"Maya" | © Alambique

Maya, em análise

Maya” é o primeiro filme de Mia Hansen-Løve desde que essa cineasta francesa estreou o glorioso “O Que Está Por Vir”. O novo filme não chega aos calcanhares da outra obra-prima, mas não é, por isso, desprovido de mérito próprio. Antes de estrear em Portugal, o filme passou na Festa do Cinema Francês.

Apesar do seu título, “Maya” é a história de Gabriel. Ele é um jornalista de guerra francês que conhecemos num momento de vulnerabilidade. Mais especificamente, conhecemo-lo no chuveiro, quando ele se tanta lavar depois de um dos episódios mais traumatizantes da sua vida. As costas dele são uma tela de nódoas negras e a cara está coberta por uma barba farfalhuda, o corpo, por seu lado, está magro e escanzelado, um fruto da fome e não de uma qualquer procura por elegância gálica. Depois de meses vividos como um refém do ISIS, Gabriel foi libertado e está finalmente de regresso a França, seu país, mas não o seu lar. Gabriel não sabe qual é o seu lar, não sabe aonde pertence.

Como muitos protagonistas de Hansen-Løve este jornalista está à deriva, desamparado e sem rumo, a não ser a vontade de agir como se nada tivesse mudado. Ele não quer ser vítima ou olhado com pena, não quer confrontar o facto de que a sua existência foi irrevogavelmente alterada pela angústia dos meses em cativo. Ele rejeita ajuda médica e sabota o renascer de um antigo romance. No limite, ele abandona o próprio país a que nunca chamou casa e regressa à pátria que o viu crescer e ser abandonado por uma mãe ausente, a Índia. Nomeadamente, Goa, onde Gabriel reabre os portões ferrugentos da residência a que em tempos chamou casa.

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Ao invés de nos evidenciar tudo isto em prolongadas exposições de diálogo artificial, a cineasta vai-nos revelando os detalhes da sua trama de forma oblíqua e subtil. Pouco a pouco vamos conhecendo Gabriel através da observação, vamos completando o puzzle deste homem, mas nunca o finalizamos. A maravilha máxima do ser humano é o facto de que todos somos um mistério que jamais será resolvido por outrem que não nós mesmos. Por vezes, nem mesmo nós nos conhecemos na totalidade e essa é a condição de Gabriel. A sua viagem indiana é tanto uma fuga e um regresso às origens como é uma peregrinação em busca do conhecimento de si mesmo. Pelo menos, ele espera conseguir regressar à normalidade e poder esquecer os traumas que nega ter.

Por muito que fujamos à mudança, ela abate-se sobre nós como uma impiedosa constante da vida. Para o jornalista, essa regra cósmica surge sob a forma de Maya, a filha do seu padrinho. Ela é uma jovem belíssima e um espírito livre, uma filha de privilégio que personifica em si a sedução que o subcontinente indiano tem para com Gabriel. Maya é a mudança de que ele foge, mas é também um mistério que ele não consegue compreender ou controlar. O filme pode ser uma história de amor em estrutura, mas, no seu âmago, é um conto da relação triangular entre um homem, um país e a ideia de si mesmo.

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Tais descrições podem sugerir um filme maçudo e denso, uma dissertação filosófica com tendências colonialistas e penosas considerações sobre a natureza Humana. Nada podia estar mais longe da verdade. Na boa tradição do cinema de Mia Hansen-Løve, “Maya” é como um suspiro perdido numa leve brisa, leve e efémero. A realizadora orienta todo o seu conto através de uma estrutura reticente e fragmentada, feita de cenas curtas e evocativas, sem início definido ou final conclusivo. Em certa medida, trata-se de um estilo de cinema lírico, onde se ganha mais informação pelo rimar emocional e tonal das cenas do que pelo seu encadeamento causal.

Uma viagem homérica pela Índia pode ser resolvida numa montagem frugal e toda a relação entre uma mãe e filho é o ressoar de uma conversa fria na imagem de uma mulher a chorar. A montagem tudo simplifica e complica, apurando o sentimento melancólico sem tombar no melodrama, esbatendo a especificidade do drama sem o tornar numa abstração anónima. Muitas vezes, parece que saltamos momentos fulcrais ou conversas importantes, sendo que temos de nos contentar com o rescaldo de um grande evento, o eco de gritos e a cicatriz da ferida. Em “Maya” vemos as nódoas negras, mas jamais contemplamos a violência que as fez florescer na planície de costas emaciadas.

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Esta abordagem contribui para uma experiência sonhadora e fugaz. “Maya” parecem memórias mais do que ação imediata e dramática. No entanto, tais qualidades também podem resvalar em problemáticas de difícil superação. O foco em Gabriel é tão grande, que Maya acaba por ser pouco mais que um símbolo e a sua qualidade artificial contradiz o humanismo sentido que parece definir o resto do projeto. Também a construção cénica retira peso à narrativa e retira muita complexidade às personagens. Outros intérpretes foram já capazes de dominar estas complicações nos filmes passados de Hansen-Løve, mas os protagonistas de “Maya” parecem incapazes de superar esses mesmos obstáculos.

Roman Kolinka, como Gabriel, e Aarshi Banerjee, como Maya, sofrem muito pelas barreiras linguísticas do guião. Apesar de esta ser uma produção francesa, muito do texto é em inglês e há sempre um desconforto e artifício performativo a sombrear as prestações naturalistas dos atores. Trata-se daquela falta de à vontade que infeta aqueles que não estão a falar na sua língua materna e claramente pensam antes de abrir a boca, ponderando a escolha de palavras e a pronúncia exata. Assim se ergue uma parede invisível entre as personagens e entre o espectador, como se a sua interioridade estivesse sempre um pouco além do nosso alcance. Enfim, “Maya” pode não ser perfeito, mas volta a perpetuar a ideia de Mia Hansen-Løve como uma das realizadoras mais fascinantes da atualidade. Se mais nada houver de valor no projeto, só a fotografia granulada de Goa em todo o seu esplendor já valeria o preço do bilhete.

Maya, em análise
maya

Movie title: Maya

Date published: 2019-10-12

Director(s): Mia Hansen-Løve

Actor(s): Roman Kolinka, Aarshi Banerjee, Alex Descas, Judith Chemla, Johanna ter Steege, Pathy Aiyar, Suzan Anbeh, François Loriquet

Genre: Drama, 2018, 107 min

  • Cláudio Alves - 70
70

CONCLUSÃO:

“Maya” é um poema fragmentado sobre um homem a tentar se encontrar a si mesmo numa viagem pela Índia da sua infância. Entre imagens esplendorosas e performances emocionais, a realizadora Mia-Hansen Løve vai construindo um retrato melancólico de um jornalista traumatizado. Não é o melhor filme desta cineasta, mas não deixa por isso de ter valor.

O MELHOR: A qualidade evocativa da fotografia de Hélène Louvart. O modo como ela filma a Índia dá ao filme mais uma dimensão de romance, entre esse país e a lente apaixonada da câmara.

O PIOR: As limitações na caracterização da figura titular e o modo como o seu uso enquanto símbolo trespassa toda uma perniciosa perspetiva colonial.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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