Fat White Family à MHD | “Somos sempre o alvo da piada”

Há a persona e a pessoa. Há o vocalista dos Fat White Family, que se desnuda para revelar o idiota em nós. E o Lias Saoudi, de quem fomos ao encontro.

Os Fat White Family vão lançar no dia 19 de abril, Serfs Up!, o seu primeiro álbum com a Domino Records. Depois de terem lançado o muito cru, lo-fi Champagne Holocaust (2013) e o já mais elaborado e eletrónico Songs For Our Mothers (2016) por meio da Fat Possum, a iconoclástica banda britânica fez as malas – poucas, que eles não têm onde cair mortos – para se juntar, no final de 2016, à discográfica de um ligeiramente assustado Laurence Bell e, abandonando Londres, assentar arraiais em Sheffield.

Já na nova cidade, os membros nucleares dos Fat White Family, os irmãos Lias e Nathan Saoudi, começaram a esboçar as canções que terminariam no seu terceiro álbum de estúdio. O turbulento guitarrista Saul Adamczewski acabou por se lhes juntar, embora constasse por aí que não fazia já parte da banda, e Serfs Up! foi gravado, com a ajuda do seu colaborador de sempre Liam D. May, nos estúdios ChampZone do grupo, em Attercliffe, um subúrbio industrial do nordeste de Sheffield.

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A descrição que o comunicado de imprensa faz da sonoridade do novo registo é, se não completamente espúria, pelo menos altamente duvidosa. O mesmo acontece com o post de Facebook onde é feito o anúncio do lançamento, em que tive a veleidade de confiar (até certo ponto) para abrir a nossa entrevista. O que é certo, e apesar da sempre já usual teatralidade, são os dois singles, acompanhados dos respectivos videoclipes, que os Fat White Family divulgaram entretanto. Se o vídeo de “Feet” nos traz a ambivalente imagética do costume, algures entre o anti e o neo nazismo, numa difícil e provocadora fronteira entre o culto e a sátira, já “Tastes Good With The Money” comporta as duas novidades de contar com a participação de Baxter Dury e ter o vídeo realizado por Róisín Murphy. Este último é um exercício hilariante em imaginar o que seria um splatstick realizado pelos Monty Python e faz jus à irónica autodescrição da banda no dito comunicado: “Os Fat White Family tornaram-se sofisticados”.

Fat White Family - Serfs Up! - Capa
Capa de Serfs Up!

A pele (literalmente entendida) do vocalista dos Fat White Family é só a máscara com que Lias Saoudi se diverte, tanto mais nela se escondendo quanto mais a descobre. Nascido em Southampton, filho de um imigrante argelino e de uma mineira, Saoudi foi várias vezes transplantado. Como em criança não o deixavam ver televisão, agarrou-se aos livros. Solitário e vítima da gabarolice e preconceito dos colegas de escola, refugiou-se na História, que acabou por estudar, juntamente com Inglês e Belas Artes, no nível avançado. Descobriu um talento natural para desenhar e pintar e conseguiu entrar na prestigiada Slade School of Fine Art, em Londres.

O curso não se fez sem contratempos, alguns deles trazidos pelas novas, burguesas e pouco recomendáveis companhias, como o uso de drogas. A vida depois de terminado o curso não melhorou, com a dificuldade em arranjar trabalho e a humilhação de lhe pedirem, num centro de emprego, que fizesse um teste básico de literacia e matemática. Chegou a ensinar inglês na China durante seis meses (conversámos sobre isso depois da entrevista). Sem lugar onde viver, ele e o irmão Nathan chegaram a ter de se proteger da chuva debaixo de bocados de plásticos. De uma experiência de microfone aberto num bar (que não correu nada bem, já agora) surgiu a criação de uma banda com o irmão, à qual acabou por se juntar Saul Adamczewski, completando o núcleo duro (mas nem por isso mais estável) dos Fat White Family. Este é a pessoa por detrás da persona que só as entrevistas revelam e ao encontro de quem quisemos ir, dispostos a verificar que cada homem é um enigma e nunca nada é o que parece.

Lias Soudi - Fat White Family - Serfs Up!
Lias Saoudi, vocalista dos Fat White Family

Como foi o processo de composição neste disco? Qual o nível de participação do Saul, dado que é sempre difícil dizer se ele faz ou não parte dos Fat White Family?

Suponho que quando começámos, não fazia. Tinha sido despedido por causa do seu problema de heroína e os problemas que isso trouxe. Quer dizer, ele não era o único viciado na banda mas já era, logo à partida, desequilibrado. Mudámo-nos para Sheffield quando a digressão terminou, construímos o nosso pequeno estúdio, alugámos uma casa porque era barato. Suponho que a diferença entre este álbum e os outros está em termos sido o Nathan e eu quem pôs a bola a rolar, tivemos as primeiras ideias, fizemos coisas como “Feet” logo no início. Então o Saul voltou passados nove meses do processo ter arrancado. Trouxe uma data de material com ele e teve de produzir e realinhar mais as coisas. Por isso, foi diferente na medida em que o meu irmão estava a escrever canções pela primeira vez, eu estava a escrever mais canções e já não estávamos sob a ditadura da heroína. Estávamos a viver no norte para tentar escapar a toda essa porcaria. Tentar recomeçar do zero, basicamente, porque se tornara tudo um pesadelo que nunca mais acabava. Por isso tivemos de ir e buscar a salvação no norte.

Falas do norte e no post de Facebook dos Fat White Family a anunciar Serfs Up! referes-te às terríveis condições climatéricas. Como foi compor e gravar num ambiente tão sombrio?

Bom, quando faço um post de Facebook, a configuração por defeito é só uma e é a hipérbole absoluta. É tudo só treta com alguns laivos de verdade. O tempo em Sheffield, sim, é péssimo mas cresci na Irlanda do Norte e na Escócia, onde é muito pior, por isso o clima não foi um grande problema. Mas a maior parte dos estúdios não têm janelas, por isso, quando se está no estúdio, pode-se estar imerso na atmosfera que não faz diferença alguma. Adoro a dose certa de culto do ego, é por isso que faço posts dessa maneira. Gosto de tagarelice verbosa e egocêntrica como comunicação de imprensa. Penso que é muito divertido.

Tem tudo a ver com a persona artística, como se exprime não só na música, mas também na comunicação de imprensa, nas redes sociais, em vídeo, certo? Percebe-se logo que grande parte do comunicado de imprensa que recebemos é pura sátira. Ainda assim, como disseste, há ali resquícios de verdade, por isso quanto de ti há ou não nessa persona?

É só tudo resultado de uma quantidade imensa de diferentes influências, seja literatura ou cinema ou outros artistas. Quando se começa, guiamo-nos no que fazemos por essas pessoas que vieram antes de nós, tentamos fazer as coisas à nossa maneira. Mas, quanto à espécie de alta arrogância desta persona aristocrática inglesa, adoro-a pura e simplesmente! É totalmente hilariante! Não sou de todo eu! Mas diverte-me bastante as pessoas acharem que penso realmente assim, quando se está numa banda rasca viciada em heroína e toda a gente fala disso como se fosse cultura elevada.

Suponho que parte disso venha da minha formação em artes. Costumava pintar, gosto de escrever – e julgo que voltarei eventualmente a essas coisas –, mas do que gosto no estar numa banda é poder pôr as mãos em toda a espécie de meios de expressão. É possível fazer cinema, fotografia, comunicação de imprensa, linguagem, escrita e há a música. Concentra-se toda esta microcultura em redor do sentido de humor, do que se sente acerca do mundo e do que se está a passar. Pode-se fazer o que se quiser dentro disso e as pessoas só podem criticar até certo ponto, porque em última instância a primeira regra em arte é que a arte não é a arte deste ou daquele. Há uma liberdade e poder tremendos nisso. Julgo que a liberdade e o poder estão sob ameaça neste momento, por isso parece-me importante esticar a coisa e fazer o que estamos a fazer, e a fazê-lo como queremos.

FAT WHITE FAMILY | “TASTES GOOD WITH THE MONEY”

A música, os vídeos e os concertos dos Fat White Family não só usam de violência como também colocam o teu corpo e a tua pessoa no centro dela. Porquê?

Parece-me que se vamos lidar com a degradação, explorar algumas ideias mais difíceis, adoptar a estética da direita e esquerda radicais e provocar as pessoas com claro intento, a coisa importante a fazer nessa situação é pôr-se sempre a si mesmo como a figura número um, principal do ridículo. Tem de se ser aquele que pende da cruz, basicamente. Não é fugir com o rabo à seringa, é licença artística, é assim que se manifesta porque somos sempre o alvo da piada. Não tem tanto a ver com expor a hipocrisia da cultura à nossa volta, mas expor acima de tudo a hipocrisia em nós e explorar os nossos próprios limites como seres humanos. Mas para conseguir fazer isso é preciso ser o bobo da corte. E julgo que as pessoas estão cada vez com mais medo de se converterem nesse bobo da corte, porque sentem que não podem dizer certas coisas que venham a ofender certos grupos, toda esta tendência para um moralismo politicamente correcto que predomina agora na cultura. Parece-me importante ser o tipo na linha da frente, o alvo da piada.

Em muita arte política, parece que o artista, no fundo, se considera moralmente impecável enquanto tudo está errado com o mundo, que deseja ver mudado segundo a sua imagem do que deveria ser. O que me agrada nos Fat White Family é quão mais complexo é o quadro.

Diria que isso se trata do solipsismo da esquerda burguesa, particularmente de uma espécie de atitude de classe-média branca urbana, e não foi realmente esse o mundo em que cresci. Na minha família são todos nortenhos da classe trabalhadora, o meu pai é um imigrante argelino, mas acabei por chegar à redoma. Quando tinha dezoito anos entrei na Slade School of Art, a escola de artes mais chique do país, por isso vivi em ambos os mundos. Acho que consigo ver a treta pelo que é, desmascara-la e continuar a explorar as realidades da natureza, que é brutal e violenta, sempre será e esse é o nosso trabalho como artistas. Penso que isso é o fundamental e tudo o que se intrometa com essa total liberdade criativa é incivilizado, rude. Não passa de um utopismo condescendente, uma moralidade de compromisso monolítica e genérica que exclui pessoas de contribuírem para a arte porque de onde vêm talvez não entendam a vida da mesma maneira.

É este abuso que é tão proeminente agora. Bom, abuso traz abuso e quando se nasceu do lado errado da sociedade é mais normal ter crescido com o abuso. Talvez seja por isso que o movimento MeToo não seja tão proeminente na cultura negra como tem sido na branca, porque o público está consciente deste facto. Estamos a lutar com isso na nossa própria cultura, onde traçar a fronteira nestas coisas, e é um debate difícil. Não sei o que está certo e não sei o que está errado, mas julgo que deveríamos poder falar sobre isso abertamente enquanto artistas sem medo de reprimendas ou humilhação pública online. Quer dizer, é completamente bárbaro. Ninguém é pró-assédio sexual, ninguém pensa que [esta discussão] seja uma coisa má, mas até que ponto não terá sido convertido numa arma, quais são as implicações disso, e não nos estaremos a reduzir ao tribalismo numa altura em que a verdadeira luta, pelo menos na minha opinião, é a luta de classes (tal como sempre tem sido)?

Sei que há um papel para a violência como meio de expressão, mas podem realmente a bondade e a justiça vir dela? Não acaba apenas em mais violência?

Na realidade não, porque estamos aqui a falar quase de sátira, que é obviamente muito útil visto proporcionar uma expressão mais potente e visceral da crise em questão, qualquer ela seja, por meio da forma e da estética. Há uma técnica nisso e torna a verdade mais palpável. Por isso, sim, na aparência é violento e horrível, mas se revela um retrato mais honesto da realidade e do que se está a passar, então é útil e pode ajudar as pessoas a compreenderem-se a si mesmas. Para mim, a arte ocupa o lugar que a religião talvez tenha para as pessoas, para mim é uma espécie de compromisso religioso que tenho com isso. Tanto quanto vejo, não julgo que haja outra substituição adequada. Penso que se não temos isso então temos a política em vez da religião, o que é sempre um desastre. Termina sempre em massacre, assassinato e censura, e todos os piores aspectos da humanidade. Penso que a arte e a expressão de si deveriam estar no topo da pirâmide.

FAT WHITE FAMILY | “FEET”

Mais uma vez, naquele vosso post de Facebook, dizias que neste álbum os Fat White Family “mais uma vez se resolveram a revelar a verdadeira face de Deus”. Só a tua hiperbólica pessoa a falar ou há algum sentido nisso?

Não há artista que, minimamente, não se iluda a si próprio julgando que é, de alguma maneira, importante e relevante, e signifique alguma coisa para outras pessoas. A maior parte tenta esconder o facto. Gosto de pensar em mim como alguém cujo narcisismo e cuja hipocrisia estão à vista de todos, por oposição às roupas novas do Imperador, que é o que a maior parte das pessoas traz vestido. Há alguma verdade nisso? Suponho que se fosse para descrever o que fazemos da forma mais hiperbólica possível, então, sim, há alguma verdade nisso. Mas é só do que se trata, de um exercício de hipérbole. Gosto de ver se consigo escrever a coisa mais ofensivamente pomposa de sempre. Mas há um núcleo de verdade nisso.

Pareces trabalhar de uma forma, acima de tudo, associativa, comunicando uma data de influências diversas, que vêm de todo o lado, não apenas nas tuas letras, mas também no som e nos vídeos dos Fat White Family. É verdade?

No seu lado negativo, a internet obrigou toda a gente a ter de responder diante de outros e levou toda a gente a ter medo de correr riscos e tudo o mais. Isso é tudo horrível e não sei como lidaremos com isso como cultura. Mas no seu lado positivo, se alguém tem um portátil e um par de auscultadores, então tem milhares de anos de cultura humana na ponta dos dedos, a qualquer momento. Mesmo estando todos falidos, a viver da segurança social num apartamento, ainda assim tínhamos acesso a este interminável, ilimitado… tudo, podíamos tirar de onde quiséssemos. Tem-se na cabeça uma ideia vaga do tipo de ambiência que se quer criar, da espécie de atmosfera que se deseja destilar e o que se quer dizer. Está lá, é impulsivo e vem de ti, mas pode-se revesti-lo de todas estas outras coisas e tem-se acesso a todas elas. Não é um movimento deliberado da nossa parte, é só a maneira como naturalmente criamos e não interessa se é a música, ou os vídeos, ou as palavras. É como uma colecção feita de história, política e tudo. O desejo é de que o conjunto de referências seja o mais abrangente possível, de modo a fazer passar o ponto em termos de forma e estética. Isto responde à questão?

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Sim, responde, muito obrigado. Como descreverias o que estás a tentar dizer com a tua arte?

Tudo o que estou a tentar fazer é salvar-me. Penso que é só o que qualquer artista está realmente a tentar fazer, não interessa o que tenha entre mãos. Não estou seguramente a tentar salvar a humanidade e qualquer arte que se proponha a fazer isso não passa de estupidez e trivialidade. É só o que estou a tentar fazer e é só o que alguma vez se pode fazer, oferecer alguma reparação pela sujidade na própria alma. Parte confissão e parte glorificação de tudo isso, de tudo o que se passa no interior. Quanto mais um artista está disposto a expor-se, tanto mais corajoso é.

É por isso que gosto tanto do Kanye West. Apesar de doido, ele é completamente hilariante. É isso que quero das minhas estrelas pop! Quero as minhas estrelas pop na Sala Oval a disparar como aeronaves Gucci, todos os que estiveram na Oprah. Quer dizer, isto é fantástico, isto é um entertainer! Se o que alguém procura nos seus artistas são as suas opiniões políticas então provavelmente não as deveria ter para começar, mas apenas fazer o seu trabalho e estar calado, porque não é esse o nosso papel. Tem a ver com redenção, com explorar o que se está realmente a passar dentro de mim e não é que se o faça muito conscientemente. Lê-se muito, ouve-se muito, está-se apenas a tentar criar a obra de arte mais afectiva que se consegue.

Esta não uma questão a que seja fácil responder, mas podes realmente salvar-te por ti mesmo? Tens em ti os meios para fazer isso?

É uma vida estranha de se levar, é muito isoladora e intensamente solitária. Isso é um pouco triste, mas vem com o ofício. Não sei se é possível, mas foi sempre a minha redenção no passado. Quando cresci na Irlanda do Norte, que imagino seja um dos lugares mais intolerantes da Europa, fui perseguido – uma data de abuso racista e coisas assim – e foi a arte que me tirou disso. Quando me virei para a música, pintura e literatura, percebi que “não, esta gente é toda idiota, sou superior, é nisto que acredito”, e ajudou-me a atravessar aquele período. E depois a mesma coisa aconteceu com a música. Não tinha nada, estava na segurança social, sentia-me marginalizado e desencorajado, e foi como mergulhar nesta outra coisa. Eventualmente levou-me a uma vida diferente onde consegui trabalhar com as pessoas mais incríveis, conhecer os meus ídolos, e viajar pelo mundo fora. Não sei onde irei aportar mas tenho a certeza que hei-de bater no fundo outra vez, e tenho a certeza que é a isso que irei recorrer outra vez para a minha salvação. Acho mesmo que a criatividade é a única autêntica terapia. Mas, dito isto, pode enlouquecer-te também, o que está mais do que documentado. É difícil de dizer, não sei, mas suponho que a resposta curta é “espero que sim”.

(The interview’s original text is on the following page)

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Maria Pacheco de Amorim

Literatura, cinema, música e teoria da arte. Todas estas coisas me interessam, algumas delas ensino. Sou bastante omnívora nos meus gostos, mas não tanto que alguma vez vejam "Justin Bieber" escrito num texto meu (para além deste).

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