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MONSTRA ’21 | Homenagem ao Estúdio Camera-Etc

No sábado, dia 24 de julho, a MONSTRA ’21 centrou as suas atenções no país convidado da 20ª edição do Festival de Animação de Lisboa – A Bélgica – com a programação “Homenagem ao Estúdio Camera – Etc”. Percorremos 10 entradas filmográficas da história desta casa fundada em 1979. 

Numa sessão apresentada na Sala Manoel de Oliveira, o diretor artístico da MONSTRA, Fernando Galrito, introduziu Bastien Martin, o coordenador deste Estúdio que tem vindo a colaborar com a MONSTRA ao longo dos anos e que agora se vê homenageado na 20ª edição do Festival de Animação de Lisboa.

Martin começou por apresentar parte da história do Camera-Etc, incluindo os seus primórdios, bem como alguns dos seus projetos atualmente mais preponderantes. Apresentou nomeadamente a iniciativa “Micro Film”, composta por curtas de 2 minutos (algumas delas aqui apresentadas).

Em paralelo, o estúdio investe também na criação de primeiros filmes pós-graduação, através do projeto “Start” e em arte experimental e não narrativa. Nesta sessão são também introduzidas algumas curtas produzidas a custo zero para os intervenientes, num esforço de envolvimento junto de diversas comunidades.

Tal faz com que Camera-Etc não tenha um estilo de animação evidente, como é comum com muitas empresas nesta linha de atividade. Sem uma imagética ou temáticas unificadoras, Camera-etc é uma edificação verdadeiramente dinâmica, colaborativa e original.

Vimos e analisámos os 10 filmes exibidos. Para lá destes edifica-se a história de uma instituição que soma já mais de 4 décadas de existência: 

ORGESTICULANISMUS ( BÉLGICA, 2008, 9′) 

MONSTRA '21 Camera-ETC
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De: Mathieu Labaye 

Quando nos movemos, assumimos o controle da nossa própria vida. Quando és livre para ir e vir, para ter gestos de … amor, ternura, raiva, não importa. Portanto, quando estás privado da capacidade de te moveres, como eu, como muitos outros … para sobreviver, precisamos reinventar o movimento.  – Benoît Labaye

A sessão da  MONSTRA ’21 dedicada ao Estúdio Camera-etc arrancou com a exibição da sua obra de maior relevo – ou pelo menos o seu trabalho mais reconhecido.

O pequeno filme começa no registo de imagem real e mostra-nos o nosso sujeito fílmico através de fotografias. Da infância até à idade adulta, passando pelo desenvolvimento de uma complicação médica que levou a uma forte incapacidade motora. O nosso ponto de partida: como comunicar aos outros, sem o benefício da experiência partilhada, o que é estar privado do movimento?

É uma tarefa monumental, aquela que o nosso narrador propõe aquando da abertura da curta. Não obstante, a missão é cumprida com rigor geométrico. Através de uma representação gráfica e orientada por princípios quase matemáticos, o espectador é capaz de sentir o que é o total condicionamento do corpo. Contudo, “Orgesticulanismus” está longe de ser um filme macambúzio. Antes, celebra o movimento nas suas várias vertentes e encontra na animação a mais perfeita metáfora visual para as sensibilidades que exprime.

A curta pode ser vista no Vimeo Oficial do autor Mathieu Labaye.

Classificação: 85/100 




A LATA DE SARDINHAS (BÉLGICA, 2011, 9′) 

La boîte de sardines Monstra 2021
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De: Louise-Marie Colon

Eva é uma sereiazinha muito pequenina. Um dia  apaixona-se por Emile, um pescador solitário, e salta para a sua rede de pesca. Emile acaba por encontrar Eva numa lata de sardinha …

“A Lata de Sardinhas” é um filme audaz, tido como uma adaptação muito livre do conto de “A Pequena Sereia”. No início, apresenta-nos com acentuada ironia visual o conceito da sereia tentadora, pecaminosa, homicida de pescadores honestos. A mitologia das sereias é muito rica e é terreno fértil para ficção fantasiosa, seja no reino da imagem real ou da animação.

Todavia, o arquétipo da sereia, por muito denso que possa ser, acaba por cair, de forma frequente, em histórias, experiências e imagens já vistas. Louise-Marie Colon está de parabéns pois, através desta que é uma perspetiva nitidamente feminina, consegue subverter as expetativas de quem vê e expandir a figura da sereia. Aqui, a nossa pequena heroína é uma idealista, uma apaixonada e, no seu âmago, apenas mais uma deslumbrante criatura entre a imensidão dos mares…

Rapidamente este se torna num inesperado tratado acerca de empatia e expetativas goradas. E mais não diremos!

O filme pode ser visto no canal de Vimeo da Camera-etc.

Classificação: 90/100 




PÊLOS (BÉLGICA, 2013, 9′) 

MONSTRA '21 Camera-ETC
“Pêlos” |©Camera-Etc

De: Delphine Hermans

Um retrato engraçado de adoradores de pêlos. Seduções, desilusões, fantasias…

Uma curta-metragem humorística que se debruça sobre os fetichistas de pêlos. Vence em parte pelo seu ritmo desenfreado, pela sua destituição de pudores e também pela sua extasiante banda-sonora criada por Mathieu Labaye, precisamente o realizador do filme “Orgesticulanismus”.

Visualmente, “Hair”, ou no original “Poils”, não é a mais deslumbrante das curtas-metragens apresentadas nesta sessão da MONSTRA ’21. Os seus traços, evocativos de banda desenhada, são coloridos maioritariamente com um vermelho neon forte, evocação do desejo e da sensualidade.

Apesar de concordante e apropriada à temática, esta imagética é algo agressiva e poderá não se coadunar com todas as sensibilidades artísticas. Não obstante, é impensável acabar o visionamento sem soltar pelo menos uma gargalhada audível.

Para ver na plataforma Vimeo.

Classificação: 70/100 




AS AVENTURAS DE YOYO ( BÉLGICA, 2013, 4′) 

MONSTRA '21 País Convidado Bélgica

De: Louise-Marie Colon, Delphine Hermans

Pierre solta Yoyo, o papagaio da avó. Mas o pássaro tem de aprender a voar antes de se juntar aos outros papagaios da Amazónia ..

Louise-Marie Colon (“A Lata de Sardinhas”) e Delphine Hermans (“Pêlo) juntam-se para ajudar à criação deste “Les aventures de Yoyo”. A obra situa-se no universo mais afim da MONSTRINHA e a razão para tal é bastante clara. Na realidade, Colo e Hermans foram as coordenadoras do projeto. A sua realização, essa, ficou a cargo de 13 crianças. 

O grupo de jovens tratou de tudo, desde a animação, às vozes , e até se encarregou da criação do cenário (tiveram alguma ajudinha no departamento da música e montagem). Este tipo de atelier criativo alicerça os princípios educativos do estúdio Camera-Etc, dos quais esta casa bem se orgulha e com motivos para tal.

Sim, “As Aventuras de YOYO” é um filme muito simples. Contudo, ainda assim, é extravagante, fantasioso, cómico, e cumpre o propósito de transmitir uma lição acerca dos habitats naturais dos animais domesticados. Pode não ser uma obra de arte exímia, mas Yoyo tem que se lhe diga.

Para não variar, encontra-se disponível no canal oficial de Vimeo do estúdio Camera-Etc (disponível na versão original francesa e legendado em inglês).

Classificação: 70/100 




BUTOYI (BÉLGICA, 2013, 10′) 

20ª edição da MONSTRA
©Camera-Etc/MONSTRA ’21

De: Louise-Marie Colon, Simon Medard

Bukuru e Butoyi são gémeos. Butoyi é uma aluna brilhante. No entanto, enquanto os seus irmãos vão para a escola, ela tem de ajudar a mãe nas tarefas diárias …

Colon e Medard (“Não Posso Esperar”) coordenam mais um projeto do Estúdio Camera-Etc em interação com uma comunidade. “Butoyi” integra a compilação Camera-etc / War Child Holland Animations. “War Child” é um projeto holandês que trabalha em prol de melhorar a vida de crianças e jovens que estejam a crescer no seio de violência e conflitos armados.

“Butoyi” (aqui disponível na versão em inglês), curta com uma belíssima animação, selecionada para dezenas de festivais, contou com a realização, animação, argumento e vozes de 12 jovens mulheres do Burundi. A sua temática central é a importância da educação das mulheres e a luta contra a sua estagnação doméstica.

Esta seria uma simples e bela narrativa, nobre mesmo sem o envolvimento direto por parte desta comunidade africana. Ao equacionarmos quem aqui tem direito a dar uso à sua voz, a forte “mensagem” do filme torna-se quase emocionante e parece querer exigir que mais projetos como este sejam realizados e difundidos junto de um público amplo e internacional.

Se “Butoyi” conseguir ter impacto num único núcleo familiar que veja a curta-metragem, então já terá valido a pena.

Classificação: 80/100




NÃO POSSO ESPERAR (BÉLGICA, 2016, 3′) 

Cocoon I can't wait videoclip
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De: Simon Medard

 Livremente inspirado nas obras de Esther Pearl Watson, este videoclipe dá vida aos pequenos personagens que habitam os seus quadros.

“Não Posso Esperar” é o videoclipe oficial do contagiante hino de transição de estações “I Can’t Wait”, lançado pelo grupo de pop/folk francês “Cocoon” em 2016.

Esta curta-metragem, aqui disponível no canal oficial de Youtube da banda, pode parecer bastante elementar mas prima pela excelência do detalhe. Apesar das suas figuras animadas se caracterizarem por uma significativa e quase gritante simplicidade, a arte de fundos deste videoclipe é rica, detalhada, bela e lírica.

Ao fim de contas, esta não é apenas a ilustração perfeita para uma música bem conseguida e capaz de injetar felicidade na mente de quem a ouve. Não, a obra de Simon Medard está também aqui, simultaneamente e de forma assumida, a homenagear com encanto e nítida proximidade os quadros sonhadores e coloridos da artista texana Esther Pearl Watson, conhecida pelos seus cenários extraordinários e convidativos.

Classificação: 88/100




O CAMINHANTE (BÉLGICA, 2017, 11′) 

MONSTRA '21 Camera-Etc Estúdio
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De: Frédéric Hainaut 

O Caminhante trabalha num aviário. Revoltado com o seu trabalho horrível, desiste e junta-se aos Indignados, diluindo a sua fúria na deles.

Privilegiando a discrição e contenção, Hainaut consegue transmitir a mágoa do seu protagonista sem nunca precisar de recorrer ao choque ou horror. É uma linha difícil de navegar, em particular ao abordarmos uma temática tão devastadora quanto a que lança o mote para este “O Caminhante”.

“Le Marcheur”, no original, funciona quase como uma pintura abstrata animada. A sua beleza provém, em grande parte, deste seu carácter elusivo e dismórfico. Todos nos podemos rever na raiva e revolta do caminhante, ela é contagiante, desarma, desconstrói e clama por interpretação. Como maior trunfo, resiste a uma categorização forçada e parece querer refletir em si  (com sucesso) diversos males societários.

Classificação: 82/100




JACOTOLOCOTOC (BÉLGICA, 2018, 12′) 

jacotolocotoc
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De: Thomas Secaz

Jacot tem um grande problema: ele está sempre a peidar-se e a fazer cocó! Ele tenta esconder os seus defeitos irritantes para conquistar o coração da bela Requine ..

“Jacotolocotoc” baseia-se no conto da autoria de Mimi Barthélémy e é assinado pelo belga Thomas Secaz. Uma obra verdadeiramente apropriada para todas as faixas etárias, o filme é bastante interessante do ponto de vista estético devido ao seu trabalho com marionetas e com construção de cenários. Apesar de se tratar de uma obra digital, “Jacotolocotoc” emprega com atenção técnicas de animação mais clássicas que infelizmente já não presenciamos com a mesma recorrência.

Não obstante, apesar de divertido e bem finalizado, este filme sofre pela sua apatetada obsessão por humor fecal. Bem espremido (trocadilho intencional), é essa a temática dominante. Ao fim de contas, será que precisamos de alimentar ainda mais a paixão dos mais jovens por “piadas de cocó” e tudo o que as circunda?

Classificação: 60/100




ESPELHO (BÉLGICA, 2020, 3′) 

MONSTRA 2021 bélgica espelho
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De: Laura Pop 

O que acontece quando olhamos com atenção para aquela voz na nossa cabeça que nunca para de discordar?

Obra da romena Laura Pop, realizada ao abrigo do programa “Microfilm”.

Esta é uma curta metragem centrada no conceito da dualidade, do outro, do reflexo, matérias da maior fertilidade quando mencionados  no âmbito de projetos fílmicos.

De acordo com o site oficial desta casa de produção, Laura bebe inspiração de temáticas como os sonhos, a psicologia, o teatro e a literatura com o intuito de capturar a complexidade no seio das coisas mais simples, bem como as múltiplas perspetivas que nos rodeiam. Sem dúvida que “Miroir”, no original, o décimo filme de Laura Pop, remete também ele para estas pretensões e consegue atingir um passo adicional rumo à sua compreensão.

Classificação: 75/100




POEIRA (BÉLGICA, 2020, 6′) 

camera-etc bélgica
©Camera-etc/MONSTRA ’21

De: Alessia Puli

Ao cair da noite, o sonho e o pesadelo disputam o sono de uma jovem mulher.

Mais uma obra realizada no âmbito do projeto MICROFILM. Numa interessantíssima e inesperada palete roxa, acompanhamos os sonhos de uma menina e as criaturas microscópicas que disputam o seu protagonismo.

Alessia Puli transporta-nos para um universo fantasioso, convidativo, marcado por um desenho clássico repleto de elegância e simplicidade. Um conto de cabeceira filmado, assim se poderia caracterizar este doce e breve “Poeira”. Em toda a sua afabilidade, falta-lhe ainda assim o carácter marcante e memorável de outras obras exibidas nesta sessão rica e diversificada da MONSTRA ’21.

Classificação: 75/100

 

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