Monstra Ernest & Célestine crítica

MONSTRA ’19 | Ernest & Célestine, em análise

Ernest & Célestine” é uma simpática delícia de cinema infantil e uma das propostas mais belas e comoventes da presente edição da MONSTRA, o festival de cinema de animação de Lisboa.

Ao defender o mérito de cinema de animação, muitos são os cinéfilos e fãs deste tipo de expressão artística que usam o argumento “animação não é só para miúdos”. As palavras concretas variam, mas a ideia base tende a manter-se, assim como sua perniciosa sugestão de que algo feito exclusivamente para um público infantil é intrinsecamente inferior. Nada podia ser mais distante da realidade. Um bom contraexemplo para provar isso mesmo é “Ernest & Célestine”, uma obra com uma sensibilidade perfeitamente infantil que, por isso mesmo, acaba por ser uma maravilhosa joia de cinema, tão mais belo pela sua modéstia e despretensão.

Baseado numa série de livros para crianças de Gabrielle Vincent, esta produção franco-belga conta a história de uma amizade improvável a florescer num mundo bifurcado, onde animais falantes vivem. Debaixo da terra, escondidos do mundo exterior, vivem ratos numa sociedade baseada em torno da indústria dentista. Por cima, à superfície, vivem os ursos, cujos dentes caídos são cuidadosamente roubados pelos roedores. Para a sociedade ursina, os ratos são uma desprezível peste. Para os ratinhos, os ursos são uma perigosa fonte de matéria-prima, criaturas assustadoras e violentas que devem ser temidas e evitadas a todo o custo.

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Uma bela amizade que desafia os dogmas de duas sociedades que baseiam seus valores no preconceito.

Seguindo fórmulas bem habituais deste tipo de narrativa moral, conhecemos a nossa protagonista diminuta num momento em que ela é repreendida pela sua aparente rejeição do status quo comunitário. Célestine é uma roedora que adora desenhar e não parece ter muita paciência para a retórica ursofóbica que lhe é constantemente ensinada. Infelizmente, não obstante sua falta de vocação para o ofício dentário, como parte do mundo dos ratos é seu dever aprender e, como preparação, é seu dever viajar até ao mundo superior para colher alguns dentes de leite caídos de ursos jovens.

Assim ela faz, mas, certo dia, o plano corre mal e a pobre Célestine acaba por ficar encurralada e sem escapatória. É assim que ela é descoberta, na manhã seguinte à sua missão fracassada, por um urso na penúria que, no seu desespero, considera que a pequena roedora poderia ser uma boa forma de saciar o estômago vazio. Há algo de peculiar na franqueza meio macabra com que o filme encara a possibilidade da morte violenta da sua protagonista, mas Célestine lá acaba por convencer o urso que seria para seu benefício deixá-la viver. Ele assim faz e ela ajuda-o a entrar à força numa doçaria com propostas culinárias bem mais apetecíveis que um ratinho cru. O urso chama-se Ernest e este é o começo de uma bela amizade.

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Deste ponto de partida, o filme torna-se numa documentação do poder desta amizade, seu desenvolvimento e capacidade para expor a nu os preconceitos que dominam as sociedades de ambos os protagonistas. O que espanta mais no filme é como, apesar de algumas bizarras incursões pelo género policial e pelo drama de tribunal, o guião tende a destacar o processo gradual pela qual duas pessoas aprendem a por diferenças de parte e construir uma vida lado a lado, em comunhão e paz. Não há qualquer elemento romântico nesta proposta, só a domesticidade de dois seres em busca de companhia e alguém em quem se apoiarem.

Tal maturidade no modo como “Ernest & Célestine” retrata a dinâmica dos seus protagonistas em nada trai a infantilidade benigna que domina todo o projeto. Ver o filme é aprender a amar o duo no seu centro, entender suas especificidades e apreciar os aspetos mais excêntricos das suas personagens. Tal é o simples prazer de observar o florescer e fortalecimento do laço afetivo, que, quando este é posto em risco, ficamos emocionados e nunca nos esquecemos do que está em causa. Nunca saboreamos o drama excitante sem considerar as consequências finais que se podem vir a manifestar.

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A estética do filme reflete a simplicidade da própria narrativa e sua valiosa mensagem moral.

Como perfeita visualização desta amistosa modéstia narrativa, a estética dominante do filme é caracterizada pela simplicidade. A paleta cromática é dominada por tons terrenos suaves e esbatidos, sempre manifesta como manchas de aguarelas bem aquosas. As linhas pretas que definem as formas são delicadas e há uma excisão de detalhes desnecessários. O resultado de tudo isto é um desenho com ar meio incompleto, onde as linhas se esvanecem junto às bordas da composição e só a informação essencial é oferecida à audiência. Ou seja, o filme parece uma ilustração para crianças em movimento, cheio de formas rotundas e personagens adoráveis para captar a atenção sem nunca saturar o espectador com ruído visual.

Apesar de algumas frivolidades meio inusitadas, a modéstia simpática do projeto acaba sempre por triunfar e é essa mesma modéstia que se revela a grande mais-valia do filme. “Ernest & Célestine” é como uma história de embalar levada ao grande ecrã com elegância, contenção e o tipo de linguagem narrativa e visual sintética que só mestres da sua arte conseguem elaborar de forma tão segura e sem mostrar quaisquer sinais de esforço. Esses mestres são Stéphane Aubier, Vincent Patar e Benjamin Renner, cujas carreiras terão sempre esta joia cinematográfica como prova fundamental dos seus talentos.

Ernest & Célestine, em análise

Movie title: Ernest et Célestine

Date published: 2019-03-24

Director(s): Stéphane Aubier, Vincent Patar, Benjamin Renner

Actor(s): Lambert Wilson, Pauline Brunner, Anne-Marie Loop, Pierre Baton, Dominique Collignon, Brigitte Virtudes, Patrice Melennec, Féodor Atkine, David Boat

Genre: Animação, Comédia, Aventura, 2012, 80 min

  • Cláudio Alves - 80
80

CONCLUSÃO:

“Ernest & Célestine” é um abraço caloroso em forma de filme, cheio de encantos narrativos e formais. Sua estética simples em tons suaves e linhas esbatidas é uma delícia para os olhos, enquanto as personagens e as dinâmicas sentimentais da obra aquecem o coração ao mesmo tempo que nos oferecem, sem condescendência alguma, uma lição moral contra o preconceito.

O MELHOR: O estilo visual desta animação, especialmente os fundos esbatidos e deliberadamente inacabados.

O PIOR: Algumas das passagens mais mirabolantes, como uma perseguição policial, tendem a ser um tanto ou quanto frívolas quando consideramos o filme na sua globalidade. Não se perderia muito em excisar tais passagens desta doce narrativa.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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