"A Minha Vida com John F. Donovan" | © NOS Audiovisuais

A Minha Vida com John F. Donovan, em análise

Depois de uma série de relativos sucessos, Xavier Dolan assinou o seu primeiro grande fracasso cinematográfico, “A Minha Vida com John F. Donovan”.

Aquando da estreia do seu primeiro filme em inglês, Xavier Dolan afirmou que Cannes tinha sido demasiado inteligente para programar a obra, enquanto o Festival de Toronto era suficientemente burro para o fazer. Quando o próprio realizador fala assim do seu trabalho, é difícil não nos precavermos para uma valente catástrofe. No entanto, não há suficientes palavras de cautela que possam advertir o espectador o suficiente em relação a “A Minha Vida com John F. Donovan”. Mesmo para fãs ferrenhos do cineasta canadiano, esta será uma confeção difícil de engolir sem deitar a língua de fora.

A história do filme é uma matrioska de sensacionais epítetos de melodrama, de memórias maximalistas e monólogos lamechas. A moldura que enquadra a narrativa principal é uma entrevista jornalística, como se Dolan estivesse a refazer o seu próprio “Laurence Para Sempre”. Se bem que, enquanto nesse filme havia uma certa contenção dramática na conversa, aqui tais preocupações foram janela fora. Thandie Newton é uma caricatura rancorosa de uns media incapazes de dar valor a algo que não um portentoso assunto de interesse social como guerra ou fome. O entrevistado é um avatar para o próprio Dolan, um megafone pelo qual ele pode vituperar contra os seus críticos.

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De facto, o realizador terá baseado esta figura nele mesmo. Tal como o jovem Dolan, a personagem de Rupert Turner foi, em tempos, uma criança precoce que queria ser ator e escrevia cartas embevecidas aos seus ídolos. No caso do cineasta, Leonardo DiCaprio foi o alvo de tal adoração. O ator de “Titanic” nunca terá respondido ao prodígio canadiano, mas o mesmo não acontece neste sonho de uma vida ficcionada. A figura titular de “A Minha Vida com John F. Donovan” responde ao seu fã menino e os dois estabelecem um diálogo que lhes define a vida.

A entrevista remete-nos para os anos dessa correspondência, a juventude de Rupert com uma mãe solteira e uma transtornante mudança de casa, da América para o Reino Unido. Por sua vez, a história do menino usa as cartas para nos catapultar para a vivência de John F. Donovan, criando-nos um retrato duplo que é também uma pintura tripartida. É certo que vamos testemunhando a saga de Donovan e Rupert Turner, mas ambos são claramente facetas de Dolan que aqui se proclama um mártir cinematográfico injustamente crucificado pela crítica. Considerando que foi a crítica que levou à glória de Dolan na sua indústria, tais histerismos são risíveis. Aliás, se há algo que “A Minha Vida com John F. Donovan” nos comprova é que as críticas mais ferozes a Dolan tinham o seu quê de razão e astúcia.

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Apesar de haver muito que admirar na obra passada, o cinema deste autor juvenil é uma fonte de imaturidade, tanto a nível estilístico como textual. Por vezes, essa imaturidade é calibrada de modo a suscitar grandes experiências de melodrama do grande ecrã. Noutros casos, como aqui, o que se obtém é um miasma pestilento de narcisismo e petulância desavergonhada. Numa das passagens mais estapafúrdicas, Dolan, através de Rupert, queixa-se que os seus temas podem não ser tão importantes como a destruição de Alepo, mas deviam receber a mesma atenção. Há algum valor escondido nessa queixa, mas a comparação gritada é quase obscena na sua insensibilidade.

Parte do problema talvez provenha de um desconforto do realizador com a expressão anglófona. Dolan fala francês do Quebec e, desde que tem tentado expandir o seu cinema para além das fronteiras canadianas, os seus filmes têm vindo a cair a pique no que se refere à qualidade artística. Quando tentou fazer um drama europeu com “Tão Só o Fim do Mundo”, Dolan já deu uns quantos passos em falso. Agora que experimentou um registo americanizado é que tudo deu para o torto, revelando uma enorme falta de autocrítica e capacidade para expressar as suas ideias de modo robusto ou com nuance. Como dizemos, quiçá isto seja uma questão de tradução mal feita, mas isso não desculpa a penosa experiência do espectador sujeito a ver “A Minha Vida com John F. Donovan”.

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Até os trunfos habituais do realizador lhe parecem estar a falhar. O seu talento para levar atores a extremos emocionais sem tombar para o absurdo parece tê-lo abandonado. Como o jovem Rupert, Jacob Tremblay é um poço de emoções fortes sem coerência, enquanto Kit Harington parece um zombie sonolento no papel de Donovan. Se a história de um ator desgraçado pelo escândalo da sua homossexualidade e correspondência com um miúdo é suposto ser encarada como uma tragédia, a prestação de Harington pouco faz para sustentar essa tonalidade. Só mesmo Thandie Newton é que se safa como a repórter. Como uma agente pragmática, Kathy Bates também tem os seus momentos, mas Susan Sarandon e Natalie Portman estão totalmente à nora nos seus papéis maternos.

O pior de tudo é que até o maximalismo estético de Xavier Dolan parece ter ficado sem gás. Os excessos do costume marcam presença, mas agora parecem manifestações arbitrárias de hubris cinematográfica ao invés de escolhas motivadas pela narrativa ou pelas personagens. A fotografia de André Turpin é belíssima, mas não há fundamento para seu esplendor. O uso de música, por seu lado, é terrível, especialmente quando uma reunião emocional se torna num videoclip cómico para a cover que Florence Welch fez de “Stand by Me”. Enfim, por entre as torrentes de mediocridade lá se encontram umas notas de graça. Talvez seja um grande plano de iluminação particularmente sofisticada ou um gesto que expressa mais com silêncio do que com gritos. Enfim, Dolan continua a ser um realizador interessante, mas “A Minha Vida com John F. Donovan” é um capítulo da sua carreira que até ele parece querer esquecer.

A Minha Vida com John F. Donovan, em análise
A Minha Vida com John F. Donovan

Movie title: The Death and Life of John F. Donovan

Date published: 2019-11-08

Director(s): Xavier Dolan

Actor(s): Kit Harington, Jacob Tremblay, Natalie Portman, Thandie Newton, Ben Schnetzer, Susan Sarandon, Sarah Gadon, Kathy Bates, Jared Keeso, Michael Gambon

Genre: Drama, 2018, 123 min

  • Cláudio Alves - 25
  • Daniel Rodrigues - 20
  • José Vieira Mendes - 60
35

CONCLUSÃO:

“A Minha Vida com John F. Donovan” parece uma paródia de um filme de Xavier Dolan, pondo a descoberto as suas piores manias e afetações sem dar nada em troca para compensar a inglória. Histérico e anémico, melodramático no mau sentido, este é um filme para esquecer. Jessica Chastain, cujo papel desapareceu no processo de pós-produção, devia agradecer aos Céus a sua excisão dos créditos.

O MELHOR: A fotografia é esplendorosa, mesmo que sem motivação.

O PIOR: O diálogo atroz das entrevistas que enquadram o resto da história.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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