Monstra Perfect Blue

MONSTRA ’19 | Perfect Blue, em análise

Como parte de uma retrospetiva sobre a obra de Satoshi Kon, a MONSTRA exibe um dos melhores filmes de terror psicológico alguma vez feitos, “Perfect Blue”.

Apesar de ter tido uma carreira tragicamente breve, Satoshi Kon é provavelmente um dos nomes mais importantes na História do Cinema de Animação japonês. De 1997 a 2010, o cineasta assinou quatro longas-metragens e uma série televisiva e, sem exceção, todos esses projetos são estrondosas obras-primas que tanto brilham pela sua densidade concetual como pelo tipo de formalismo vanguardista nelas presente. O filme que deu início a tudo isso é, em retrospetiva, uma perfeita síntese do universo artístico deste autor, encapsulando em si os principais temas de interesse de Satoshi Kon, assim como as técnicas cinematográficas que o realizador viria a levar a extremos bizantinos de complexidade.

“Perfect Blue” é uma espécie de antecessor animado de “Cisne Negro”. De facto, o próprio Darren Aronofsky creditou a obra-prima de Satoshi Kon como uma das suas principais inspirações e, para não ser processado por plágio, chegou a comprar os direitos do filme nipónico. Tal como nesse futuro thriller passado no mundo do ballet, esta é a história de uma artista dos palcos cuja identidade se estilhaça sob a pressão profissional, artística e social que acompanham uma reviravolta na sua carreira. Aqui, contudo, ao invés de Natalie Portman em saias de tule e sapatilhas de cetim, temos Kirigoe Mima, um ídolo pop que vai abandonar o mundo musical e seu girl group em nome de uma nova carreira como atriz.

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Identidade estilhaçada.

Face às escolhas de Mima, os fãs reagem com hostilidade para com seu ídolo, uma dinâmica bem familiar a quem quer que conheça algo sobre estrelato musical e cultura popular japonesa, especialmente na década de 90. Ela persevera, contudo, e começa a filmar um pequeno papel para um lúrido drama criminal da TV. Ao longo deste período de transição na sua vida, Mima começa a experienciar uma crise de identidade fragmentada que as pressões da vida pública enquanto celebridade somente exacerbam. Reflexos começam a mexer-se, o seu alter-ego pop parece ganhar vida própria e a paranoia vai consumindo a vida da jovem.

Uma carta armadilhada, a presença ameaçadora de um stalker e o aparecimento de um diário digital assustadoramente íntimo sobre Mima só vêm justificar sua paranoia e acabam por empurrar a atriz cantora numa espiral psicótica. O que é real e é falso, o que é atuação e o que é comportamento genuíno começam a perder suas diferenças, aglutinando-se numa tempestade de confusão opressiva que tanto consome a vida de Mima como a experiência audiovisual da audiência. Por outras palavras, “Perfect Blue” é terror psicológico feito em forma de cinema imersivo, tentando assim mergulhar o espectador na subjetividade febril da protagonista.

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De modo a facilitar tal relação entre o filme e quem o vê, o realizador usa as capacidades plásticas da animação para distorcer as regras clássicas do cinema e assim deturpar o modo como conseguimos ler a realidade da narrativa. De forma geral, “Perfect Blue” é um bom exemplo de animação enquanto exercício mimético da realidade. Veja-se, por exemplo, as proporções físicas das suas personagens humanas, seu movimento e detalhes minuciosos dos cenários. Contudo, aliado a esse realismo vem um esquema de montagem muito pouco ortodoxo que vai gradualmente corroendo a coerência espácio-temporal da ação. O real e o irreal deixam de representar um binário, transfigurando-se numa linha fluida e perigosamente inteligível.

Nada disso seria possível fora do contexto e capacidades técnicas do cinema de animação. Longe de tratar o seu meio artístico como subalterno à gramática do cinema tradicional, Satoshi Kon aproveita as especificidades da animação e faz delas as pedras basilares para uma linguagem artística que usa o real como ponto de partida para chegar a uma hiper-realidade que tanto transcende o mundo material como o onírico. Afinal, a animação é intrinsecamente artificial e a tentativa de chegar ao naturalismo desenhado que consumiu a vida de pessoas como Walt Disney não é mais que uma provação sisífia.

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Quando a realidade se torna irreal e é impossível saber o que é verdade e o que é fantasia.

Parte do génio de “Perfect Blue” é que a sua história se apoia principalmente numa interrogação desesperada sobre o que é real e o que é ilusão. Assim, a narrativa é contada por uma série de ferramentas que em si constituem uma antítese violenta do seu conteúdo. Enquanto espectadores somos orientados pelo enredo e seus temas, mas, ao mesmo tempo, tudo aquilo que vemos é como que um ataque a essa leitura. Tal como Mima, somos colocados na posição de vítimas enlouquecidas de um universo que se contradiz a si mesmo e parece determinado a obliterar qualquer conforto que tenhamos até que, pelo fim, só nos resta caminhar perdidos no escuro, cegos e surdos, sem amparo ou direção.

Mima é levada a este mesmo estado quando todos os eventos na sua vida a forçam a lidar com questões identitárias exclusivas a alguém que vive na esfera pública. A fracturação de realidade percecionada só ocorre como consequência da fratura pré-existente entre Mima, o indivíduo privado, e Mima, a persona célebre que não pertence à mulher que lhe dá cara e voz, mas sim às audiências devotas. Sendo assim, na tradição de grandes feitos de cinema como “Persona” de Bergman e “Performance” de Roeg, este pesadelo nipónico atreve-se a estilhaçar as máscaras sobrepostas que compõem a identidade humana e a mirar o vazio que tememos estar por detrás dessas mesmas máscaras.

Tais descrições sugerem um filme difícil e em ativo antagonismo do espectador e, parcialmente, “Perfect Blue” é isso mesmo. Por outro lado, trata-se também de um filme de animação mainstream que, acima de tudo, tenta proporcionar um espetáculo à sua audiência. Aqui, como o género é o terror psicológico, a máquina de entretenimento assume-se como uma geradora de desorientação absoluta. Nada disso contradiz o potencial prazeroso desta experiência fortemente cerebral. Muito pelo contrário, com o seu ritmo alucinante, linguagem visual enlouquecida e história perversa, este é um triunfo do mais alto calibre que deve ser visto e celebrado por todo o tipo de audiências. Por outras palavras, uma salva de aplausos para Satoshi Kano que já não está entre nós, mas será para sempre lembrado como um dos grandes mestres da sua Arte.

Perfect Blue, em análise
perfect blue critica Festival Monstra

Movie title: Pâfekuto burû

Date published: 21 de March de 2019

Director(s): Satoshi Kon

Actor(s): Junko Iwao, Rica Matsumoto, Shinpachi Tsuji, Masaaki Ôkura, Yôsuke Akimoto, Yoku Shioya, Hideyuki Hori, Emi Shinohara

Genre: Animação, Terror, Mistério, 1997, 81 min

  • Cláudio Alves - 95
95

CONCLUSÃO:

“Perfect Blue” é uma joia perfeita de terror psicológico, assim como uma das mais astutas utilizações das capacidades plásticas do cinema de animação. Tão extraordinário é este feito que é difícil acreditar que se trata da primeira longa-metragem do seu genial realizador. Uau!

O MELHOR: As transições desorientadoras.

O PIOR: Apesar de muito criticar a humilhante hipersexualização feminina em voga na cultura popular japonesa, o filme tende a perder-se um pouco nas fantasias eróticas suscitadas pelos momentos mais degradantes da protagonista. Uma cena de violação simulada é encarada como um momento de horror hediondo, mas algumas das suas imagens individuais parecem dispensar o discurso crítico em nome do prazer lascivo.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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