"Akira" | © Toho Company

MONSTRA ’23 | Akira, em análise

Com o cinema japonês em destaque na MONSTRA deste ano, “Akira” de Katsuhiro Ôtomo foi uma das obras mais aclamadas em exibição. O clássico de 1988 é um marco na História do anime.

No panorama da animação nipónica, há poucos filmes mais influentes que “Akira,” feito suprassumo do cineasta Kastsuhiro Ôtomo. Desde o mangaka Masashi Kishimoto até ao cineasta norte-americano Jordan Peele, até mesmo aos Duffer Brothers de “Stranger Things”, muitos são os artistas que têm apontado para “Akira” como fonte de inspiração, solidificando o seu estatuto enquanto um monumento mais do que um mero filme. Parte deste legado devém do facto de que foi este um dos primeiros títulos capazes de transcender a popularidade com o público japonês, alcançando um nível de sucesso internacional que veio abrir portas e expandir horizontes.

Também veio sublinhar uma verdade absoluta que o cinema ocidental tende a ignorar – a animação não há que ser exclusivamente feita para entretenimento infantil. Trata-se de um meio, não um género, capaz de abordar várias temáticas, de almejar complexidades profundas e dedicar-se a um público adulto mais do que à miudagem. Em suma, é impossível imaginar o estado atual do anime enquanto sensação mundial sem considerar o impacto de “Akira.” Não que o valor da obra dependa somente desses fatores. Por outras palavras, contextos históricos são importantes, mas a principal razão para a longevidade deste anime é a sua qualidade, pura e dura.

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© Toho Company

Tudo começa com um gesto apocalíptico, uma visão de Tóquio consumida por uma enorme luz. A abóbada de brancura cega, ecoando com o trauma da bomba atómica à medida que devora a capital japonesa como uma besta cósmica. Depois desse plano vem o clarão e a música de Shoji Yamashiro, um som que traz aquilo que, em 1988, era o futuro. Acontece que aquele prólogo documentava a destruição de Tóquio nos anos 80, quando uma explosão misteriosa deu aso a toda uma guerra nuclear que veio assolar o globo. Qual fénix renascendo das cinzas, Neo Tóquio emergiu dos escombros. A ação principal passa-se em 2019, quando a metrópole se prepara para acolher os Jogos Olímpicos.

Construção leva-se a cabo em vários pontos do plano urbano, enquanto a câmara divina nos detalha uma nova ordem onde hierarquias sociais e caos absoluto definem a vida humana. Protestos contra um governo autocrático irrompem pelas ruas, ao mesmo tempo que o terrorismo dá as mãos a fanáticos religiosos cuja fé deriva daquela explosão incógnita. A juventude está perdida, assombrando as estradas em jeito de gangues que travam guerra aberta, recordando a histeria anti-adolescente que se faz sentir nos media desde os anos 50. Neste panorama, deparamo-nos com um desses grupos de delinquentes, os Capsules, liderados por Shotaro Kaneda.

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Vestido de vermelho, a condizer com a sua mota, ele é como James Dean renascido num contexto cyber punk. Não que “Akira” seja “Fúria de Viver” com elementos de ficção-científica. De facto, apesar da centralidade de Kaneda, ele é o nosso ponto de entrada na história, mas não o seu verdadeiro protagonista. Esse papel cabe a Tetsuo, seu melhor amigo desde a infância, e um rapaz com um forte complexo de inferioridade. Certa noite, durante uma perseguição na transversal, uma misteriosa figura aparece no meio da estrada e colide com o jovem, provocando o impacto com um campo de forças e o despertar de algo estranho em Tetsuo.

A partir desse momento, a narrativa desenrola-se através de uma série de linhas paralelas, ocasionalmente cruzadas até à convergência total durante o clímax. É difícil explicar o enredo de “Akira,” tão bizantina é a sua estrutura, mas fica a ideia de que Otomo faz como Victor Hugo, usando as várias personagens para pintar um retrato coletivo da sociedade em rutura. Também se sente o conceito basilar de que o poder corrompe e que, nas mãos erradas, mesmo o maior dos milagres se pode converter em força destrutiva. À procura de um messias, podemos descobrir o fim do mundo.

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© Toho Company

No manga de “Akira,” há mais exploração destes temas, até a sua ocasional contradição, mas também lá se regista um nível de complicação estrutural que o guião do filme muito faz para resolver. Não que, em plena forma de cinema, a história seja particularmente fácil de discernir. Estamos sempre com a impressão que caímos na ação in media res, sem explicações a mais de modo a que é difícil evitar confusão. Contudo, esse efeito torna-se em qualidade, especialmente à medida que nos deparamos com uma realidade onde noções além da compreensão humana expandem a carne e dilaceram a mente.

Há tanto que se pode explorar no que se refere a “Akira,” englobando questões de design de personagem até psicologia estilhaçada. Poderíamos aprofundar a contradição de figuras entre a caricatura e o naturalismo, tão precisamente concebidas que o mero levantar do cabelo define distintos níveis de moralidade. Quiçá se falaria de como a cenografia maximalista pega no futuro maltratado de “Blade Runner” e o reconfigura para uma sensibilidade decididamente japonesa. Poderíamos falar da dramaturgia da cor, do modo como a ameaça abstrata se manifesta em tumultos concretos, como fins são inícios e a aniquilação pode ser o ventre de onde nasce um novo cosmos.

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Dito isso, para concluir esta análise, abandonamos o intelectualismo desses discursos para nos focarmos em algo visual, até técnico. Uma das razões pela qual “Akira” tanto perdura na imaginação coletiva dos amantes de anime é justamente a sua animação. Há uma enorme fluidez que desafia as ideias comuns do cartoon, em parte porque os cineastas empregam o dobro dos desenhos usualmente projetados por segundo. Isto não se aplica a todos os setores do filme, sendo principalmente marcado em passagens de ação ou nos ajustes espaciais quando a câmara se move. O resultado é uma imagem que nos envolve, uma experiência imersiva capaz de fazer até do espetador mais cético um fã de anime. Bendito seja “Akira,” obra-prima do cinema animado, da ficção-científica, do body horror e tanto mais.

Sobre o Autor

Akira, em análise
monstra akira critica

Movie title: Akira

Date published: 28 de March de 2023

Director(s): Katsuhiro Ôtomo

Actor(s): Mitsuo Iwata, Nozomu Sasaki, Mami Koyama, Tesshô Genda, Hiroshi Ôtake, Kôichi Kitamura, Michihiro Ikemizu, Yuriko Fuchizaki, Takeshi Kusao

Genre: Animação, Drama, Ação, Ficção-Científica, 1988, 124 min

  • Cláudio Alves - 95
95

CONCLUSÃO:

Poucos são os trabalhos de anime mais influentes que “Akira,” estando o seu lugar nos livros de história há muito consagrado. No entanto, é sempre um privilégio revisitar o triunfo de ficção-científica em jeito apocalíptico, especialmente num contexto como a MONSTRA. Para celebrar o cinema japonês, nada melhor que apreciar este sonho a resvalar num pesadelo.

O MELHOR: A animação híper-fluida, com detalhe impressionante e uma estética cyber punk com um pé no maximalismo e outro no terror.

O PIOR: Apesar da imersividade audiovisual, o guião de “Akira” pode ser um tanto ou quanto alienante na sua recusa da explicação imediata ou do esclarecimento pronto.

CA

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