Neste Canto do Mundo

MONSTRA ’18 | Neste Canto do Mundo, em análise

Exibido numa sessão especial da MONSTRA, “Neste Canto do Mundo” é um assombroso filme do realizador Sunao Katabuchi que retrata a vida de uma jovem japonesa durante os anos da Segunda Guerra Mundial.

Neste Canto do Mundo

Dentro e fora do cinema, realidades difíceis como a guerra tendem a sofrer o perigo da abstração crónica, tornando-se em conceitos distantes sobre os quais é fácil falar sem se ponderar a complexidade e dor latentes à sua natureza. No grande ecrã, muitos são os cineastas que contribuem para tal abstração, tornando a guerra num elemento de entretenimento dramático, insuflando os corações do espectador com inspiração jingoísta e ideias simplistas de heroísmo bélico. Outros ainda preferem ofuscar a violência e malignidade do conceito, utilizando-o somente como um fator mecânico de um enredo romântico ou mesmo como um modo de sublinhar o valor martirizado de uma personagem de modo fácil e automático. Filmes sobre a segunda Guerra Mundial, em particular, são quase um subgénero por si só, sendo também alguns dos filmes de guerra mais afetados pelo veneno da fórmula e apatia cinematográfica.

É claro que, ao mesmo tempo, existem inúmeros cineastas que se debruçam sobre este problema. Tratam-se de criadores de filmes que tentam encontrar uma ideia insustentável de realismo visceral, sem cair em sensacionalismo chocante ou na polidez embalsamada dos dramas de prestígio histórico. Nem sempre isto se manifesta em obras de naturalismo feroz no campo de batalha como é o caso, por exemplo, de “O Sargento da Força Um” de Samuel Fuller. Alguns dos melhores filmes sobre guerra, especialmente sobre a Segunda Guerra Mundial, são narrativas focadas na frente doméstica, acompanhando e examinando o quotidiano de quem não lutou diretamente no conflito, mas sim tentou sobreviver e manter a sua vida no meio do inferno terreno que é a guerra. Na Europa, já muitos foram os filmes estreados sobre famílias europeias e americanas durante os anos da Segunda Guerra Mundial, mas raramente temos o privilégio de vislumbrar uma perspetiva nipónica sobre esse mesmo tema e situação. “Neste Canto do Mundo” representa assim uma preciosa raridade.

Neste Canto do Mundo

Adaptado de um manga do mesmo nome, o filme retrata a vida de uma jovem chamada Suzu, desde 1933, quando ela tinha oito anos e vivia com a sua família em Hiroshima, até ao rescaldo das bombas atómicas em 1945, já depois de se ter casado e mudado para a cidade vizinha de Kure para viver com a família do marido. Em termos de estrutura, a narrativa de “Neste Canto do Mundo” toma a forma de um diário, começando por fazer vastos saltos temporais até que chega a 1944, quando a história se passa a desenrolar em dias, como que antecipando, qual tique-taque de uma bomba-relógio, a tragédia nuclear iminente. Esta é a biografia imaginada de Suzu, mas é também um thriller inflamado de suspense sobre uma tragédia nacional cujas cicatrizes ainda hoje em dia marcam a cultura e identidade japonesa.

Por isso mesmo, “Neste Canto do Mundo” não assume nenhuma forma de história particularmente dramática, preferindo a observação casual de detalhes de uma vida corriqueira. A certa altura, mais do que o horror da guerra, a vida de Suzu parece ser consumida pelas inseguranças de uma jovem a tentar adaptar-se à vida de mulher casada e novas responsabilidades e ansiedades. Não que a realidade do conflito bélico esteja sempre em segundo plano, muito pelo contrário. Na verdade, a genialidade desta história está precisamente no modo orgânico e subtil como a vida de Suzu vai sendo moldada pela realidade catastrófica do seu país. Suzu cresce e faz a transição de criança a adulta durante o auge da guerra, pelo que, para ela, a vida normal e a pressão asfixiante da guerra são inseparáveis enquanto conceitos. Tanto a vemos tentar encontrar formas de lidar com o racionamento de comida através de receitas inventivas, como a vemos tocar nas cinzas do irmão cremado e ponderar o peso e textura de um pedaço de crânio.

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Existe aqui uma lealdade extrema à intimidade psicológica da protagonista que transcende a forma casual e vivida como o argumento retrata as provações da Segunda Guerra Mundial na frente doméstica japonesa. Mesmo o modo como o filme é construído representa um seguimento da perspetiva subjetiva de Suzu, que adora desenhar, pintar e ver beleza no mundo em seu redor. Isto manifesta-se em passagens tão vistosas como uma cena em que, ao pintar um dos seus amigos de infância, Suzu vê o oceano como uma aguarela viva onde a espuma das ondas toma a forma de coelhos brancos, ou a sequência aterradora em que um bombardeamento aéreo se transmuta numa série de borrões de tinta a explodirem na tela celeste do céu sobre Kure. Num dos momentos mais traumáticos e violentos da vida de Suzu, o filme parece mesmo desfragmentar-se e a animação quase que se torna abstrata como representação do estado mental da protagonista.

Isto é animação enquanto veículo para o retrato psicológico do indivíduo e não se aplica somente a essas cenas esteticamente chamativas que já mencionámos. Toda a concretização visual de “Neste Canto do Mundo” segue este intuito, mesmo ao nível dos mais normais dos fundos pintados. Todo o filme foi desenhado com uma simplicidade assombrosa, assemelhando-se à delicadeza de um desenho a lápis colorido com alguns toques de aguarela. Estamos sempre a ver o mundo através dos olhos de Suzu, em momentos de júbilo, trauma e apatia, choque, luxúria e raiva. Por essa e muitas outras razões chegamos ao fim do filme e temos a ideia estonteante que conhecemos esta mulher de modo íntimo, talvez melhor do que nos conhecemos a nós mesmos.

Neste Canto do Mundo

A dor de Suzu é marcada a fogo no coração do espectador, tal como a sua alegria desenha sorriso nos seus rostos. O resultado disto é um filme de estonteante poder emocional, com uma personagem de complexidade monumental no seu centro. Até em momentos mais feios, como quando Suzu responde com incredulidade enfurecida à rendição do Japão, percebemos o seu tormento, as suas dúvidas, e vemos as camadas de dor e vivência que a têm vindo a construir enquanto pessoa desde a infância. “Neste Canto do Mundo” é por isso mesmo um retrato humanista e preciso de uma vida definida pela guerra que todos deviam ver, por muito dolorosa que a experiência possa ser.

Neste Canto do Mundo, em análise
Neste Canto do Mundo

Movie title: Kono sekai no katasumi ni

Date published: 14 de March de 2018

Director(s): Sunao Katabuchi

Actor(s): Rena Nōnen, Yoshimasa Hosoya, Mayumi Shintani, Shigeru Ushiyama, Minori Omi, Natsuki Inaba, Tsuyoshi Koyama, Masumi Tsuda, Hisako Kyouda, Daisuke Ono, Nanase Iwai

Genre: Drama, Família, Animação, 2016, 129 min

  • Cláudio Alves - 90
90

CONCLUSÃO

“Neste Canto do Mundo” é um triunfo de animação japonesa e humanismo cinematográfico do mais alto gabarito, usando um estudo de personagem de grande intimidade para retratar a frente doméstica no Japão durante a Segunda Guerra Mundial. Tanto em termos textuais como formais, este filme é uma joia imperdível.

O MELHOR: A animação e sua mistura de técnicas meio reminiscentes de alguns dos melhores filmes de Isao Takahata, o pai fundador mais experimental dos estúdios Ghibli que tem no seu currículo um filme sobre crianças na Segunda Guerra Mundial ainda mais emocionalmente devastador que esta obra-prima de Sunao Katabuchi.

O PIOR: O facto de o filme acabar. Queremos ver mais de Suzu, da sua infância, da sua paixão pela arte, da sua dor, seu luto, sua alegria, sua relação com paixões perdidas, sonhos desfeitos, maternidade inesperada e muito mais.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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