, a Fernanda foi minha professora no último ano da Escola Profissional de Teatro de Cascais, e foi a primeira pessoa a confiar em mim e a convidar-me para fazer um espectáculo profissional, em 2015. Aprendi muito com ela e é alguém por quem sempre guardarei o maior respeito e admiração. Enquanto encenador, a Escola de Mulheres sempre me abriu as portas e acolheu as minhas criações, pelo que nada do que fizemos enquanto teatroàfaca seria possível sem esse enorme apoio.

Afonso Molinar
Mário Coelho em “Além dos Mares do Fim do Mundo” © teatroàfaca

MHD: Como surgiu a companhia teatroàfaca e o que a distingue das restantes companhias nacionais?

A ideia surgiu em 2014 da vontade de promover e dinamizar a nova dramaturgia, adaptação e tradução lusófona, mas só se veio a concretizar em 2017, quando começámos os primeiros ensaios para “Upside Down Cuppa Coffee”, aquele que viria a ser o espectáculo que formalizaria a estrutura em 2018. Entretanto, essa utopia acabou por se transformar numa procura de novas formas para a relação espectáculo-público, e de diferentes formas de apresentar certas narrativas: “Upside Down Cuppa Coffe” passava-se numa esplanada, em que era servido café ao público ao longo do espectáculo, numa relação muito direta e confrontacional com o público.

“Apocalipse segundo Alpha e Beta” distanciava-se, apontava para uma ideia de confusão propositada do papel dos actores em cena, do Criador, de Deus, do público. Em “Além dos Mares do Fim do Mundo”, estamos a jogar com linhas narrativas e diferentes vozes. A banda sonora conta uma história, um actor conta uma segunda e uma terceira, outro actor uma quarta e uma quinta, as fotografias uma sexta. Estamos mais uma vez a jogar e a procurar uma forma de transmissão daquela história através de vários meios, mas de forma a ser acessível e a reflectir uma ideia de homenagem.

Penso que todas as companhias e artistas sejam diferentes e distintos, e não acho que ainda tenhamos uma característica ou um estilo que nos defina. Talvez um dia este trabalho pelo qual me interesso agora se reflicta nessa distinção, mas por agora somos só o teatroàfaca.

“Além dos Mares do Fim do Mundo” limitar-se-á apenas à Escola de Mulheres no Clube Estefânia, ou pretende levar a produção até aos mares do fim do mundo, apesar da situação pandémica que vivemos?

Além destas datas no Espaço Escola de Mulheres, temos também datas marcadas para Agosto de 2021, no Museu Marítimo de Ílhavo, que foi um apoio indispensável para esta produção. Gostaríamos de fazer o espectáculo em muito mais sítios e para muito mais gente, mas vamos ver o que é que a crise pandémica nos permite.

A vida profissional do Afonso está muito relacionado com o teatro, mas também teve oportunidade de atuar na novela “Valor da Vida” da TVI, com a sua performance documental “Além dos Mares do Fim do Mundo”, é como que se estivesse a um passo do cinema. Há uma possível data para o vermos no grande ecrã?

Data não há, mas não é impossível que seja para breve. Sou um bocadinho workaholic e gosto de estar sempre fazer muita coisa, por isso é bem provável que venha a acontecer, mas não tenho nada apontado para já.

MHD: Muito obrigado. 

Os bilhetes para “Além dos Mares do Fim do Mundo” vão encontrar-se à venda na BOL e na bilheteira local, sendo que podes reservar já o teu lugar através do número 915039566 ou dos e-mails teatroafaca.geral@gmail.com e geral@escolademulheres.com. Lembramos que devem ser seguidas as diretrizes da DGS, incluindo o uso obrigatório de máscara.

Virgílio Jesus

Era uma vez em...Portugal um amante de filmes de Hollywood (e sobre Hollywood). Jornalista e editor de conteúdos digitais em diferentes meios nacionais e internacionais, é um dos especialistas na temporada de prémios da MHD, adepto de todas as formas e loucuras fílmicas, e que está sempre pronto para dois (ou muitos mais!) dedos de conversa com várias personalidades do mundo do entretenimento.

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