Paprika

MONSTRA ’19 | Paprika, em análise

Em “Paprika”, Satoshi Kon mostrou o horror e a maravilha do sonho e sua representação cinematográfica. Este é um dos melhores filmes que a MONSTRA já exibiu.

Em 2010, Satoshi Kon morreu devido ao cancro do pâncreas. Ele tinha 46 anos. Seu diagnóstico ocorreu meros meses antes do fim, vindo a meio da produção de um filme que nunca foi completo, “Dreaming Machine”. Tanto para o anime como para a Arte do cinema de modo geral, sua morte representou uma perda incomensuravelmente trágica. No panorama atual, poucos são os realizadores que estão tão prontos a trazer experimentalismo formal ao mainstream e ainda menos aqueles que nunca mostraram qualquer vacilação qualitativa no seu trabalho. Com quatro longas-metragens e uma minissérie a seu nome, Kon tem a honra de nunca ter realizado um projeto menos que genial. De facto, em listas dos melhores filmes anime de sempre, é comum encontrar mais que um dos seus trabalhos.

Tal tragédia veio retrospetivamente alterar o modo como cinéfilos, críticos, académicos e fãs encaram “Paprika”. O filme estreou em 2006, quatro anos antes de Kon morrer, mas, como “Dreaming Machine” nunca chegou a ver a luz do dia, ficou com a importância de ser a última longa-metragem de um mestre artístico sem par. Em muitos casos, seria injusto carregar um projeto que nunca foi planeado como uma última obra com todo o peso concetual associado ao filme testamento. No entanto, no caso particular de “Paprika”, é fácil ver como este podia ser um ponto final apropriado na carreira de Satoshi Kon. Se “Perfect Blue”, sua primeira longa-metragem, representou a sintetização perfeita dos temas e técnicas do cineasta, “Paprika” mostra-nos essas mesmas preocupações temáticas e engenhos formais levados a um extremo bizantino, tão radical que é quase impossível de descrever.

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Cinema do sonho.

Baseado num romance de Yasutaka Tsutsui, “Paprika” passa-se num futuro próximo, em que uma empresa japonesa desenvolveu tecnologia que permite a partilha de sonhos lúcidos. Os cientistas responsáveis pela invenção e seu desenvolvimento, planeiam usar a inovação como ferramenta terapêutica, mas o diretor da companhia opõe-se veemente ao que ele considera ser uma intrusão amoral e inatural no mundo dos sonhos humanos. Um dia, tudo se complica quando três aparelhos desaparecem antes de terem sido propriamente bloqueados com códigos de acesso. Os ladrões podem usar a máquina para entrar no inconsciente de quem quer que seja sem restrições. Não demora muito até que o caos se instala através do que se pode chamar terrorismo onírico, com os criminosos a usar a máquina para deturpar a barreira entre realidade e sonho, sequestrando toda a gente num pesadelo acordado.

No centro do dilema, a Dra. Atsuko Chiba assume-se como nossa heroína e protagonista. Ela faz parte da equipa que desenvolve a tecnologia e suas potencialidades terapêuticas e, sem quase ninguém saber, anda a usar ilicitamente a máquina para ajudar pacientes psiquiátricos. Neste seu ofício enquanto terapeuta do mundo dos sonhos, Chiba disfarça-se de Paprika, um alter-ego amistoso capaz de se transfigurar nas suas aventuras adormecidas. Um dos pacientes secretos da Dr. Chiba, assim como um dos heróis da fita, é um detetive chamado Toshimi Konakawa. Sua mente é assombrada por um sonho incompleto relacionado com um homicídio que nunca foi resolvido e sua cura parece passar pelo cinema que tem a capacidade para dar ordem à aleatoriedade da vida.

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Na verdade, esse é um dos temas principais de “Paprika” e de toda a carreira de Satoshi Kon. Não tanto especificamente o cinema, mas certamente cultura popular nas sua variadas formas, como é o caso da televisão e o mundo da música em “Perfect Blue”, onde uma cantora tornada atriz vê a barreira entre sua persona fictícia e a identidade pessoal desaparecer com consequências hediondas. No caso de “Millenium Actress”, a vida de uma atriz com uma carreira histórica é definida pelos papéis que interpretou. Por sua vez, em “Tokyo Godfathers”, as personagens principais estão sempre a comparar a sua vida a géneros cinematográficos, como que dando razão e estrutura ao que lhes acontece através de filmes. Em “Paprika”, esta dinâmica é muito mais extremada, uma consequência clara de uma narrativa passada quase toda na mente inconsciente. Aqui, o cinema é uma fonte de fórmulas e códigos que conseguimos aplicar ao caos do mundo, dando-lhe a aparência de um fluxo narrativo que o ser humano consegue entender.

Curiosamente, apesar de explorar essa relação e ilustrar graficamente o modo como funciona, Satoshi Kon parece quase estar a criticar essa mesma dependência que o ser humano tem por narrativas formulaicas e tipificadas por códigos. Faz sentido, portanto, que “Paprika” seja uma narrativa que cospe na cara de fórmulas e está-se sempre a precipitar na direção do caos surrealista que sua premissa propõe. Desde uma sequência inicial em que o filme parece decidido a obliterar qualquer noção de integridade espacial ou temporal, até ao clímax horrorífico, “Paprika” é uma obra que nunca descansa, que nunca se deixa ficar pela convenção e está a sempre a testar até onde consegue chegar com suas ideias mirabolantes. Isto provoca alguma incoerência nas partes mais rebuscadas do enredo, mas nunca afeta o filme muito negativamente.

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Adeus Satoshi Kon.

Isso é a nível narrativo. No que diz respeito a estética, “Paprika” é uma explosão de surrealismo puro, disparado com um canhão diretamente para o cérebro do espectador indefeso. O tipo de manipulação de transições cinematográficas que Kon veio a desenvolver com seus filmes anteriores chega a píncaros meio doidos em “Paprika”. Algumas sequências parecem mesmo um exercício onde o realizador está a competir consigo mesmo, a tentar encontrar sempre soluções mais inusitadas para romper a barreira entre real e irreal, entre o que é a materialidade que as personagens percecionam e o fluxo cronológico da sua existência. Um gesto inofensivo, pode fazer uma mulher cair numa paisagem urbana vertiginosa, um passo catapulta uma personagem para um registo cinematográfico completamente diferente e até a expressividade do movimento muda dentro da mesma cena. Honestamente, é impossível descrever adequadamente a loucura de “Paprika”. Há que ver para crer.

Tudo isto contribui para a natureza do filme enquanto um pesadelo de luz e cor, uma afronta à sanidade da audiência e seus valores. Testemunhar a maravilha de “Paprika” é ver a morte da realidade capturada na forma de um filme, um sonho feito material pelo desenho impresso em celuloide, uma memória ilustrada e projetada, congelada no tempo para todos verem. Trata-se de uma glória cinematográfica do mais alto-gabarito, uma obra-prima que assusta tanto pelos seus mecanismos de medo como pela sua grandiosidade subversiva. Nunca vamos deixar de chorar a morte de Kon e todos os filmes que poderiam ter sido feitos e que nunca vão existir, mas “Paprika” é um ponto final adequado ao trabalho deste mestre da sétima arte.

Paprika, em análise

Movie title: Papurika

Date published: 2019-03-29

Director(s): Satoshi Kon

Actor(s): Megumi Hayashibara, Tôru Furuya, Kôichi Yamadera, Katsunosuke Hori, Tôru Emori, Akio Ôtsuka, Hideyuki Tanaki, Satomi Kôrogi, Daisuke Sakaguchi, Mitsuo Iwata, Rikako Aikawa, Shin'ichirô Ôta, Satoshi Kon, Yasutaka Tsutsui

Genre: Animação, Drama, Fantasia, 2006, 90 min

  • Cláudio Alves - 95
95

CONCLUSÃO:

“Paprika” é uma obra-prima indescritível que leva a capacidade de o cinema representar a irrealidade do sonho a novos patamares. A nível técnico, narrativo, concetual e emocional, trata-se de uma explosão de criatividade incomparável. Uau.

O MELHOR: Tudo!

O PIOR: Os pesadelos que o espetador pode ter depois de ver “Paprika”. Algumas das imagens do filme são asquerosamente inesquecíveis.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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