A Idade da Pedra

MONSTRA ’18 | A Idade da Pedra, em análise

A Idade da Pedra” é o mais recente triunfo cómico dos estúdios Aardman, que também trouxeram a glória de Wallace e Gromit e da Ovelha Choné ao grande e pequeno ecrã. Antes de passar nos cinemas nacionais, o filme teve a sua antestreia como parte da 18ª edição da Monstra, o festival de cinema de animação de Lisboa.

a idade da pedra

Nos tempos que correm, animação stop motion é uma raridade cada vez mais difícil de encontrar nas grandes salas de cinema. Apesar deste infeliz fado, duas companhias, dos dois lados do Atlântico, mantêm este estilo e técnica de cinema na esfera do mainstream, mesmo que o façam através de abordagens, métodos e estilos incomensuravelmente distintos. Nos EUA, a Laika continua a afirmar-se como o bastião máximo do stop motion enquanto exemplo de excelência artística e virtuosismo cinematográfico. Os seus filmes são crescentemente ambiciosos e exibem ostentosos triunfos de técnica somente superados pela sofisticada beleza das suas histórias emocionais e complexas caracterizações.

No contingente europeu, contudo, a Aardman Animation rejeita tais mostras de sensacional virtuosismo, quer seja por esse estilo ser incompatível com os projetos dos estúdios, quer seja pela sua comparativa falta de fundos. Se filmes da Laika como “Kubo e as Duas Cordas” ou “ParaNorman” são épicos, tanto no sentido visual como narrativo, os filmes da Aardman são diversões ligeiras sem pretensões de grandeza. Há que entender que essa pequenez não é um defeito, mas sim uma parte essencial do estúdio que nos trouxe as deleitosas aventuras de Wallace e Gromit assim como da Ovelha Choné. Modéstia, diversão e simplicidade são as palavras de ordem da Aardman e poucas obras saídas do estúdio demonstram tão bem esses princípios como o seu mais recente projeto “A Idade da Pedra”.

a idade da pedra

Não há nada que enganar. A aventura pré-histórica assinada pelo realizador Nick Park é um filme profunda e desavergonhadamente pateta que nunca almeja ser mais que uma sobremesa fílmica sem grande conteúdo nutritivo, mas capaz de dar muito prazer sob a forma de umas valentes gargalhadas. Trata-se da história de como, em tempos imemoriais, os homens das cavernas inventaram o desporto contemporaneamente conhecido como futebol, sendo que essa mesma atividade se tornou numa espécie de pedra basilar para a construção de toda a civilização humana. A civilização humana teve início algures em Manchester, aparentemente.

Mais especificamente, a civilização humana teve origem quando, à la “2001: Odisseia no Espaço” um artefacto rochoso caiu na Terra e inspirou os hominídeos que testemunharam a sua maravilha. Ao invés de um paralelepípedo negro, no entanto, “A idade da Pedra” propõe que este objeto foi um meteoro esculpido pela atmosfera terráquea na forma perfeita de uma bola de futebol. Muitas eras depois desse evento, a cratera causada pela chegada do meteoro, que também foi o local onde se travou o primeiro jogo futebolístico da História Humana, contém em si uma frondosa floresta. Lá fora, o mundo é rocha e fel, inóspito e povoado por animais perigosos. Na cratera, contudo, os descendentes dos primeiros futebolistas vivem harmoniosamente, caçando coelhos e ignorando o exterior e o seu legado civilizacional.

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Isto é, até que a Idade do Bronze entra de rompante nas suas vidas sob a forma de invasores vagamente gálicos que pretendem desbastar a floresta em busca dos minérios no seu subsolo. O herói desta desventura é Dug, um dos descendentes diretos dos primeiros futebolistas, cuja sede por aventura há muito fez as suas ambições cresceram para além da sua pacata vida a caçar coelhos trapaceiros. É ele que descobre o mundo dos homens do Bronze e a sua cultura centrada singularmente no culto do futebol (ou seja, não muito diferente do Portugal moderno). Inspirado perlo que vê e pelo legado recentemente descoberto dos seus antepassados, Dug desafia a equipa profissional dos invasores. Se a equipa dos homens das cavernas ganhar, eles podem voltar à cratera. Se perderem, tornar-se-ão mineiros para os seus exploradores tecnologicamente superiores.

A partir daí, “A Idade da Pedra” desenrola-se consoante os clichés mais ossificados do filme desportivo, onde uma equipa pouco preparada, mas unida, luta para triunfar contra os campeões arrogantes. Nick Park acrescenta a este formato muito humor óbvio, montanhas de trocadilhos ridículos, piadas visuais que recordam as parvoíces deliciosas do mundo dos Flinstones e, é claro, patos gigantes comedores de homens. É uma receita fácil, pouco desafiadora ou complexa, mas não por isso menos prazerosa. O melhor de tudo é que a atitude de modéstia generalizada, acima apontada como o lema central da Aardman Animations, ajuda a que a patetice inerente do filme se desenrole com insuperável harmonia e eficiência cómica e estética.

a idade da pedra

Este último aspeto, a estética, é de particular interesse quando nos debatemos sobre os méritos das obras produzidas pelos estúdios de Nick Park e “A Idade da Pedra”, em particular. Mais do que um épico tecnológico ao estilo da Laika, esta comédia futebolística parece uma brincadeira de uma criança imaginativa e com muito jeito para moldar plasticina. Em certas partes do filme, como quando um pombo falante aperta o nariz do vilão principal, Park e a sua equipa salientam a rudimentaridade do seu feito, tirando prazer da infantilidade do seu design e da modéstia brincalhona da sua execução. Quando efeitos digitais são necessários, os técnicos da Aardman até se dão ao trabalho de incluir impressões digitais falseadas, criando imperfeições humanas onde elas não existem. Isto porque imperfeição é parte do charme destes filmes, autênticos píncaros de despretensiosismo animado, perfeitos para deixar um sorriso rasgado na face até do mais carrancudo dos espectadores.

 

A Idade da Pedra, em análise
A Idade da Pedra

Movie title: Early Man

Date published: 2018-03-13

Director(s): Nick Park

Actor(s): Eddie Redmayne, Tom Hiddleston, Maisie Williams, Timothy Spall, Richard Ayoade, Miriam Margolyes, Rob Brydon, Johnny Vegas

Genre: Comédia, Desporto, Animação, 2018, 89 min

  • Cláudio Alves - 80
  • Filipa Machado - 70
75

CONCLUSÃO

“A Idade da Pedra” é uma maravilhosa comédia desportiva passada em tempos pré-históricos, em que a simplicidade técnica de Nick Park se une perfeitamente a um tipo de humor despretensioso e deliberadamente pateta. O design do mundo ancestral e o design de algumas das criaturas mais insólitas, como um pato gigante ou um porco arraçado de cão, são algumas das maiores mais-valias deste deleitoso espetáculo animado.

O MELHOR:
O piscar de olho a um dos grandes mestres da animação stop motion durante a abertura do filme, quando dois dinossauros, chamados Ray e Harry lutam em frente a um vulcão fumegante. Ray Harryhausen certamente ficaria orgulhoso com tal homenagem extremosa.

O PIOR:
Para quem já esteja saturado com o constante bombardeamento de futebol no dia-a-dia português, o humor deste filme pode representar a cataclísmica e proverbial gota de água que faz transbordar o balde.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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