"A Glitch in the Matrix" | © MOTELX

MOTELX ’21 | A Glitch in the Matrix, em análise

O primeiro documentário desta edição do MOTELX é um caótico olhar sobre as pessoas que julgam viver dentro de uma simulação. “A Glitch in the Matrix” integra a secção Doc Terror do festival.

O contexto em que vemos um filme influencia o modo como o encaramos. Isso é verdade sobre qualquer obra de arte, mas queremos focar-nos no objeto fílmico e sua relação com o festival de cinema. Especialmente quando o evento se ordena em torno de um tema comum, um género, as expetativas do espetador são irremediavelmente projetadas sobre a fita. Quando um título é programado no MOTELX e é visto nesse contexto, é impossível não o avaliar através de um prisma de terror. Isso beneficia algumas obras, prejudica outras. Em alguns casos, ajuda a iluminar elementos que passariam despercebidos de outra maneira.

“A Glitch in the Matrix”, o novo filme realizado por Rodney Ascher, tende a ser meio prejudicado pela inserção num programa de terror. Antes de chegarmos ao trabalho concreto, quiçá seja bom estabelecer o modus operandi do cineasta, as características do seu cinema. Sendo muito generosos, poderíamos descrever Ascher como um realizador obcecado com obsessões, alguém sempre predisposto a registar, até celebrar, as idiossincrasias da subjetividade humana. Seus documentários estão sempre cheios de teorias da conspiração, loucuras paranoicas e muitas teorias mirabolantes. Teorias essas, que o realizador documenta com sepulcral seriedade.

A GLITCH IN THE MATRIX CRITICA MOTELX
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É exatamente esse tom sério que torna a filmografia de Ascher numa delícia acidental. Acontece que os trabalhos do cineasta tendem sempre a cair no absurdo, uma dinâmica intensificada pela renúncia total ao humor, à possibilidade de relatar conspirações com alguma nota de ceticismo. Quer esteja a discutir códigos escondidos nos pesadelos de Stanley Kubrick ou a falar sobre aparições demoníacas durante paralisia no sono, Ascher tanto se apega aos seus sujeitos que o resultado se torna cómico. Não é deliberada paródia, mas aquele tesouro da solenidade fracassada, convicção estapafúrdia entrelaçada com erros muito básicos da filosofia.

Nesse paradigma, “A Glitch in the Matrix” não foge à regra. Trata-se de um documentário sobre a possibilidade de toda a nossa realidade não passar de uma simulação digital. Indo buscar ideias ao “Matrix” das irmãs Wachowski e à literatura académica sobre desrealização, há indivíduos que creem viver num computador, que todas as outras pessoas são como os figurantes de um videojogo e que nada é real. O narcisismo compulsivo de muitos dos entrevistados é grotesco, sua incapacidade de conceber que as complexidades do mundo são reais ao invés de um programa com bugs, qual jogo defeituoso.

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A certa altura, fala-se de uma epifania quase-religiosa, um momento de clareza que surgiu quando, na igreja, um menino entendeu que a garganta humana é demasiado complicada para não ser um mecanismo desenhado por maquinaria. Regressa-se variadas vezes a esse instante de clareza e a doentia falta de imaginação nunca deixa de ser engraçada. Contudo, Ascher jamais se interessa em questionar os entrevistados, preferindo sublinhar a razão paranoica. Além disso, o cineasta parece mostrar intenções de conceber uma obra alarmante, que choque o espetador e o sensibilize. Que outra razão haverá para sua exploração de um matricídio ignóbil? O caso surge no fim de um encadeamento de inanidades.

Ouvimos falar sobre certo rapaz que ficou assombrado pelas ideias do “Matrix”, sua estética, sua inquietação existencial. Numa passagem risonha, sabemos que até tentou copiar o estilo do protagonista, pavoneando-se numa gabardine preta e assim amedrontando os transeuntes do centro comercial local. Contudo, a tonalidade tenebrosa com que Ascher conta a história depressa se justifica quando a desrealização cai no niilismo e cai numa desvalorização da vida alheia. O assassino só questiona se talvez tudo não é digital quando a cabeça da própria mãe explode em carne, osso e sangue.Esse evento aconteceu mesmo e é sobre o caso que Ascher tenta construir o filme enquanto aviso profético, qual Nostradamus do século XXI.

A GLITCH IN THE MATRIX CRITICA MOTELX
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Infelizmente, ao invés de assustar, a inclusão deste episódio só sabe a sensacionalismo fácil, choque barato e ofensa lúgubre. A vítima nunca é mais que um apontamento e as ramificações psicológicas são analisadas com extrema superficialidade. O que devia horrorizar, só irrita, frustra, e reforça quanto o documentário beneficiaria de algum ceticismo cómico, algum travo de ironia, distância dos seus sujeitos. Se visto dessa forma, “A Glitch in the Matrix” tem valor e alguns momentos sublimes. Encarado como terror documental, não tem ponta por onde se pegue. No meio destas contradições, oportunidades perdidas e difíceis classificações de género, é o elemento formal que se eleva acima dos outros.

Apesar da imprecisão argumentativa, Rodney Ascher sabe como ilustrar a paranoia absurda através do mecanismo cinematográfico. Neste caso, como o filme se interroga acerca de realidades simuladas, toda a sua construção é feita com base em comunicação digital e imaterialidade. As entrevistas, ao invés de filmadas em pessoa com câmara, são vídeos de chats online, Zooms ornamentados por avatares animados. Até a visão de espaços exteriores se faz pelo Google Earth, o mundo reduzido a pixéis. Em relação às histórias macabras e relatos de epifanias, teorias, Ascher ilustra as palavras com animação, gloriosas fantasias digitais que são, sem dúvida, a melhor parte de “A Glitch in the Matrix”.

A Glitch in the Matrix, em análise
a glitch in the matrix critica motelx

Movie title: A Glitch in the Matrix

Date published: 9 de September de 2021

Director(s): Rodney Ascher

Genre: Documentário, 2021, 108 min

  • Cláudio Alves - 50
50

CONCLUSÃO:

Como farsa animada sobre loucuras paranoicas, “A Glitch in the Matrix” é um sucesso relativo com alguns resvalos na sordidez gratuita. Como terror existencial, fracassa por absoluto. Sempre obcecado por binários e imaginações limitadas, o documentário frustra o espetador ao mesmo tempo que o deleita com visuais espampanantes.

O MELHOR: O cocktail de animação tresloucada e efeitos digitais.

O PIOR: A falta de ceticismo, de interrogação, de alternativas à filosofia niilista. Isso e a falta de diversidade nos entrevistados. Ouvimos falar de uma mulher e o resto é tudo homens caucasianos Americanos de classe-média ou alta. Se estes são os principais crentes na teoria da simulação, há uma forte vertente socioeconómico, quiçá até racial, que o filme nunca tenta interrogar. Mais uma oportunidade perdida.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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