Mitski (foto de Ebru Yildiz)

Mitski pede tudo em “Love Me More”, dançando

“Love Me More” oferece-nos mais uma espreitadela ao novo álbum de Mitski, Laurel Hell. Que soa cada vez mais a uma comédia de John Hughes filmada durante a pandemia.

Falta menos de um mês para ouvirmos o sexto longa-duração da sino-americana Mitski Miyawaki. Laurel Hell (e sim, o trocadilho é deliberado) sai a 4 de Fevereiro, pela Dead Oceans. Single após single, temos vindo a assistir à criativa pilhagem do largo espectro sonoro da década de 80. Pelo menos, do seu lado mais cor-de-rosa. Aquele que podíamos ouvir em Psychocandy, dos Jesus and Mary Chain, ou em certas duvidosas comédias de adolescente de cujos títulos já ninguém se lembra (Teen Witch visto na televisão numa tarde livre do oitavo ano, em 1990, vem-me contudo à cabeça).

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O melancólico single anterior, “Heat Lightning”, mais contido e monocórdico, subtilmente marcial e plangente, afastava-se do primeiro single, “Working for the Knife”, onde se ouve uma distorção digna de “Just Like Honey” e crescendos que lembram a obra anterior de Mitski em Be the Cowboy. O novo single, “Love Me More”, continua a linha do single principal “The Only Heartbreaker”, inclinando-se para o lado menos respeitável do espectro, mas nem por isso menos inteligentemente convocado a construir uma sincera paródia.

A euforia do instrumental, a trazer à memória saias de tule e bolas de espelhos, expande e agiganta a súplica do refrão: “I need you to love me more/ Love enough to fill me up”. Mas o habitual arrasto da melodia vocal, com um acorde acre aqui e acolá, a fadiga dos versos da estrofe (“I won’t make the same mistake/ That I made for fifteen years”) tanto explicam como corroem o desabafo explosivo, a dança ilusória do refrão. Em “Love Me More”, Mitski dá-nos a tristeza da maturidade embrulhada numa comédia de John Hughes.

O vídeo de “Love Me More” resultou de nova colaboração de Mitski com Christopher Good, o realizador do videoclipe de “Nobody”, um dos singles do anterior álbum da cantautora. Foi filmado em Kansas City no passado mês de Dezembro e escolhe sublinhar a nota sinistra da canção por meio de imagens que podiam ter saído de Heathers, em vez de Pretty in Pink.

MITSKI | “LOVE ME MORE”

Maria Pacheco de Amorim

Literatura, cinema, música e teoria da arte. Todas estas coisas me interessam, algumas delas ensino. Sou bastante omnívora nos meus gostos, mas não tanto que alguma vez vejam "Justin Bieber" escrito num texto meu (para além deste).

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