Mitski (foto de Ebru Yildiz)

Laurel Hell é o novo álbum de Mitski

Em Laurel Hell, Mitski reage à armadilha da fama. “The Only Heartbreaker” traz-nos a euforia e a amargura deste inferno de louros.

O que parecia uma aventura isolada, daquelas a que a pandemia nos foi habituando, era afinal o primeiro vislumbre do novo álbum de Mitski, Laurel Hell, que sairá a 4 de fevereiro pela Dead Oceans. “Working for the Knife”, lançado a 5 de outubro, apanhou-nos de surpresa no mês passado, mas não tanto como a chegada agora de “The Only Heartbreaker” e o anúncio do regresso da sino-americana de Nova Iorque à música de estúdio.

Mitski - Laurel Hell - The Only Heartbreaker
Capa de Laurel Hell

Segundo um comunicado de imprensa, a maior parte das canções que compõem Laurel Hell foram escritas ainda antes e durante o ano de 2018, momento que viu a ascensão de Mitski de fenómeno de culto a estrela indie, com o seu aclamado Be the Cowboy, um dos melhores álbuns da década para a MHD, e não só. Mas o processo de gravação, em parceria com o produtor Patrick Hyland, colaborador de longa-data, foi demorado, terminando já só em 2021. Realizado durante o isolamento de uma pandemia global, várias das canções foram “lentamente tomando novas formas e sentidos, como da semente à flor”. Nas palavras de Mitski, o álbum no seu todo evoluiu para “ser mais ritmado e dançável”, como forma de ultrapassar as dificuldades: “Chegou a hora, vamos atravessar isto dançando”.

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Como o próprio título indica, Laurel Hell reflecte o mal-estar de Mitski com a atenção pública. Tal como o intoxicante prisma da internet, esta esconde uma armadilha mortal sob a fachada sedutora que oferece, apertando tanto mais quanto mais se luta contra ela. “Cheguei a um ponto”, diz Mitski, “em que sabia que se continuasse por esta estrada, ficaria completamente entorpecida.” Deixando para trás a galeria de personagens de Be the Cowboy, no novo disco o desejo foi revelar o tecido complexo da vida moral e do amor.

Precisava de canções de amor sobre relações reais que não fossem lutas de poder a ser vencidas ou perdidas. Precisava de canções que me ajudassem a perdoar os outros e a mim mesma. Estou sempre a cometer erros. Não me quero colocar na posição de modelo exemplar, mas também não sou uma má pessoa. Precisava de criar, para mim sobretudo, o espaço de uma área cinzenta onde me situar.

Se as melodias das estrofes do primeiro single, “Working for the Knife”, nos devolveram a Mistki ominosamente vocal e distorcida de canções como “Geyser”, já o fugaz e explosivo refrão, a cargo dos sintetizadores, assinalava uma mudança de direcção que reencontramos, agora em pleno, no novo single. Resultando da colaboração com Dan Wilson, dos Semisonic (quem não se lembra de “Closing Time”?), “The Only Heartbreaker” é uma viagem à década de 80 mais dançável das comédias românticas de John Hughes. Mas o crescendo eufórico dos sintetizadores é assombrado pela insistente lembrança de que, nesta história, haverá mitos de vilania, corações partidos e a necessidade de perdão. Como se não bastasse, a minar este contraste entre sonoridade e lirismo, perpassa uma indefinível ironia que retira o pouco chão que ainda nos restava.

Mitski | “The Only Heartbreaker”

Laurel Hell | Alinhamento

1. Valentine, Texas

2. Working for the Knife

3. Stay Soft

4. Everyone

5. Heat Lightning

6. The Only Heartbreaker

7. Love Me More

8. There’s Nothing Left For You

9. Should’ve Been Me

10. I Guess

11. That’s Our Lamp

Maria Pacheco de Amorim

Literatura, cinema, música e teoria da arte. Todas estas coisas me interessam, algumas delas ensino. Sou bastante omnívora nos meus gostos, mas não tanto que alguma vez vejam "Justin Bieber" escrito num texto meu (para além deste).

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