Millennium Actress critica festival MONSTRA

MONSTRA ’19 | Millennium Actress, em análise

Com a sua segunda longa-metragem, “Millenium Actress”, Satoshi Kon afirmou-se como um dos indisputáveis mestres da animação japonesa. Este é um dos filmes em exibição na presente edição da MONSTRA, o festival de cinema de animação de Lisboa.

“Millenium Actress” começa com uma cena que sintetiza praticamente todos os temas e mecanismos a ser explorados ao longo da sua narrativa animada. Primeiro, só vemos o espaço, uma nave, uma mulher, uma cena de ficção-científica. O som parece estranho, abafado, como se estivéssemos a ver uma gravação de baixa qualidade dos eventos em cena. Uma imagem de um homem a observar algo luminoso dá-nos mais uma pista e assim entendemos que estamos a testemunhar alguém a ver uma ficção cinematográfica. Contudo, quando nos apercebemos das linhas que separam realidade e artifício, um foguetão do filme dentro do filme entra em processo de descolagem e, repentinamente, tanto a imagem virtual como a real começam a tremer. É um terramoto, mas, por instantes, a membrana que separa realidades sumiu, como que obliterada pela ligação emocional que o espectador tem para com o filme.

Mais tarde entenderemos como a obra de ficção-científica é importante na biografia deste espectador específico. Por agora, somos deixados somente com a verdade emocional da reação deste homem que é um realizador. Seu nome é Tachibana Genya e, juntamente com o cameraman Ida Kyoji, está-se a preparar para fazer um documentário centrado na demolição de um dos estúdios de cinema mais antigos do Japão. Graças a este projeto e à peculiar promessa de um presente importante, Genya consegue garantir uma entrevista com seu ídolo, uma das maiores atrizes que trabalhou nos estúdios que já não são mais que ruínas. Ela é Fujiwara Chiyoko, a protagonista do tal filme de ficção-científica. No seu tempo, havia sido uma estrela, mas, sem explicações aparentes, terá abandonado tudo em meados dos anos 60.

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O cinema da memória.

A narrativa principal de “Millennium Actress”, ou pelo menos seu contexto material, consiste nessa importante entrevista, ao longo da qual a atriz envelhecida explica a Genya e Kyoji a história da sua vida, tanto a nível pessoal como profissional. Uma das suas primeiras revelações, centra-se no presente que Genya lhe trouxe, uma chave. Segundo a estrela do grande ecrã, esse objeto é tudo o que lhe resta do homem responsável pela sua desventura pelo mundo do cinema. Acontece que, durante a sua juventude nos tempos do Japão fascista, Chiyoko cruzou caminho com um artista dissidente e ajudou-o a fugir às autoridades. Apesar do pouco tempo que passaram juntos, ela apaixonou-se por ele. Por seu lado, o dissidente acabou por conseguir escapulir-se, deixando para trás a tão importante chave. Ela, decidida a reencontrar o amado, aceitou a proposta de um realizador em busca de uma atriz para um filme rodado na Manchúria, a região chinesa ocupada pelas forças nipónicas para onde o artista terá viajado em segredo.

Tal descrição pode sugerir um filme com uma estrutura bem convencional de flashbacks emoldurados pelo diálogo da entrevista. Se “Millennium Actress” não tivesse sido realizado por Satoshi Kon essa presunção de tradicionalismo poderia estar correta, mas nos filmes deste cineasta a convenção não tem lugar. Logo no início da recordação, vemos como Kon combina o desenho relativamente realista de personagens e ambientes com estilizações que sugerem estéticas do passado, quer sejam fotografias emarelecidas dos anos 30 ou a arte japonesa de gravuras em madeira. Tal dinâmica traz ao filme uma constante mutabilidade visual, sendo que a estética vai sempre mudando de memória para memória. Contudo, o que é realmente arrojado na abordagem de Kon é como entrevistada e entrevistados interagem com a memória.

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Basicamente, quando nós, espetadores de “Millennium Actress”, somos transportados até às memórias dramatizadas de Chiyoko, também Genya e Kyoji parecem ter sido metafisicamente inseridos na recordação. O mais estonteante ainda é que isto não é somente um mecanismo estilístico sem consequências narrativas, visto que o realizador e cameraman reagem abertamente à sua repentina inserção no passado da atriz. Genya, por seu lado, fica deleitado e está constantemente a querer intrometer-se a nas memórias, sempre como salvador de Chiyoko. Kyoji, por seu lado, serve como porta-voz da audiência de “Millenium Actress”, começando por expressar estupefação, até que acaba por se habituar às loucuras estruturais da história em que se encontra. Não é bem meta cinema à la Charlie Kaufman, mas está lá perto.

A partir daí, o filme torna-se numa biografia construída pela fusão de filmes em que Chiyoko entrou e a sua história de vida sempre caracterizada pela busca infrutífera pelo seu amado. O que é ficção do grande ecrã e o que é a realidade da atriz vão dançando e mesclando-se de forma tão fluída que diferenciar os dois torna-se impossível. O que é o cinema senão a memória cristalizada para a eternidade por mecanismos óticos? O que é a vida lembrada senão uma narrativa que todos construímos com base nas gravações da nossa experiência sensorial? Ambos são métodos de preservação da realidade limitados, pelo que sua aglutinação parece quase justificada neste contexto. A montagem, que segue muito do mesmo tipo de distorção espaciotemporal já explorada por Kon na sua primeira longa-metragem, apenas exacerba toda esta conflagração de ideias complicadas sobre cinema, memória, identidade e ficção.

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O que é uma boa vida?

Ao mesmo tempo, Kon vai usando a vida de Chiyoko para refletir sobre a História do Japão, tanto no contexto cinematográfico como em termos mais expansivos. Por um lado, as memórias da atriz estão pejadas de referências à evolução da sétima arte no Japão desde piscares de olho aos filmes propagandistas dos anos 30, passando pelos épicos históricos de Kurosawa e aos dramas domésticos de Ozu até ao advento dos filmes de monstros gigantes e ficção-científica dos anos 50 e 60. Por outro lado, a biografia de Cihyoko é a História do Japão no século XX. Nascida no caos de um terramoto, ela vai praticamente redefinindo a sua identidade de modo constante até à chegada do milénio, negando feitos problemáticos de outros tempos, mas sempre em busca de um ideal romântico. Ela está sempre a reviver os mesmos ciclos até que se liberta através de um abandono do passado. Só que o passado deixa cicatrizes e não à forma de as apagar totalmente.

É impossível negar que este “Citizen Kane” do anime é um projeto com considerável densidade concetual. De facto, dos filmes de Satoshi Kon é provavelmente aquele mais difícil de interpretar com claridade, de assimilar, assim como o seu mais emocionalmente doloroso. Com isso dito, trata-se também de um objeto cinematográfico de uma beleza transcendente e seu final ambíguo deixa-nos um final raio de esperança, sugerindo que ter um propósito na vida por vezes é melhor que alcançar um ideal descomplicado de felicidade. Como vemos numa montagem extraordinária, onde o filme como que explode em par com o coração insuflado de amor e angústia da protagonista, Chiyoko passou a vida a correr em direção de algo que nunca conseguiu alcançar. A corrida, esse suprassumo gesto de romance cinematográfico é muitas vezes mais emocionalmente poderoso que o instante em que os amantes se reúnem. A corrida, a vida, o cinema, a ambiguidade de um final aberto são tão mais belos que uma conclusão.

Millennium Actress, em análise
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Movie title: Sennen joyû

Date published: 2019-03-23

Director(s): Satoshi Kon

Actor(s): Miyoko Shôji, Mami Koyama, Fumiko Orikasa, Shôzô Îzuka, Shouko Tsuda, Hirotaka Suzuoki, Hisako Kyôda, Masaya Onosaka, Kôichi Yamadera

Genre: Animação, Drama, Fantasia, 2001, 87 min

  • Cláudio Alves - 90
90

CONCLUSÃO:

Depois de tanto se celebrar a inconclusividade de “Millennium Actress”, resumir os méritos do filme numa conclusão parece um tanto ou quanto hipócrita. Enfim, como todas as obras de Satochi Kon, esta é uma joia de cinema de animação arrojada, sem medo de experimentar com os limites plásticos do meio ou com temáticas complexas.

O MELHOR: A corrida...

O PIOR: Algum do humor proveniente das figuras do realizador e seu cameraman parece desrespeitar o tom maioritariamente solene da obra.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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