"Sexta-feira 13" | © MOTELX

MOTELx ’19 | Sexta-feira 13, em análise

Como, este ano, o MOTELx foi abençoado com uma sexta-feira 13, o festival de terror lisboeta decidiu desenterrar um dos maiores clássicos do género – “Sexta-feira 13” de Sean S. Cunningham.

Em crítica cinematográfica focada em obras com já alguma idade, muitas vezes cai-se no erro de confundir importância com qualidade. Um filme influente e de grande relevância histórica não é necessariamente um bom filme. Para fãs de terror pode parecer blasfémia dizer tal coisa, mas o “Sexta-feira 13” original é o exemplo perfeito de tal fenómeno. Estreado em 1980, este filme de Sean S. Cunningham foi o primeiro projeto a sintetizar os ingredientes essenciais do slasher e, quando teve uma sequela instantânea a estrear no ano a seguir, deu origem a um modelo de produção que para sempre viria a mudar o cinema de terror.

Trata-se de um sucesso cujo triunfo no box office ainda reverbera pela indústria nos dias de hoje e de um objeto de culto para muitos aficionados do terror. Infelizmente, é também um dos slashers mais medíocres da década de 80, sendo que foi mesmo superado pelas suas sequelas e outras produções que tentaram copiá-lo à descarada. Não que “Sexta-feira 13” seja um desastre de grande originalidade. De facto, os seus melhores elementos são todos tirados de filmes melhores, desde a sua estrutura à sua banda-sonora.

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Conhecedores de clássicos de terror desta época poderão perguntar-se porque estamos a depositar tanta importância em “Sexta-feira 13”. Afinal, tanto “O Massacre no Texas” como “Halloween” exemplificaram proto-slashers e ambos foram feitos antes deste pesadelo de 1980. Iriamos mesmo ao ponto de dizer que esses filmes de Tobe Hooper e John Carpenter foram algumas das principais referências que orientaram o trabalho de Cunningham. Esse produtor tornado realizador não era, de todo, um autor com uma visão artística bem definida e a sua construção de “Sexta-feira 13” tem mais que ver com eficiência industrial do que com criatividade.

O argumento, escrito por Victor Miller, é, na verdade, um exemplo de cinema quase mecânico na sua funcionalidade bem oleada. Durante os seus momentos iniciais, “Sexta-feira 13” usa montanhas de exposição desajeitada para estabelecer a sua premissa de terror. Em 1958, no Campo Crystal Lake, dois dos adolescentes a tomar conta dos campistas foram brutalmente assassinados. Como o homicídio veio no seguimento de um trágico afogamento no ano anterior, o campo ganhou infâmia local e foi prontamente fechado.

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Décadas depois, o novo dono do estabelecimento, Steve Christy, decidiu reabrir o campo. Para isso, ele contrata vários adolescentes que vemos chegar a Crystal Lake numa quinta-feira, dia 12 de junho. Ao longo de dois dias, testemunhamos como os jovens e Steve são sistematicamente mortos, um por um, até que só sobra uma final girl a defrontar-se contra a força do homicida. Todas as figuras em cena são clichés e estereótipos, carne para canhão e só existem em cena para se despirem e serem cruelmente abertos por facas, machados e até umas quantas flechas.

Para piorar a situação, quase todos os atores parecem ter sido escolhidos pelo seu visual e não por qualquer tipo de talento interpretativo. Até aqueles cujas carreiras futuras viriam a provar serem bons atores vacilam aqui. Com um guião abismal e a falta de direção do realizador, isto não é de admirar, mas não deixa de ser frustrante. Nenhuma das mortes tem qualquer tipo de impacto emocional e é, por isso, impossível ter medo. Para um clássico de terror, “Sexta-feira 13” é um filme incrivelmente desprovido de sustos eficazes e só mesmo os jump scares, que este projeto ajudou a popularizar, conseguem produzir algum tipo de reação.

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A compensar a falta de genuíno terror, a falta de personagens credíveis e, se formos honestos, a falta de competência cinematográfica do realizador, o filme tem os seus efeitos especiais e maquilhagens sangrentas. Tom Savini, então um veterano do cinema de Romero, é um dos grandes artistas de gore da sétima arte e “Sexta-feira 13” é uma fabulosa montra dos seus talentos. Há um prazer lascivo em ver estes fantoches de carne serem brutalmente assassinados e mutilados, ver como um machado se enterra no crânio de uma e como uma seta perfura o pescoço de outro.

Tirando isso, só mesmo se aproveitam outros dois elementos. Um deles é a prestação psicopática de Betsy Palmer como a Sra. Voorhees. Não constitui nenhum tipo de grande performance de terror, mas há um apelo camp no seu exagero histérico. O outro elemento a aplaudir também desperta uma certa ambivalência em nós. Referimo-nos à banda-sonora icónica do filme que é uma cópia desenvergonhada das composições de Bernard Herrmann para “Psico”. Pensar em merecidos clássicos de terror é o melhor que o cinéfilo tem a fazer quando confronta “Sexta-feira 13” suas composições desleixadas, drama frouxo e absurdo trabalho de ator. Poucas vezes na História de cinema, a inaptidão foi tão exageradamente recompensada com lucros e importância histórica.

Sexta-feira 13, em análise
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Movie title: Friday the 13th

Date published: 13 de September de 2019

Director(s): Sean S. Cunningham

Actor(s): Betsy Palmer, Adrienne King, Jeannine Taylor, Robbi Morgan, Kevin Bacon, Harry Crosby, Laurie Bartram, Mark Nelson, Peter Brouwer, Rex Everhart, Ronn Carroll, Ron Milkie, Walt Gorney, Willie Adams, Debra S. Hayes

Genre: Thriller, Mistério, Terror, 1980, 95 min

  • Cláudio Alves - 45
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CONCLUSÃO:

“Sexta-feira 13” é o exemplo máximo de como o termo clássico depende mais de relevo histórico do que de efetiva qualidade artística. Este pesadelo estival sobre adolescentes hormonais a serem mortos num campo de férias é influente e icónico, mas é também um filme de terror que não mete medo a ninguém e cujas personagens são risivelmente incredíveis.

O MELHOR: Os efeitos especiais sanguinários do inigualável Tom Savini.

O PIOR: O elenco secundário de vítimas é mesmo deplorável, tanto a nível textual como interpretativo. Apesar disso, a falta de suspense, de tensão e de genuíno choque é o maior pecado deste clássico.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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