MONSTRA | Tokyo Godfathers

MONSTRA ’19 | Tokyo Godfathers, em análise

Tokyo Godfathers” é uma deliciosa farsa natalícia sobre três vagabundos a cuidar de um bebé durante um inverno branco na capital japonesa. Trata-se também de uma das longas-metragens que a MONSTRA exibe do realizador Satoshi Kon, que só viria a completar mais um filme antes da sua morte prematura.

A presença de muitas coincidências em histórias fictícias tende a ser vista como uma mácula à qualidade dessas narrativas. Quando um autor se deixa apoiar em demasia na coincidência enquanto mecanismo para fazer avançar o enredo, há quem veja nisso um facilitismo feio e inglório, uma manipulação demasiado visível do autor no universo da sua história. Pelo contrário, quando uma ficção se desenrola organicamente, com seus eventos a se encadearem de modo que pode ser percecionado como verosímil, existe uma tendência a celebrar e valorizar mais a história. Veja-se como, apesar de ser considerado um dos grandes nomes da literatura inglesa, Charles Dickens é ainda criticado pelas avalanches de coincidências que se apresentam nos seus livros.

Em “Tokyo Godfathers”, o cineasta japonês Satoshi Kon parece querer confrontar os limites desta mesma dinâmica. Baseando-se num filme de John Ford e no conto de Peter B. Kyne da qual essa obra foi adaptada, Kon concebeu uma narrativa onde o mecanismo da coincidência é posto em destaque e nunca é escondido por entre a lógica interna da história. Nesta aventura, o deus ex machina é, de facto, a manifestação de um poder superior à pequenez humana. Nas mãos de Kon, a coincidência é a mão de Deus a afetar o universo. É evidente que, numa história fictícia, a divindade criadora que tudo controla é o autor em si, não que Kon se esteja a caracterizar como ser todo poderoso. Quanto muito, ele é uma força de caridade humana a tentar forçar o advento de felicidade num cosmos saturado por sofrimento.

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Uma história natalícia sobre aqueles que a sociedade marginaliza.

Como o nome indica, “Tokyo Godfathers”, passa-se na capital japonesa, essa que é a maior metrópole do mundo. Não que isso seja óbvio nas primeiras imagens do filme, onde Kon jocosamente nos apresenta a uma representação simbólica de toda a história que se está prestes a desenrolar. A primeira imagem de todas é um bebé adorável e a seguir vemos crianças vestidas de reis magos. Estamos no Natal e esta é uma peça infantil sobre o nascimento de Cristo. A audiência é composta por sem-abrigos que se sujeitam a tais mediocridades teatrais, assim como a um sermão, em troca de alguma caridade cristã sob a forma de sopa quente para atenuar o flagelo do frio invernal sobre seus corpos.

É às margens da sociedade japonesa, onde a nossa pequena farsa dramática se passa. Seus protagonistas são pessoas facilmente vistas como parasitas por aqueles que têm o privilégio de um telhado sobre suas cabeças ou simplesmente se consideram moralmente superiores. Hana, uma mulher transgénero que em tempos trabalhou como uma drag queen, bem sabe o que é ser ostracizada pela sociedade mainstream. Quando a conhecemos ela está na fila para receber a tal caridade cristã, acompanhada por seu fiel amigo, Gin, um homem de meia-idade que perdeu tudo no jogo, mesmo a sua família. A parelha usa humor para se proteger do julgamento dos outros e chocar a burguesia preconceituosa, se bem que há sempre alguma verdade nas suas palavras. Hana, por exemplo, diverte-se com a reação meio perdida de uma voluntária quando se põe a falar da possibilidade de ela também se tornar numa mãe virgem como Maria, mas no seu âmago esta sem-abrigo realmente resguarda o desejo de ter filhos.

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O terceiro elemento do trio titular é também sua pessoa mais nova, Miyuki, uma adolescente que fugiu de casa após um acontecimento traumático que, no início do filme, é um mistério tanto para a audiência como para os seus companheiros. De modo meio bizarro, eles são uma subversão da convenção de uma família tradicional composta pelo patriarca, a matriarca e sua prole juvenil. Essa ideia de família somente se fortifica quando, enquanto vasculham o lixo na noite gélida de Natal, os três vagabundos encontram uma bebé deixada por entre caixas de cartão e capas de Dostoyevski deixadas ao abandono. Para Hana, trata-se de um milagre da época festiva, mas Gin e Miyuki têm suas dúvidas. Apesar das opiniões heterogéneas do grupo, eles lá vão cuidando da menina de fraldas ao invés de a levarem às autoridades.

O que se segue é uma insana cadeia de reviravoltas e coincidências que se estendem pelos dias entre o Natal e o Fim do Ano, ao longo dos quais o trio se vai precipitando numa aventura cada vez mais rebuscada em busca dos pais da menina. Hana, que sofreu na pele as injustiças e negligências emocionais do sistema social japonês, não quer que a bebé, a quem ela chama Kiyoko, passe pelo mesmo. Pelo caminho, eles deparam-se com chefes da yakuza bem azarentos, vingadores latino-americanos, drag queens caridosas, enfermeiras misteriosas, uma criminosa a ponderar o suicídio e um marido negligente. Também acontecem perseguições automóveis, idas ao hospital e até a passagem por um casamento requintado com comida e bebida à discrição. Tudo isso, enquanto Tóquio se veste de branco, como um postal que é tão belo como inóspito a quem tem de dormir nas ruas cobertas de neve.

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A coincidência é um milagre que ilumina a alma num cosmos fictício.

De certo modo, “Tokyo Godfathers” é o mais acessível filme de Staoshi Kon. Não é por coincidência que se trata também do seu mais formalmente tradicional e aquele que mais facilmente se consegue imaginar como um projeto gravado com atores de carne e osso. O que se perderia aí, contudo, seria a economia de gesto e informação com que o realizador vai visualizando sua bizantina teia de coincidências e acasos tragicómicos. Apesar do seu design realista, as personagens do filme têm a plasticidade expressiva de cartoons e Kon dá bom uso às possibilidades dramáticas disso mesmo, carregando cada fotograma com a máxima informação possível. Isto permite que a história voe a um ritmo espantoso, acabando por se resolver em 90 minutos sem um único momento morto pelo meio.

Esta velocidade realça bem a montanha-russa de variações tonais, entre farsa, melodrama, conto natalício e realismo social, pela qual o filme se precipita. Num filme não animado, tal podia resultar numa experiência incoerente, mas o artifício inerente ao meio do cinema de animação como que conjura uma hiper-realidade onde tudo isto parece fazer perfeito sentido. Só o tsunami de coincidências salta à vista nesta construção narrativa sólida e estranhamente modesta. Contudo, graças ao engenho de Kon, quando a história de “Tokyo Godfathers” se torna mais rebuscada é quando também se torna mais transcendente na sua beleza e inspiração espiritual. Para pessoas como Hana, que viveram uma vida de provações sôfregas, qualquer gesto de generosidade cósmica, qualquer surpresa benigna, é como a luz do paraíso a brilhar sobre uma alma faminta por amor e compreensão. Com seu poder autoral, Kon está sempre a tentar brilhar esta luz sobre suas personagens.

Tokyo Godfathers, em análise
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Movie title: Tôkyô goddofâzâzu

Date published: 26 de March de 2019

Director(s): Satoshi Kon

Actor(s): Tōru Emori , Yoshiaki Umegaki , Aya Okamoto, Shōzō Iizuka, Seizō Katō, Hiroya Ishimura, Ryūji Saikachi , Yūsaku Yara , Kyōko Terase , Mamiko Noto, Satomi Kōrogi , Akio Ōtsuka , Rikiya Koyama, Inuko Inuyama, Kanako Yahara , Rie Shibata, Kōichi Yamadera

Genre: Animação, Aventura, Comédia, 2003, 93 min

  • Cláudio Alves - 85
  • Filipa Machado - 85
85

CONCLUSÃO:

“Tokyo Godfathers” é uma amistosa farsa natalícia que tem coragem de olhar para as partes mais esquecidas da sociedade japonesa e encarar suas figuras marginalizadas com empatia e respeito. É também uma peculiar exploração do poder para a coincidência, no contexto narrativo, se manifestar como um gesto de autoridade divina.

O MELHOR: O sentimentalismo desavergonhado de toda a experiência.

O PIOR: Em comparação com os três outros filmes de Satoshi Kon, esta é uma obra menor e mais convencional, especialmente no que diz respeito à sua montagem.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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