Bill Callahan (foto de Hanly Banks Callahan)

Mês em Música | Playlist de Junho 2019

A Playlist de Junho, mais do que óbvios triunfos, dá-nos um todo de discreta e múltipla qualidade, onde cada single traz uma novidade a gozar nas férias que aí vêm.

Em Junho inaugura-se a época alta dos festivais de verão, bandas e artistas atarefam-se em digressão e o mundo da música abranda o lançamento de álbuns e singles. Mas práticas não são leis da natureza, nem obedecem a padrões de necessidade dos quais possamos extrair fórmulas ou realizar previsões (quase) infalíveis. São o lugar da regra mas também da sua excepção e, por isso, da surpresa e do imprevisível. Se é verdade que o lançamento de música abrandou neste mês que passou, nem por isso faltam canções e álbuns para conhecer aqui na Playlist de Junho e levar de férias.

Dois dos álbuns são fortes candidatos à lista dos melhores de 2019 (e há entre nós quem sustente que à dos melhores da década também, agora que ela se aproxima do fim). Já os singles, sem que nenhum sobressaia a ponto de arrecadar o título de melhor do mês, em muitos deles resplandecem ora aspectos sonoros, ora versos, ora traços de carisma merecedores da nossa atenção e, dada a repetida audição, arreigada estima. Não há melhor música do que aquela que se infiltra, desapercebida, em nós, conquistando-nos com o seu valor inaparente enquanto vamos, incautos, convivendo com ela. Quando reparamos, é tarde de mais, já nos apaixonamos e não há nada a fazer senão sofrer-lhe o poder. Nem sempre é assim mas, neste caso, é um prazer.

Playlist de Junho | Os singles

Se um vencedor houvesse entre os singles da nossa Playlist de Junho, o candidato mais forte seria talvez o regresso de (Sandy) Alex G, “Gretel”. Sobre a canção que lidera a promoção do próximo álbum de Alex Giannascoli, House of Sugar, a ser lançado pela Domino no dia 13 de Setembro, pronunciou-se assim o nosso Diogo Álvares Pereira: “As melodias vocais introdutórias e a técnica do pitch-shift auxiliam na instantânea concepção de um universo hipnótico, que balanceia entre uma incessante sensação de nostalgia artificial e o bizarro, desconfortável pressentimento de que escutamos uma composição musical à qual não deveríamos ter acesso, privativa e hermética. Porém, quando alcançamos o refrão e absorvemos as palavras insolitamente cristalinas de (Sandy) Alex G (“I don’t wanna go back/ Nobody’s gonna push me off track”), escoltadas por um um dos ganchos mais aprazíveis do ano, vemo-nos finalmente resguardados por uma onda de tranquilidade… e a certeza de que House of Sugar será um disco memorável.”

(SANDY) ALEX G | “GRETEL”

A cantautora e multi-instrumentista inglesa, de ascendência paquistanesa, Natasha Khan, mais conhecida pelo seu projecto Bat For Lashes, está de volta com um novo álbum ou, melhor dizendo, uma nova narrativa cinemática feita só para os ouvidos e as almas nostálgicas. Esta última observação não pretende ser pejorativa, ou não estaríamos aqui a destacar o single principal de Lost Girls, que sairá no dia 6 de Setembro por meio da AWAL. O álbum pretende ser uma homenagem à cidade de Los Angeles, onde foi gravado, e à experiência de crescer na década de 80, um retorno aos filmes que marcaram a adolescência de Natasha Khan. Não há nada neste ponto de partida que condene o empreendimento à irrelevância ou ao fracasso artísticos. Afinal, Drive, de Nicolas Winding Refn, emergiu precisamente de um ponto de partida muito semelhante e é um dos melhores filmes desta década.

Mês em Música - Playlist de Junho 2019
Natasha Khan, Bat For Lashes (foto de Logan White)

Segundo um comunicado de imprensa, ao longo das dez faixas que compõem o disco, Natasha Khan cria o seu universo paralelo e uma narrativa de amadurecimento juvenil sobre bandos rebeldes de ciclistas femininas que vagueiam pelas ruas da cidade. Através das mulheres de Lost Girls e da personagem Nikki Pink, a cantautora desvela aspectos de si mesma. “Kids in the Dark”, com o seu título e sonoridade, é a apropriada introdução a esta história e a este imaginário: “estabelece o cenário, com a sua atmosfera opulenta de sintetizadores e batida disco dos anos 80”.

Logo aos primeiros acordes, “Kids in the Dark” evoca genial e indubitavelmente uma época, sem nunca chegar a parecer, ainda assim, um hit gasto da M80. A melodia lânguida e grandiosa dos sintetizadores e o baixo espaçado, proeminente e ecoante relembram o tema de Top Gun, “Take My Breath Away” dos Berlin, e todos os seus avatares. Somos transportados para a década das comédias e melodramas românticos juvenis, para os meandros simples e ingénuos, mas sinceros, de The Breakfast Club de John Hughes, The Sure Thing de Rob Reiner ou Say Anything de Cameron Crowe.

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Com o seu desejo de uma companhia na qual confiar e com a qual contar (“Tell me you’re not leaving”, “I know it’s the real thing”), a sua evocação de um tempo onde se vivia e crescia apenas entre os seus pares sem a guia de adultos (“We’re just kids in the dark”), a narrativa de Bat for Lashes neste single não aparenta ser das que deixam saudades ou mereçam ser glorificadas, antes um trauma a esquecer. Mas uma inegável aura de atratividade envolve a ideia e a memória daqueles que viveram os tempos aos quais Natasha Khan regressa aqui. A juventude e escuridão invocadas no título relembram o que unia estes miúdos no vaguear sem direcção, no tédio infinito e na ausência de sentido de obrigação – a procura de alguma coisa que justificasse a vida, que se intuía estar sempre para lá do horizonte do observável e da qual se esperava que viesse deitar fogo a tudo.

BAT FOR LASHES | “KIDS IN THE DARK”

Há já alguns anos que o britânico Benjamin John Power, uma das metades do duo de eletrónica industrial Fuck Buttons, tem vindo a lançar música de dança apocalíptica sob o seu projecto a solo Blanck Mass. O álbum de estreia, homónimo, saiu em 2011 pela editora dos Mogwai, a Rock Action Records. Dumb Flesh (2015) assinalou a passagem de Blanck Mass para a Sacred Bones, por meio da qual Power editou também World Eater (2017) e, agora, Animated Violence Mild. O novo álbum, do qual foram lançados dois singles este mês de Junho, “House Vs. House” e “No Dice”, será lançado no dia 16 de Setembro.

Segundo um comunicado de imprensa, Animated Violence Mild foi composto durante 2018 no seu estúdio doméstico, nas imediações de Edinburgh. As oito faixas são “o diário de um ano de trabalho mergulhado na afinação do ofício, na auto-descoberta e na dor, a última das quais emergiu na etapa final de produção do disco criando toda uma sua própria narrativa: dor quer pelo que Benjamin John Power perdeu pessoalmente, quer, num sentido global, pelo que nós enquanto espécie perdemos e cedemos à nossa parte parasita – consumismo – só para sermos devastados por ela.”

Mês em Música - Playlist de Junho 2017
Blanck Mass (foto de Harrison Reid)

Qualquer um dos singles que nos foi dado ouvir até agora seriam dignos de constar na nossa Playlist de Junho, mas “No Dice” acaba por sobressair e tornava-se impossível não lhe dar aqui um lugar de realce. Desta canção, Power disse que era sobre a negação: “É a voz no fundo da mente a impedir-nos de avançarmos, a separação entre o cérebro e o coração”. De facto, esta luta interior encontra uma analogia no caos musical dos estilhaços sonoros atravessado por diferentes vozes em espiral repetida que vão emergindo e sumindo-se, ora entrando em conflito entre si ora substituindo-se umas às outras. E apesar da metamorfose contínua da canção, esta não parece levar a lado nenhum. As alterações são mais ao nível da textura do que propriamente de ordem composicional, de tal modo que a ideia de paralisia a que Power alude na sua descrição torna-se sensível aqui.

BLANCK MASS | “NO DICE”

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Maria Pacheco de Amorim

Literatura, cinema, música e teoria da arte. Todas estas coisas me interessam, algumas delas ensino. Sou bastante omnívora nos meus gostos, mas não tanto que alguma vez vejam "Justin Bieber" escrito num texto meu (para além deste).

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