"Midsommar: O Ritual" | © A24

MOTELx ’19 | Midsommar – O Ritual, em análise

Depois do triunfo infernal de “Hereditário”, o realizador Ari Aster volta a triunfar com a sua segunda longa-metragem, “Midsommar – O Ritual”. Esta história de horror e sacrifício nas paisagens luminosas da Suécia tem antestreia nacional no MOTELx. Cuidado com os SPOILERS!

Muitos já foram os críticos que estabeleceram uma ligação entre a segunda longa-metragem de Ari Aster e “O Sacrifício” de Robin Hardy, mas a sua dívida para com outro filme é, quiçá, ainda maior, mais importante e rica. Segundo o próprio realizador, “Midsommar” é como uma espécie de “O Feiticeiro de Oz” para tarados. As semelhanças entre as obras compreendem duas grandes vertentes. Uma é temática e refere-se à procura do lar levada a cabo pelas suas protagonistas. A outra é estrutural, tanto ao nível de estética como de narrativa. Trata-se de um movimento de uma realidade incolor para uma fantasia cromática, uma fuga do real na direção de um sonho onde a dor é mais suportável. A Dorothy deste conto é Dani, uma estudante americana que conhecemos naquela que é talvez a pior noite da sua vida.

Antes de chegarmos à terra do sol estival que nunca se põe, “Midsommar” começa na penumbra de uma floresta invernal. Em frente a um oceano de negrura, árvores frondosas rasgam a noite como monumentos sinistros, é algo feio e inglório. A Natureza é ameaçadora e, no mundo dos homens, num apartamento ominosamente decorado com mobília do IKEA, Dani desespera. No computador, brilham mensagens ameaçadoras de uma irmã com problemas mentais e, em pânico, a nossa heroína telefona ao namorado. Christian, que está com a sua trupe de insensíveis amigos, tenta acalmá-la, descartando as suas preocupações com palavras frustradas. Para estes homens, as necessidades emocionais dela são uma forma de abuso, e ela e Christian já se deviam ter separado há meses.

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As promessas de que tudo está bem são os primeiros de muitos erros trágicos de Christian e companhia. De facto, nada está bem e a noite acaba com uma família asfixiada e Dani feita órfã e filha única. A tragédia inicial é de tal horror, suas imagens de domesticidade pervertida são tão fortes, que a sua sombra cobre todo o filme. Aster usa floreados estilísticos para nos recordar a nós e a Dani do que aconteceu, mas esse gesto é, francamente, desnecessário tanta é a força corrosiva do que testemunhámos. Depois de visto, o prólogo de “Midsommar” é algo que não se esquece. Isso não impede Dani de tentar esquecer, de tentar fingir que está tudo bem. Depois de “Hereditário”, Aster continua obcecado com o modo como o ser humano lida com a perda, especialmente quando esse trauma infeta relações íntimas.

Tal como os casais que suportam a fundação arruinada de um matrimónio com um filho, também Christian e Dani usam a tragédia como remendo para o seu namoro desmoronado. Ou melhor, a tragédia veio remendar o que já estava além de qualquer possível reparo, efetivamente forçando a viver aquilo que já está morto. Para Christian, a relação está suspensa num estado de constante incerteza, uma prisão feita de culpa e compromissos insinceros. Para Dani, é como se ele fosse o seu último alicerce, uma derradeira ligação à normalidade a que ela tanto quer regressar. “Midsommar” observa como o cadáver desta relação vai apodrecendo até que nem a tragédia nem a culpa são suficientes para esconder o fedor da decomposição.

É aí que a nossa Dorothy encontra passagem para a terra de Oz. Acontece que Christian e seus amigos académicos planearam uma viagem até à Suécia para esse verão. Pelle convidou os colegas a visitarem a comunidade fechada em que ele cresceu, os Hårga, e um deles quer mesmo estudar os seus costumes locais. Tudo isto foi planeado nas costas de Dani e, quando ela descobre, Christian resolve o problema com o convite. Num abrir e fechar de olhos, Dani está num avião para a Suécia, imiscuída num grupo de homens que claramente não a quer lá. Todos, menos Pelle, cujo interesse nela parece ir muito além da amizade. Do ar cinzento da América, “Midsommar” assim chega a uma Escandinávia pastoral e patologicamente bucólica.

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A vila dos Hårga é um milagre de cinema de terror, tão bela como é desconcertante. Eles estão isolados do mundo, sem uma única estrada que os ligue ao resto da Humanidade, uma dimensão alternativa onde todos vestem branco e a paisagem floresce com edifícios angulosos entre relva verdejante. Lá fora, a luz do sol é constante e a noite cerrada só existe mesmo nos sonhos. A imagem quase brilha e magoa os olhos com a sua brancura, mas, quando as personagens se resguardam no interior das casas, o que descobrem são ambientes em castanhos e azuis que enregelam o corpo. Por todo o lado, pinturas murais pressagiam os acontecimentos mais violentos do filme, concedendo-lhe uma dimensão trágica. Tudo o que vai acontecer já aconteceu antes, está predestinado e não há nada a fazer para o evitar.

Ainda não passam 24 horas desde a sua chegada quando os turistas americanos se começam a aperceber que algo sinistro se passa e Aster tudo mostra com impiedosa brutalidade. Contudo, por muito monstruoso que o ambiente e seus habitantes possam ser, o realizador nunca os filma como algo feio. Os Hårga e seus rituais são sempre espetáculos deslumbrante de rigorosa geometria humana. Se Dani é o caos de uma mente em colapso, a comunidade é uma maravilha de ordem natural e humana, uma gloriosa mescla de culto à Natureza, monstruosidade primordial e a religiosidade pagã de tempos ancestrais. O problema vem quando a comunhão com a Natureza e suas ordens sacras se faz a partir do derramamento de sangue.

Apesar de se ir distraindo com o resto do elenco, “Midsommar” é uma experiência muito ligada à subjetividade da sua heroína e é através dela que todos estes horrores ganham contexto e forma. Aqui, o pesadelo da carnificina não é nada ao lado do pesadelo do amor tóxico. Florence Pugh interpreta Dani como alguém que se está sempre a esconder do namorado, sempre a fingir que o seu trauma não existe ou que não tem importância de modo a manter esse último símbolo de estabilidade na sua vida. Ela toma drogas que não quer tomar para não o maçar. Ignora o facto que ele se esqueceu do seu aniversário. Ela tenta não reagir face ao modo como Christian se parece preocupar mais com uma tese que acabou de inventar do que com ela.

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Quando a pessoa que é suposto apagar aqueles sentimentos de solidão se torna na principal fonte desses mesmos pensamentos tóxicos, o que fazer? Quando a pessoa que era suposto abafar as labaredas da solidão, só sabe atiçar as chamas, o que fazer? Tal como a psique de Dani, também a totalidade do filme está sempre a um milímetro de cair num precipício de absoluto caos. Essa tensão, esse vacilar entre a margem do precipício e a queda desgraçada, é o que torna o filme numa experiência tão sufocante. Consumidos por questões sem respostas indolores, “Midsommar” e Dani atiram-se de cabeça rumo à destruição enlouquecida.

Esse final, que muito espectador tem dividido, é talvez o suprassumo golpe de génio de Ari Aster. Aí, o caos do indivíduo é absorvido pela ordem da comunidade e “Midsommar” oferece-nos uma catarse escapista e inimaginavelmente doentia. A nossa Dorothy finalmente encontra o lar num Oz que partilha a sua dor e se oferece para a deixar chorar no seu ombro. É algo tóxico e intoxicante, uma violação da ordem da história e um rasgo de justiça vingativa. O filme dá-nos aquilo que queremos e depois faz-nos sentir repugna por nós mesmos num glorioso ato de cinema contra o espectador. É também uma falsa promessa de salvação. Afinal, seria fácil fazer dos Hårga o tipo de Diabo monstruoso do costume. Nas mãos de Aster, pelo contrário, eles são um Mefistófeles aliciante. “Midsommar” faz-nos crer na sua mentira até que, num instante final, num sorriso demente, ele nos pergunta se não teremos trocado o purgatório pelo inferno.

Midsommar - O Ritual, em análise
Midsommar: O Ritual

Movie title: Midsommar

Date published: 13 de September de 2019

Director(s): Ari Aster

Actor(s): Florence Pugh, Jack Reynor, Will Poulter, William Jackson Harper, Vilhelm Blomgren, Ellora Torchia, Archie Madekwe, Henrik Norlén, Gunnel Fred, Isabelle Grill

Genre: Drama, Mistério, Terror, 2019, 147 min

  • Cláudio Alves - 90
  • Virgílio Jesus - 90
  • Catarina d'Oliveira - 85
  • Maggie Silva - 85
88

CONCLUSÃO:

“Midsommar – O Ritual” deforma e transforma o que podia ser uma crise mundana – uma pessoa enlutada a ver a sua relação desmoronar-se – e torna-a numa odisseia pelos recantos mais loucos da psique humana. Com este sacramento de sangue, este slasher feito à medida do slow cinema, Ari Aster assume-se como o rei pagão do cinema de terror contemporâneo. O realizador usa os seus temas e formalismo como um canhão apontado ao espectador e dispara.

O MELHOR: Uma rainha de maio, honrada com uma vingança fogosa, a tentar caminhar sob o peso de uma montanha de flores, aos gritos e a chorar. Em seu redor os outros também gritam como que partilhando o seu tormento. Um sorriso…

O PIOR: Com quase duas horas e meia, “Midsommar” é demasiado comprido. Algumas personagens só existem para morrer ou tornar os temas estupidamente óbvios. Uns bons 20 ou 30 minutos podiam ser cortados só com a exclusão de personagens inúteis

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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