MONSTRA | Sonho de Uma Noite de Verão

MONSTRA ’19 | Sonho de Uma Noite de Verão, em análise

Como parte da sua exibição de filmes de animação com importância histórica, a MONSTRA destacou “Sonho de Uma Noite de Verão”, uma das obras-primas do cineasta checo Jiří Trnka. Em 1959, este foi um dos filmes em competição no Festival de Cannes, onde ganhou um prémio especial e valeu ao seu realizador o título de Walt Disney do Leste.

Hoje em dia, o trabalho do cineasta checo Jiří Trnka não é muito conhecido, mesmo pelos mais devotos cinéfilos. Parte do problema devém do facto de que muitos dos seus mais importantes filmes serem bem difíceis de ver e muitos deles encontrarem-se em extrema necessidade de uma boa restauração. Mesmo entre conhecedores da oeuvre deste realizador, animador e talentoso marionetista, há uma tendência a valorizar-se mais os seus trabalhos tardios em detrimento das obras feitas no auge da sua carreira. “Ruka”, também conhecido como “A Mão”, é o filme mais conhecido de Trnka, assim como um dos seus trabalhos mais claramente políticos.

Nessa curta-metragem com menos de 20 minutos, o cineasta conta a história de um artista que vive sob a tirania de uma mão gigante que vem dos céus. Essa força superior força o artista a abandonar qualquer impulso criativo individual em nome da criação de obras em homenagem à mão. Entre cineastas que viveram e trabalharam sob o domínio de ditaduras, Trnka assume-se assim como um dos que mais claramente se revoltou contra o controlo estatal sobre a sua arte. “A Mão” tem tanto peso no legado de Trnka que os trabalhos que o cineasta fez com o apoio do estado checo acabam por ser vistos como o fruto da angústia de um artista cujo trabalho não é assim ditado pela sua vontade autónoma.

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Um cinema maravilhosamente artesanal.

Não querendo desvalorizar tal ponto de vista, ignorar por completo esses filmes acaba também por ser um insulto a Trnka, cujo engenho atingiu alguns dos seus píncaros cinematográficos nesse contexto ditatorial. “Sonho de Uma Noite de Verão”, estreado em 1959, insere-se facilmente numa peculiar tradição do cinema sob controlo de estados comunistas em que o trabalho de William Shakespeare servia de inspiração a produções cheias de fausto visual. Se bem que, verdade seja dita, o conto-de-fadas animado que Trnka concebeu tem muito em comum com os esforços deliberadamente épicos de cineastas soviéticos como Grigori Kosintsev ou Sergei Yutkevich.

Como todos os filmes de Trnka, “Sonho de Uma Noite de Verão” é uma obra de animação stop-motion feita com marionetas com um desenho derivado da tradição checa. As faces destas figuras detêm quase sempre expressões imutáveis e é através do gesto que o espectador vai percecionando cada caracterização. O diálogo é escasso, sendo o filme dominado ora pelo silêncio verbal ora pela narração que sublinha o teor desta experiência como um conto-de-fadas contado através da linguagem do cinema. De facto, Trnka basicamente excluiu o verso de Shakespeare, optando por interpretar a peça do Bardo como esqueleto narrativo e nada mais.

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O resultado desta celebração do gesto em detrimento da expressão facial ou verbal é um feito de animação que quase se assemelha a um ballet. Note-se, por exemplo, como Trnka e sua equipa de animadores definem necessárias diferenças de tom através dos contrastes de movimento entre as figuras dos diferentes subenredos do conto. O quadrângulo amoroso composto por Hérmia, Lisandro, Demétrio e Helena, assim como os outros aristocratas atenienses, movem-se com elegância e contenção de gesto e só no clímax endiabrado da sua aventura noturna é que seus corpos entram em registos mais extremos e abruptos. Um rodopio frenético de casais enfeitiçados representa uma belíssima interpretação das folias e enganos que marcam o enredo edificado por Shakespeare.

Por outro lado, a trupe de atores que acaba por se enveredar pelo mesmo bosque onde os amantes de cruzam tem um registo gestual muito mais caricaturado. Sua linguagem corporal é dada a trejeitos repentinos e um dramatismo que nada tem de elegante. Finalmente, as fadas representam o píncaro de espetáculo visual do filme e seus movimentos trespassam a inumanidade sobrenatural das suas figuras. Veja-se, por exemplo, como os monarcas mágicos, Titânia e Oberão, são concebidos e sua etérea movimentação pelo espaço. A rainha das fadas é particularmente esplendorosa, flutuando pela floresta com um manto que parece feito da vida natural do arvoredo a tentar seguir sua soberana pelo seu voo noturno.

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Viva o sonho e viva a beleza!

Convém esclarecer que, apesar de ser o realizador do filme, seu designer e criador das marionetas, Trnka trabalhava com uma equipa de animadores que faziam a maioria dos movimentos vistos em cena. Ele, por outro lado, detinha o controlo da câmara, sua complexa coreografia e toda a restante mise-en-scène. Em “Sonho de Uma Noite de Verão”, sua metodologia é particularmente interessante, sendo que Trnka enche o filme com peculiares movimentações da câmara que muitas vezes vai oscilando pelo espaço, de composição para composição. Em certas cenas, parece que o realizador decidiu operar a câmara como uma mesa de montagem, dispensando transições e cortes em nome de uma fluidez gestual que não só caracteriza as marionetas como o próprio olho do cineasta e sua audiência.

Pelo final, “Sonho de Uma Noite de Verão” assume-se com um espetáculo estético sumptuoso e delicadamente artesanal em igual medida. Sua beleza é somente exacerbada pelas marcas de primitivismo técnico que, para algumas audiências, poderão representar um elemento alienante. De facto, o filme parece um sonho materializado em barro e flores de tecido, tão mais extraordinário pela sua falsidade e artifício. O próprio Trnka sublinha essa condição onírica e o valor da beleza na sua narração, quando diz que sonhos podem ser enganadores, mas isso não importa pois são belos. Neste momento da sua carreira, antes de “A Mão” renunciar o escapismo da beleza sonhadora em nome da feiura de um pesadelo bem real, Trnka mostrou ser um mestre da sua Arte. Uma Arte que, nos dias que correm, há muito se perdeu por entre avanços tecnológicos e abandono de tradições cinematográficas que agora só existem enquanto artefactos históricos.

Sonho de Uma Noite de Verão, em análise
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Movie title: Sen noci svatojánské

Date published: 26 de March de 2019

Director(s): Jiří Trnka

Genre: Animação, Comédia, Fantasia, Romance, 1959, 76 min

  • Cláudio Alves - 85
85

CONCLUSÃO:

“Sonho de Uma Noite de Verão” é uma belíssima celebração do poder escapista da fantasia e da beleza da Arte. O Walt Disney do Leste assinou filmes mais politicamente importantes e artisticamente audazes, mas esta adaptação de Shakespeare que preserva pouco do texto original é uma delícia inestimável para qualquer fã de filmes de animação stop-motion.

O MELHOR: Toda a figura de Titânia, suas cenas, seu desenho e seu gesto sorehumano.

O PIOR: O estado triste em que o filme se encontra e o facto de que a maioria das pessoas nunca terão oportunidade de o ver na sua glória original.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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