Money Monster, em análise

Money Monster chega a Portugal ainda quente da estreia no Festival de Cannes. No regresso de Jodie Foster à cadeira de realização, acompanhamos em tempo real uma reação radical às nocivas consequências das maquinações do sistema financeiro.

Lee Gates representa uma bombástica personalidade da televisão cujo popular programa sobre investimentos financeiros o torna numa espécie de guru do dinheiro em Wall Street. Todos os dias úteis, Gates entra pela casa do comum mortal adentro e entre passos de dança absurdos e sensacionalismos vulgares, dá conselhos sobre a bolsa e investimentos – supostamente – tão seguros como uma poupança. Mas depois de Gates promover a compra de ações de uma empresa de alta tecnologia que misteriosamente entra em crash, um espectador que perdeu tudo por causa de uma má dica de Gates torna o apresentador, a sua equipa e a produtora Patty Fenn reféns durante uma emissão ao vivo do programa. Numa corrida contra o tempo que acompanhamos em tempo real, Gates e Fenn terão de encontrar uma forma de se manterem vivos enquanto, simultaneamente, tentam desvendar a corrupta verdade por detrás de uma teia de grandes mentiras financeiras.

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Realizado por Jodie Foster numa nova incursão atrás das câmaras depois de O Castor (2011) e uma perninha em House of Cards e Orange is the New Black, Money Monster é um intenso thriller dramático que se equilibra na peculiar interseção entre a sujidade do mundo financeiro contemporâneo e a podridão do universo televisivo vergado à cultura Big Brother e imerso numa desumanização tecnológica que é quase desoladora.

Tomando por inspiração clássicos como Network e Dog Day Afternoon, e assumindo a sumarenta temática financeira que elevou O Lobo de Wall Street, A Queda de Wall Street e 99 Casas ao estatuto de dramas económicos de importância máxima da atualidade presente, Money Monster nunca consegue reter a ressonância, ultraje ou capacidade de exposição de qualquer um deles, mas não há qualquer dúvida que se apresenta como um sólido pedaço de entretenimento por direito próprio.

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Desenrolando os seus eventos em tempo real (de forma que roça o inverosímil), Money Monster parece mais tenso e radical do que efetivamente é, trocando intensidade e um verdadeiro murro no estômago por uma quase irresistível e compulsiva noção de espetáculo e diversão corrosiva – ainda que vá perdendo algum gás à medida que as suas intenções narrativas se tornam cada vez mais claras e previsíveis.

O argumento de Alan DiFiore, Jim Kouf e Jamie Linden encontrava-se entre outros célebres pares na famosa Blacklist de 2014 – uma espécie de buraco negro para guiões com potencial mas ainda não realizados. No entanto, e depois de ter começado a mexer cordelinhos em 2012, a produção arrancou a todo o gás nesse mesmo ano de 2014, já com Jodie Foster e George Clooney envolvidos no projeto. No entanto, é curioso que este mesmo argumento seja um dos elementos mais frágeis da película, dando não só a ideia de uma disparidade de ritmo e tom entre o primeiro e o segundo e terceiro atos, mas sobretudo porque parece incapaz de não só conferir a gravidade prometida ao tema que aborda, como também de se fazer levar a sério – de facto, a suspensão de descrença é um dispositivo que estamos mais do que abertos a levar em conta nas mirabolantes missões de James Bond ou nas espalhafatosas cenas de ação de Velocidade Furiosa, mas parece anormal que o tenhamos de fazer num drama que deseja que a audiência o aceite como real. Eventualmente, o mundo de Money Monster, que pretende copiar a realidade do nosso, afasta-se deste a passos de crescente e descrente implausibilidade, o que dificulta muito o investimento total por parte do espectador.

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Mas é a direção segura e superior de Foster juntamente com as interpretações que o elevam a um ávido produto de entretenimento – particularmente o playboy charlatão com uma alma escondida nos milhares de dólares no banco que assenta que nem uma luva em George Clooney e O’Connell que se confirma como um dos grandes e camaleónicos talentos da sua geração em mais uma transformação notável num homem que parece à beira do abismo.

Com poucas surpresas para o género, um segundo e terceiro atos sem capacidade de manter o ritmo ou positiva anarquia do primeiro e uma divisão esquizofrénica entre observações inteligentes e profundamente impactantes e momentos de pura incredulidade perante o ridículo e inverosímil de algumas situações apresentadas, Money Monster consegue, no entanto, gerar suspense e gargalhadas frias suficientes para manter o interesse da audiência ao longo dos seus económicos 98 minutos, posicionando-se como uma válida alternativa ao sobressaturado mercado do blockbuster no multiplex.

 

O MELHOR – A capacidade de entreter, a direção segura de Foster e as performances do trio protagonista.

O PIOR – O argumento díspar e muitas vezes inverosímil.

 


Título Original: Money Monster
Realizador:  Jodie Foster
Elenco: George Clooney, Julia Roberts, Jack O’Connell
Big Picture Films | Drama, Thriller | 2016 | 98 min

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Catarina Oliveira

Licenciada em Ciências da Comunicação e com formação complementar em Design Gráfico, além de editora e diretora criativa da MHD é também uma das sócias fundadoras da mais recente face da empresa. Colaboradora de Cinema na Vogue Portugal. Gestora de conteúdo na Lava Surf Culture e NOS Empresas - Criar uma Empresa. Autora do blog de Cinema Close-Up.

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