O Mês em Música | Playlist de Julho

O verão não chega mas o mundo já está de férias e Julho tem sido sossegado. Ainda assim, vieram à tona algumas pérolas discretas, que seria crime não revelar na Playlist de Julho.

Playlist de Julho
Sarah Beth Tomberlin (© Philip Cosores)

Não muitos terão ouvido falar de Sarah Beth Tomberlin, a não ser talvez quem levou a sério a recomendação que dela fez a Stereogum, ao nomeá-la uma das suas “Artist To Watch”. “I’m Not Scared” é já o terceiro single do seu álbum de debute, At Weddings, que será reeditado pela Saddle Creek Records daqui a uns meses, depois de uma primeira edição limitada em vinil, lançada pela Joyful Noise Recordings, no outono do ano passado. Uma das dolorosas vítimas da abundância musical de Junho foram precisamente “Self-help”“Seventeen”, os dois anteriores singles de Tomberlin, donzela por quem pugnei em vão.

Lê Também:
O Mês em Música | Playlist de Junho

A vingança não tardou – ei-la na playlist de Julho – porque eu nunca deixaria de amplificar esta voz que flui por cada fenda de um corpo lacerado, com a suave força de quem amadureceu a dor reflectindo na solidão do quarto, de onde nos fala. Aqui, sobre o instrumental esquelético, uma melodia plangente de piano, só às vezes sublinhada por um violino, diz-nos Tomberlin que “I look for redemption in everyone else”, mesmo se “loving only seems to make you bruise and to bleed”, talvez porque “my body reminds me almost everyday / that I was made for another”.

PLAYLIST DE JULHO | TOMBERLIN, “I’M NOT SCARED”

Westerman começou a carreira, nos dois últimos anos, a tactear, lançando alguns temas que, se já revelavam uma voz inconfundível, com reminiscências de Nick Drake, desembocavam num folk sem saída. Uma colaboração com Bullion, a rotura com o antigo gestor, um bloqueio de escritor, tudo isto pôs Westerman em crise, obrigando-o a repensar a sua abordagem ao que queria dizer. Um período turbulento do qual só conseguiu sair por via do conselho da sua editora de ir lançando alguns singles, sem qualquer publicidade, sem a pressão da promoção ou a necessidade de lançar um disco. E é assim que este ano, com o lançamento de “Confirmation”, incluída na nossa playlist de Fevereiro, o músico britânico de 26 anos não só parece ter encontrado a sua voz, como o reconhecimento inesperado de toda a imprensa musical.

Playlist de Julho
Westerman (© Jamie Sinclair)

Todos os singles, bem como os respectivos lados-B, que têm saído cá para fora confirmam um artista maduro cuja voz domina agora a terra de ninguém entre a conversação folk e o canto pop dos Blue Nile e outros grupos afins, um dos veios da década de 80 menos desgastados. Abandonada a guitarra acústica, Westerman alcançou a mestria na construção de texturas minimalistas. Melodias de pequena amplitude mas cheias de desvios inesperados são sustentadas por um baixo espaçado e proeminente e interrompidas por soluços de distorção ou breves solos de guitarra, duas ou três notas a ecoar nocturnas, solitárias. Na aparente monotonia não faltam pequenos e surpreendentes motivos de interesse, uma personalidade discreta que se revela a cada instante, uma descoberta que cresce e aumenta a cada nova audição. Mesmo se mais simples, quisemos integrar na nossa playlist de Julho “Easy Money”, o lado-B do single “Edison” (que falhou a playlist de Maio por uma unha negra). Este revela o mesmo DNA que faz de Westerman um dos artistas a seguir com atenção e entusiasmo nestes próximos tempos, até porque temos a promessa de um EP para este outono e de um LP já no próximo ano.

PLAYLIST DE JULHO | WESTERMAN, “EASY MONEY”

Viajar é do que mais se faz por esta altura e para isso nada melhor do que carregar no play do primeiro tema de um álbum, ao arrancar com o carro ou durante o descolar do avião, até estacionar no hotel ou na casa de férias ao som dos últimos acordes do tema que fecha ao disco (eu sei, a viagem dura mais do que isso, mas percebem a ideia). E o que mais há são novidades, saídas este mês, a sugerir na playlist de Julho, para ritmar, revolucionar ou até entristecer – só ao de leve, que a vida é assim e as férias não fogem à regra – o verão. Estão todas listadas no final, como de costume, e uma ouvidela aos temas que delas extraímos será suficiente para captar a atmosfera que cada um destes álbuns trará ao tempo livre.

Lê Também:
Temples à MHD | "A música pop pode ser muito imaginativa"

Não faltam na lista discos que já têm dado muito que falar, como Ordinary Corrupt Human Love, dos Deafheaven, e Hive Mind, dos The Internet. Nem álbuns muito estimados aqui pela equipa da MHD, como TRU, dos Ovlov, ou All That Reckoning, dos Cowboy Junkies. Mas a preferência deste mês vai para um álbum que passará debaixo do radar, Yolk in the Fur, dos Wild Pink, como aliás já aconteceu o ano passado com o anterior Wild Pink, o seu disco de debute. Apesar de integrada no catálogo da fidedigna Tiny Engines, a banda parece condenada ao circuito DIY de pubs locais, dormidas no chão, e aberturas de concertos de outros ilustres desconhecidos. São muitos, no entanto, os que têm vindo a seguir a banda de Brooklyn com atenção e mesmo fervor, talvez por as letras de John Ross apostarem tanto no investimento do público, revelando uma “grande fé no ouvinte” (Pitchfork).

Ainda que o líder da banda e principal compositor alegue estar apenas a tentar reproduzir o rock clássico dos seus heróis Tom Petty, Jackson Browne e Bruce Springsteen, não escapa a ouvidos atentos a grande influência do slowcore dos Red House Painters ou traços de bandas como os Mercury Rev ou até os Death Cab for Cutie pré-The O.C. (Na Terra dos Ricos). Uma fusão que, juntamente com os ritmos metronímicos e a introdução de sintetizadores, aproxima os Wild Pink de outras bandas indie como The War on Drugs e Amen Dunes, cujo tipo de sonoridade de guitarra está a encontrar sucesso nestes tempos tão ingratos para o rock em geral. O melhor de Ross talvez seja mesmo, no entanto, a sua capacidade narrativa de registar o dia-a-dia, por meio de detalhes luminosos mas fragmentários, a seguirem-se desarticuladamente num fluxo-de-consciência que recupera o íntimo do quotidiano de uma geração deixada sem qualquer proposta de sentido mas determinada a procurá-lo:

“It will be okay” you say and you kiss my lips,
that are mouthing the words to the prayer I say each day,
knowing you’ve got an aching feeling deep in your heart and I feel it too.

You don’t sleep well and you don’t expect to,
but you always find a way to make what you do beautiful.

PLAYLIST DE JULHO | WILD PINK, “LOVE IS BETTER”

 PLAYLIST DE JULHO | Destaques do mês

  • Chastity, Death Lust (Captured Tracks, 13 de Julho)
  • Cowboy Junkies, All That Reckoning (Latent, 13 de Julho)
  • Deafheaven, Ordinary Corrupt Human Love (Anti-, 13 de Julho)
  • Laurel Halo, Raw Silk Uncut Wood (Latency, 13 de Julho)
  • Ovlov, TRU (Exploding in Sound, 20 de Julho)
  • Wild Pink, Yolk In the Fur (Tiny Engines, 20 de Julho)
  • The Internet, Hive Mind (Columbia, 20 de Julho)
  • Tony Molina, Kill the Lights (Sumberland, 27 de Julho)
  • The Cradle, Bag of Holding (NNA Tapes, 27 de Julho)

PLAYLIST DE JULHO | SPOTIFY

Maria Pacheco de Amorim

Literatura, cinema, música e teoria da arte. Todas estas coisas me interessam, algumas delas ensino. Sou bastante omnívora nos meus gostos, mas não tanto que alguma vez vejam "Justin Bieber" escrito num texto meu (para além deste).

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *