"Os Homens Preferem as Loiras" | © Twentieth Century Fox

Marilyn Monroe | Os figurinos mais icónicos

Com “Blonde” a dar que falar, vale a pena recordar a verdadeira Marilyn Monroe, seus fantásticos filmes e maravilhosas modas. De “Niagara” a “Quanto Mais Quente Melhor,” a atriz envergou uma série de figurinos tão fabulosos quanto icónicos.

Adaptando o livro de Joyce Carol Oates, Andrew Dominik apelou a um contraste entre a recriação meticulosa de um passado material e a ficcionalização quase mitológica da figura central. Por outras palavras, apesar de, historicamente, a narrativa de “Blonde” ser uma invenção lasciva, suas imagens reluzem como reproduções perfeitas. No que se refere aos figurinos, a designer Jennifer Johnson foi escolhida para confrontar o desafio de vestir uma das mulheres mais famosas na História do Cinema, senão mesmo a mais célebre de sempre. Este tipo de exercício não é novidade para Johnson que, em “Eu, Tonya,” fez semelhante façanha.

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Vendo “Blonde,” é difícil não nos deixarmos cativar pelas modas que Johnson ressuscitou, trabalhando com uma equipa de hábeis artesãos e costureiras para transformar Ana de Armas numa Marilyn Monroe reencarnada. Dito isso, há grande diferença entre recriar fatos vistos somente em fotografias de paparazzi e reproduzir figurinos vistos no grande ecrã, especialmente quando esses desenhos já foram tantas vezes copiados e reinterpretados. Johnson manteve-se fiel ao princípio histórico, copiando todo o detalhe, até aqueles pormenores que podem ser considerados defeitos para uma audiência moderna.

Invariavelmente, estas considerações fazem-nos pensar nos reais filmes de Marilyn Monroe e seus guarda-roupas esplendorosos. Perdendo-nos na estrada da reminiscência, vamos lá pensar nos figurinos da estrela e listar os looks mais memoráveis, mais imortais, icónicos. Começamos, pois claro, com o primeiro filme a cores que Marilyn Monroe rodou para a 20th Century Fox. Estamos a falar de…

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© Twentieth Century Fox

NIAGARA (1953)

Apesar do nome, nem todo o film noir era necessariamente filmado a preto-e-branco. “Niagara” é bom exemplo do noir em Technicolor, com realização de Henry Hathaway e fotografia de Joseph MacDonald prontos a sugerir a podridão moral através da paleta lúrida. Os resultados são belos e chamativos, mas mortíferos, uma flor tropical cujas pétalas suam veneno. Monroe, contudo, não é nenhuma femme fatale vestida como orquídea assassina. Pelo contrário, ela é vítima do monstro na narrativa, uma figura provocadora, mas indefesa. De entre os seus muitos conjuntos, este vestido cor-de-rosa concebido por Dorothy Jeakins é o mais memorável, conjugando a tonalidade exuberante com traços eróticos – a pele descoberta, tanto um chamariz como uma mostra de vulnerabilidade.

 

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© Twentieth Century Fox

OS HOMENS PREFEREM AS LOIRAS (1953)

O rosa era uma cor que ficava sempre bem à loira mais famosa do grande ecrã. Em “Os Homens Preferem As Loiras” de Howard Hawks, Marilyn usou muitos conjuntos perfeitos, desde as lantejoulas escarlate da primeira cena até à renda matrimonial do final feliz. Contudo, é ao rosa que regressamos, para o momento mais inesquecível da fita, quando Lorelei Lee canta o hino de todas as beldades que, numa sociedade patriarcal, conquistam poder para si mesmas através do sex appeal. Cantando “Diamonds Are a Girl’s Best Friend,” Monroe enverga uma coluna de cetim rosa forrado a veludo preto para melhor se agarrar ao corpo da atriz. O lendário Travilla decidiu deixar a silhueta cai-cai mais larga do que usual para facilitar a dança, com um cinto a condizer para marcar a cintura e um enorme laço a salientar todo o movimento. Trata-se de uma obra-prima e do vestido mais copiado na filmografia de Marilyn Monroe.

 

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© Twentieth Century Fox

O PECADO MORA AO LADO (1955)

Quase tão célebre como o figurino cor-de-rosa de “Os Homens Preferem As Loiras,” este vestido plissado em rayon branco-sujo, mais perto de um tom champanhe. Concebido como um vestido de cocktail a refletir as últimas tendências, a peça também foi criada a pensar no momento em que a personagem de Marilyn deixa que o ar do metro lhe suba pelas pernas acima e faça a saia voar. O plissado abre-se com a brisa, qual flor face ao sol, e sugere sensualidade pela transgressão. Não é que o vestido revele muito, mas faz parte de um jogo atrevido de objetificação sexual, onde a inocência projetada pela atriz só sublinha a sua suposta sensualidade. As imagens de Marilyn posando com o vestido numa sessão aparte da rodagem são consideradas algumas das fotografias mais icónicas do século XX.

 

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© Twentieth Century Fox

PARAGEM DE AUTOCARRO (1956)

No meio destes muitos vestidos, este conjunto mais casual em “Paragem de Autocarro” marca pela diferença. Novamente, foi William Travilla quem vestiu Marilyn, inspirando-se nalgumas das suas sessões fotográficas para conceber o visual desta protagonista, mais séria e dramática que a maioria dos seus papéis. Saia preta com racha profunda, cinto a condizer, uma blusa de renda verde e collants de rede compõem a figura da atriz. Há aqui um tenor boémio que muita gente inspirou, levando a tendências passageiras e reforçando o poder de Marilyn Monroe enquanto ícone influente da moda norte-americana.

 

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© Warner Bros.

O PRÍNCIPE E A CORISTA (1957)

Os últimos dois figurinos nesta breve listagem diferem num ponto crucial. Ao invés de interpretarem a contemporaneidade estilística em jeito direto, estes designs são exemplos de figurino histórico. Primeiro, temos “O Príncipe e a Corista,” narrativa passada na Londres de 1911 que encontra Marilyn Monroe contracenando com Laurence Olivier. O ator também realizou a fita, promovendo um visual faustoso, todo cheio da pompa e circunstância do espetáculo monárquico. Neste milieu, a corista titular é simultaneamente uma intrusa e quiçá a pessoa que melhor se adequa à performance social da realeza. Seu traje, desenhado por Beatrice Dawson, é uma paródia de moda Eduardina deturpada pelos preceitos de 1957. A silhueta é completamente moderna, mas alguns detalhes piscam o olho à época passada. Acima de tudo, a brancura nupcial da peça e seus adornos em madrepérola insinuam o romance e puxam pela pureza paradoxal desta figura tão sexualizada, mas, simultaneamente, tão inocente.

 

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© United Artists

QUANTO MAIS QUENTE MELHOR (1959)

Não há ilusão de inocência em “Quanto Mais Quente Melhor.” O que há é ilusão de nudez através da transparência falseada. Orry-Kelly ganhou o Óscar pelo seu trabalho nesta comédia clássica cuja narrativa decorre durante o fim da Era do Jazz, entre Chicago e Miami em 1929. Interpretando Sugar Kane, uma cantora com historial romântico complicado, Marilyn é uma visão de carisma reluzente. Assim é em todas as suas cenas, mas especialmente durante a rendição de “I Wanna Be Loved By You.” Para o momento intemporal, o figurinista concebeu uma peça em tule largo, coberto com lantejoulas, missangas, franjas brilhantes e algumas aplicações de renda. Em preto-e-branco e com a luz sugestiva de Charles Lang, Marilyn parece nua, ideia reforçada quando ela se vira e vemos as costas abertas com um coração recortado no traseiro. Este conjunto é ainda mais impressionante quando consideramos as complicações técnicas que o figurinista confrontou, tendo que esconder a gravidez da atriz durante a rodagem.

 

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Quais são os teus figurinos preferidos na filmografia de Marilyn Monroe? Está o teu favorito na nossa lista ou tens algo a acrescentar?

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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