Michael, em análise
Michael Jackson é o maior artista da história da humanidade. Esta frase seria um autêntico exagero para qualquer outro artista, mas quando falamos de Michael Jackson, não parece haver ninguém que questione a sua grandeza. Logo, era uma questão de tempo até que um filme que explorasse a história do Rei do Pop chegasse aos cinemas. Então, em 2026, aqui estamos, com este novo “Michael” realizado por Antoine Fuqua e protagonizado pelo próprio sobrinho de Michael, Jaafar Jackson.
O fenómeno das biopics

As biopics de artistas musicais existem desde os anos 80. Porém, o sub-género foi rapidamente se desgastando, o que gerou um cansaço do público em relação a filmes como estes. Até que em 2018 surge o sucesso de “Bohemian Rhapsody”, um fenómeno cinematográfico que se tornou uma febre nas bilheteiras, alcançando mais de mil milhões de dólares ao redor do mundo. Porém, o filme seguia uma fórmula básica, rasa e deslavada, o que não pareceu incomodar o público geral, pois o filme conseguiu vencer 4 Óscares, mesmo após tantas críticas negativas.
Após o sucesso de “Bohemian Rhapsody”, o género das biopics estava de regresso aos cinemas em grande. Sucessos como “Elvis” e “A Complete Unknown” apostavam em abordagens mais autorais e diferenciadas, algo que o filme sobre os Queen nunca se propôs a fazer. O que deu a estes filmes uma qualidade distinta do que mais apenas um produto para ser vendido à custa da música dos seus artistas. Mas será que “Michael” cai nessa abordagem?
O homem por trás da lenda

Infelizmente, “Michael” é um mau exemplo que não justifica a sua existência para além de querer fazer milhões à custa da música de um artista icónico. Pois é um filme sem qualquer interesse em desenvolver aqui uma premissa dramática interessante, caindo na construção de uma personagem principal que não tem falhas. Ora, isto pode se justificar pelo facto da família de Michael Jackson estar inteiramente envolvida na produção do filme. O que faz com que a imagem de Michael seja branqueada por completo, deixando que todas as suas falhas fossem justificadas graças aos maus tratos do seu pai. Porém, Michael Jackson não era um santo, assim como nenhum de nós também o é, então para quê tomar a decisão de fazer um filme que não cria uma personagem real, e trabalha apenas esta ideia insuportável de mito intocável?
É verdadeiramente injustificável o que Fuqua faz com o final do filme. Todo o recorte para o terceiro ato é uma colagem de concertos que pouco têm para oferecer narrativamente. Sobretudo o último, que torna completamente desrespeitosa a forma como encerra o filme, com um cartão final colocado de forma apressada e anti climática. Portanto, o filme acaba por concluir sem uma conclusão, é abrupta (e até desrespeitosa) a escolha deste recorte para os anos retratados no final de “Michael”.
Ora, alguns rumores apontam que o terceiro ato iria retratar os polémicos casos de pedofilia que envolvem Michael Jackson, mas que graças a motivos legais, este teve que ser refilmado por completo. Porém, isto não justifica que a última meia hora do filme abdique de ter qualquer coerência narrativa e se torne apenas um filme concerto em que Jaafar Jackson imita o seu tio em palco.
Uma colagem diluída de melhores momentos
Se o espectador quiser matar saudades de Michael e quiser ouvir as suas músicas nas colunas altas do cinema, este é o filme ideal. Sobretudo porque em alguns momentos Jaafar Jackson é idêntico ao seu tio, o que vai emocionar muitos fãs. Porém, o filme não oferece mais do que isso, um aproveitamento das lendárias músicas e um retrato de tentar imitar momentos icónicos da carreira do Rei do Pop. Como o videoclipe de Thriller, o momento do primeiro moonwalk ou as performances em palco. Pois não existe qualquer tentativa do argumento em tornar Michael no que ele era, um ser humano. E enquanto fã do cantor, o meu desejo era ver esse seu lado retratado na tela do cinema, ver as suas fragilidades, as suas emoções, o homem por trás da lenda. Porém, o filme nem sequer se aproxima dessa expectativa.
Uma das maiores desilusões que tive com “Michael” foi Colman Domingo, que interpreta Joe Jackson. Pois é difícil não concordar que esta é a pior atuação de toda a carreira deste excelente ator. Domingo interpreta um Joe Jackson extremamente caricato e pouco convincente. É exagerada toda a sua caracterização, desde a sua maquilhagem, à realização de Fuqua, que parece estar a filmar um vilão da Disney. E o trabalho do ator é simplesmente pouco convincente. Recorrendo a exageros que, mais uma vez, afastam o seu Joe Jackson de se tornar uma personagem viva. Tornando-se apenas uma caricatura e justificação exagerada para os traumas de Michael.
Um filme aquém do Rei do Pop
Já Jaafar Jackson faz o seu melhor para imitar o seu tio Michael. Porém, o argumento não se permite ir a um nível mais profundo que permitiria Jaafar brilhar no papel, preferindo passar por vários momentos icónicos da carreira do cantor do que fazer um recorte mais exato que iria beneficiar a sua atuação e a personagem.
E com a recusa do argumento de se aprofundar em algum tema, Michael fica apenas a parecer uma pessoa um pouco bizarra. Enquanto sabemos que o Rei do Pop era muito mais do que isso. O que se dá graças à sua estranha obsessão com filmes infantis e o universo da Disney, que ficam completamente perdidos na narrativa. Assim como o seu amor pelos animais (que aqui são horrivelmente retratados através de péssimos efeitos especiais), o que acaba por soar forçado e não tem qualquer papel no desenvolvimento da narrativa.
O filme recusa toda e qualquer polémica que envolve Michael, com a exceção de uma, as suas cirurgias plásticas. Porém, o filme passa apenas por uma delas (a primeira). Ignorando por completo as transformações no corpo do cantor, em particular a sua polémica transição de cor de pele.
É uma pena que um grande artista como Michael Jackson não tenha recebido um filme à altura da sua grandeza. Porém, se o leitor é realmente fã do astro e deseja ouvir as suas músicas mais uma vez, com recriações exatas de momentos da sua carreira. “Michael” ainda poderá ser minimamente satisfatório. Por outro lado, terá que passar por duas horas de uma dramatização barata e caricata da vida do Rei do Pop, com um final que é incompleto e ofensivo, e que em nada faz jus ao enorme legado de Michael Jackson.
Conclusão
Em suma, “Michael” é um filme que não quer cometer riscos ao abordar qualquer polémica da vida do astro, justificando tudo nos atos terríveis do seu pai. Logo, acaba por se tornar um filme produto que não se aprofunda em qualquer tema e que em nada faz lembrar a genialidade que Michael Jackson nos deixou com a sua música intemporal.

