ArteKino | La Mort de Louis XIV, em análise

Albert Serra documenta os últimos dias na vida do Rei Sol em La Mort de Louis XIV, uma coprodução franco-portuguesa que poderá muito bem ser a grande obra-prima na carreira deste cineasta catalão.

La Mort de Louis XIV A Morte de Luís XIV ArteKino Albert Serra

A mortalidade tem-se vindo a afirmar como o mais recorrente tema na já prestigiada filmografia do cineasta catalão Albert Serra. Em A História da Minha Morte, que triunfou em Locarno, o autor explorou esse tema através do confronto entre duas figuras de proporções quase míticas, Casanova e Drácula, e neste novo filme, o seu olho está de novo direcionado para uma figura maior que os restantes humanos que o rodeiam. “Maior” poderá ser a expressão errada, pois se há algo que o cinema de Serra tem vindo a sublinhar desde as suas primeiras longas-metragens é que, estropiando as camadas de artifício e armadura social e histórica que envolvem qualquer figura humana, o que encontramos é uma dolorosa e universal condição mortal, a de se ser um ser humano que está destinado, desde o nascimento, a morrer.

Tal como o seu título indica, La Mort de Louis XIV foca-se no rei titular que foi talvez o mais célebre e iconoclasta monarca que alguma vez dominou a nação francesa. A primeira imagem que vemos de tal figura de grandiosidade quase divina é a de um velho senhor a ser levado de cadeira de rodas pelos jardins verdejantes de Versalhes. No céu, o sol está baixo e pinta toda a paisagem com as gradações de doirado do crepúsculo, como que dando um último luminoso adeus ao homem que por tantos anos se autodenominou o Rei Sol. Depois deste breve instante, em que temos logo a perceção que alguma coisa errada ocorreu e que o homem magoou a sua perna, nunca mais voltaremos a ver o sol e passamos o resto do filme enclausurados dentro do quarto do rei, testemunhando o lento e doloroso definhar de sua majestade naquele que foi o seu derradeiro mês de vida.

La Mort de Louis XIV A Morte de Luís XIV ArteKino Albert Serra

Baseando-se nos textos de dois cortesãos que estiveram presentes durante esses fatídicos dias ao lado do monarca, Albert Serra construiu um filme quase arqueológico na sua pesquisa histórica, retratando com o máximo de pormenor todos os rituais, repetições e catástrofes fisiológicas que se abateram sobre o corpo do rei. No entanto, apesar do seu título, La Mort de Louis XIV foca-se principalmente em todo o burburinho em volta da personagem titular. Durante grandes passagens do filme, apenas nos mantemos no quarto por estarmos prisioneiros da presença física do rei pois, devido ao sofrimento físico e ao definhar da mente, o homem que em tempos controlou uma das mais grandiosas nações da Europa, é pouco mais que uma massa inerte de rugas, faces cavadas e gemidos angustiados. Verdadeiramente, é na confusão e incompetência dos médicos iluministas e dos cortesãos incapazes de lidar com o fim do seu líder que o guião encontra a sua direção.

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Isto acontece, pois claro, devido ao facto de que parece que todo o mundo passa pelo quarto real, desde os já mencionados médicos e nobres, a políticos, sua esposa, o futuro rei, ainda criança, e até um grupo de donzelas que solicitam a atenção galante de seu monarca num espetáculo de calcificados rituais sociais que, como Rossellini bem nos mostrou na sua obra-prima sobre este rei, foram parte da chave para o sucesso político de Luís XIV. Apesar disso, Serra e o seu diretor de fotografia Jonathan Ricquebourg, nunca tentam expandir o espaço claustrofóbico do quarto. Pelo contrário, eles enfatizam sua pequenez ao engolirem a habitação em profundas sombras, apenas possíveis graças à sensibilidade da fotografia digital, que dão a todo o filme o aspeto de um sombrio tableau vivant barroco, onde por entre a espessura da escuridão se salienta sempre a figura deitada do rei, em todo o seu esplendor e fragilidade.

La Mort de Louis XIV A Morte de Luís XIV ArteKino Albert Serra

Com a sua volumosa peruca de caracóis empoados e dispostos verticalmente sobre a fronte real, Luís XIV mostra-se sempre como um homem aprumado nos luxos monárquicos e teatrais da corte francesa da época. Mesmo as suas roupas de cama são de uma riqueza descomunal, mas não é por isso que a sua figura alguma vez parece mais forte do que é. Na verdade, o contraste entre a peruca, que emoldura a cara como as nuvens o sol, e a tez pálida e faces progressivamente mais cavadas do homem por detrás do fausto, salienta de modo visceral e cruel quão vácuo todo aquele esplendor é. Serra mostra-nos mais uma vez como o poder e a divindade de estatuto em nada importam quando chegamos ao momento das nossas mortes. No derradeiro leito, todo o ser humano é igual e não há mitos, títulos ou aparências heroicas que nos salvem do inevitável abraço da morte.

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Mas afinal quem é este rei? Bem, dentro do solene espetáculo de mortalidade e dissecação do ícone que é La Mort de Louis XIV, ele é interpretado por alguém cujo estatuto no mundo do cinema é tão ou mais lendário que o do Rei Sol no panorama histórico-político. Falamos, evidentemente, de Jean-Pierre Léaud, o ator que em tempos protagonizou, ainda adolescente, o filme que viria a marcar o início da Nouvelle Vague e que seria, a partir de então, uma das maiores musas para os grandes cineastas desse movimento.

La Mort de Louis XIV A Morte de Luís XIV ArteKino Albert Serra

Não é muito hiperbólico dizer que se há um ator que incorpora na sua pessoa a essência do cinema francês, e até do cinema europeu, ele é Jean-Pierre Léaud. Ou seja, um deus interpreta um deus e ambos são dissecados pela câmara de Serra, cujo foco devastador na fisicalidade do processo da morte, leva a que Léaud seja forçado a apresentar uma das suas mais viscerais e minimalistas prestações de sempre, onde a imobilidade reina e a palavra é muitas vezes uma impossibilidade. No enanto, também é graças a ele que o rei tem grandiosidade. Este Luís XIV não é somente um velho moribundo, mas também um homem com um poder absoluto e incomensurável, algo que se torna bem claro quando, a meio do filme, o requiem de Mozart ressoa na banda-sonora até que Léaud olha para a câmara com uma expressão tão imperiosa que o próprio som se interrompe e a audiência sustém a respiração, paralisados pela autoridade que transpira deste homem, tão frágil, mas simultaneamente tão grandioso.

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No final, La Mort de Louis XIV acompanha o corpo de sua majestade até depois da sua morte, testemunhando a sua violação às mãos dos médicos que lhe manuseiam os órgãos durante uma autópsia. O humor negro destes momentos é tão grande que até Paul Verhoeven ficaria incomodado, mas Albert Serra nunca deixa que o seu filme caia em qualquer poço de misantropia imprópria. Nestes derradeiros instantes cheios de sangue, entranhas e o corpo sem vida de um rei do cinema e da história, Serra mostra-nos aquilo que é mais primordialmente humano, os nosso corpos e a nossa capacidade de viver e depois morrer. É cruel, necessário, magistral e estranhamente inspirador, assim como um golpe de final génio naquela que é uma das grandes obras-primas do ano e da áurea fotografia deste autor catalão.

La Mort de Louis XIV A Morte de Luís XIV ArteKino Albert Serra

O MELHOR: A prestação e presença de Léaud na pele do Rei Sol moribundo. Mesmo que a prestação do ator fosse má, o que não é verdade, o seu casting já seria um triunfo de sagacidade merecedora de aplausos.

O PIOR: A lentidão vai irritar muita gente, e a singularidade trágica do espaço sempre subjugado à presença do corpo ainda vai enfurecer mais. Mas, para audiências preparadas e generosas, este filme será uma das grandes experiências da sua cinefilia.


 

Título Original: La Mort de Louis XIV
Realizador:  Albert Serra
Elenco: Jean-Pierre Léaud, Patrick d’Assumçao, Marc Susini, Irène Silvagni

Artekino | Drama, Biografia, Histórico | 2016 | 96 min

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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