Queer Lisboa ’22 | Balanço Final

“Wet Sand,” “Neptune Frost” e “Uma Rapariga Imaterial” são alguns dos filmes premiados nesta 26ª edição do Queer Lisboa. O festival encerra mais um ano com gestos de introspeção histórica, depois de programação dedicada ao tema da memória e a importância de não esquecer.

O Queer Lisboa 26 começou com um olhar para o futuro e terminou com uma pesquisa do passado. Estas forças puxam para lados que parecem opostos, mas talvez não sejam. Para seguir em frente há que encarar o que veio antes, que compreender e aprender. Se brincamos, fazemo-lo com conhecimento e o prazer só é possível porque se lutou por isso. “Fogo-Fátuo” de João Pedro Rodrigues abriu o festival com uma fantasia musical de olhos postos em 2069 e novos heróis para nos entreterem os sonhos. Em contrapartida, “Esther Newton Made Me Gay” lembrou uma heroína do passado e presente, cujas façanhas abrirão caminhos agora percorridos por gerações mais novas.

O diálogo entre os dois títulos é fascinante. Aliás, os muitos diálogos estabelecidos transversalmente à programação do Queer Lisboa 26 são todos fascinantes e justificam, só por si, a ida ao festival.

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“Joyland” | © All in Caps Productions

Mas será que os jurados das várias secções refletiram estas temáticas nos seus prémios? Sim e não, como seria de esperar. A Competição de Longas-Metragens foi ganha por “Wet Sand,” produção suíço-georgiana que considera os horrores de preconceitos antigos na vida de indivíduos queer do presente. Cláudia Lucas Chéu, Nuno Nolasco e Rita Azevedo Gomes justificaram a decisão com as seguintes palavras: “Pela sobriedade da forma como desenvolve a escrita cinematográfica e aborda a temática da discriminação social, pela direção e desempenho dos atores, pela inteligência com que os temas musicais dialogam com o tempo do filme, ganhando uma presença própria, ‘Wet Sand’ é de uma beleza inequívoca.”

“Joyland” recebeu uma menção honrosa e ainda ganhou o Prémio do Público. Recentemente, o Paquistão anunciou o filme como seu candidato para a corrida ao Óscar de Melhor Filme Internacional, um gesto progressista quando se consideram as temáticas e comentários sociais da obra. Pelo que nos compete, não podíamos estar mais felizes com estes resultados, sendo que “Joyland” é escolha fácil para Melhor Filme do festival. Mesmo que o júri não concorde, o gosto do público vingou. Na Competição de Documentários, Joana Frazão, Nathalie Mansoux e Rui Madruga deram o prémio principal a “Nuestros Cuerpos Son Sus Campos de Batalla,” enquanto o público escolheu “Corpolítica” como seu filme predileto. Ambas as escolhas refletem a importância de um cinema militante que promove o ativismo e a resistência.

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“Nuestros Cuerpos Son Sus Campos de Batalla” | © Dublin Films

Jesse James, Luciana Fina e Vasco Araújo atribuíram o prémio da secção Queer Arte ao esplendoroso “Neptune Frost.” Sua escolha justifica-se “pela extraordinária direção de arte, pela visão crítica sobre a realidade contemporânea e pela forma como nos catapulta para um espaço de liberdade e esperança dentro dos conceitos queer.” Mesmo assim, os jurados escolheram atribuir uma menção especial a “Ultraviolette et le gang des cracheuses de sang,” mais uma produção suíça honrada no Queer Lisboa 26. Hão de reparar que, tirando a vitória de “Corpolítica,” o cinema lusófono não teve grande expressão nestes palmarés. Bem, assim é somente nas secções focadas na longa-metragem.

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Dizemos isso pois o grande vencedor na Competição de Curtas foi o projeto português “Uma Rapariga Imaterial.” O júri de Rodrigo Díaz, Rui Palma e Sandra de Almeida caracterizam a obra como “curta-metragem que, de uma forma inequivocamente inovadora, através da ideia de comunidade, nos convida a pensar num futuro líquido, cada vez mais próximo.” O filme ganhou também a preferência do público, enquanto “Billy Boy” da Argentina recebeu menção especial. Por fim, a Competição ‘In My Shorts,’ também ela focada em curtas-metragens, teve como vencedores “Le Variabili Dipendenti” e “The Greatest Sin.” Contudo, o segundo título somente recebeu menção honrosa por parte dos artistas jurados.

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“The Greatest Sin” | © Gabriel B. Arrahnio

Acabada mais uma vasta cobertura, cheia de análises e críticas, fica aqui a lista de todos os artigos publicados sobre o festival nestas últimas semanas.

 

COBERTURA MHD DO QUEER LISBOA 26:

Filme de Abertura

 

Competição Longas-Metragens

Competição Documentários

Competição Curtas-Metragens

Competição Queer Art

Panorama

Retrospetiva

Filme de Encerramento

Fica atento às nossas coberturas de festivais. A seguir temos o DocLisboa e depois vem a Festa do Cinema Francês. Não percas!

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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