"Fukushima 50" | © MOTELX

MOTELX ’21 | Fukushima 50, em análise

Fukushima 50” é uma inspiradora homenagem aos trabalhadores que preveniram um desastre nuclear depois do terramoto de 11 de Março de 2011, no Japão. A obra esteve na secção Serviço de Quarto do 15º MOTELX.

Ao longo da sua história, já com década e meia, o MOTELX tem vindo a explorar as muitas vicissitudes do terror moderno. Desde o clássico filme de meter medo até à inquietação mais subtil da produção arthouse, o festival abrange uma série de projetos e apresenta-os à audiência através do prisma do terror. Uma das escolhas mais interessantes dos programadores tem sido a seleção regular do filme desastre, esse subgénero que chegou ao seu apogeu durante os anos 70, em Hollywood.

Na conjetura atual, quando o maior assassino de todos se assume como a Natureza maltratada, os poderes malignos da Terra e sua potencialidade devastadora estão bem atuais. De facto, a emergência do terror ecológico enquanto via vulgar do cinema de terror prova isso mesmo. Contudo, o épico do desastre, a aventura da catástrofe, segue outras regras, compreendendo um ponto médio entre o terror e a ação. Por um lado, celebra-se a sobrevivência. Por outro, existe uma exaltação da ansiedade proveniente de um mundo de pantanas, um cosmos apocalíptico.

fukushima 50 critica motelx
© MOTELX

Quiçá, porque estes medos do desastre são mais próximos da realidade comum, seu impacto é mais profundo que o da metáfora demoníaca ou visão de um monstro onírico. Fantasmas não há e psicopatas sobrenaturais também só existem no panorama imaginativo. Terramotos calamitosos e tsunamis, no entanto, são bem próximos do dia-a-dia, por muito que queiramos ignorar. Afinal, o MOTELX desenrola-se numa cidade outrora dizimada por esses mesmos horrores.

Se algum dia alguém fizer um épico a tombar no terror sobre o terramoto de 1755, talvez se assemelhe um pouco ao tenor elegíaco de “Fukushima 50”. Passados dez anos desde o terrível terramoto de Tohoku e subsequentes tsunamis, o realizador Setsurô Wakamatsu propõe-se a contar a história daqueles que impediram o desenvolvimento de um maior cataclisma. O filme é sobre a crise nuclear em Fukushima, quando as águas do mar entraram na central energética e desencadearam uma série de avarias graves, potenciando a fusão, a explosão, uma Chernobyl nipónica.

Por respeito aos sobreviventes e àqueles que já desfaleceram devido à exposição radioativa, a maior parte dos nomes foram mudados. No interior da sala de controlo, por exemplo, só existem praticamente construções fictícias, dramatizações ao invés de referências diretas aos 50 de Fukushima. Dito isso, há uma personagem que mantém todas as características do seu correspondente homem de carne e osso. Masao Yoshida, interpretado por Ken Watanabe, era demasiado famoso para ser escondido pela máscara da dramatização.

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Esse ponto de realidade pessoal paga os seus dividendos durante a coda devastadora da fita. Além disso, permite dramatizar seus heroísmos sem diluir a ação em abstrações. A decisão de ignorar os dirigentes da companhia-mãe e continuar a bombear água salgada para os reatores foi crucial e todo esse episódio é aqui apresentado sem grande floreado ou adição. Vemos os factos cuspidos em diálogo seco e gritado, um tenor de autoridade esfarrapada que tanto transmite segurança como pânico, a confiança de um líder e a exaustão do ser humano quebrado pela pressão, pelo medo do que pode acontecer.

Por isso mesmo, há que se discutir a fidelidade histórica do engenho. “Fukushima 50” tenta seguir os pormenores exatos do que se passou naqueles dias, trabalhando pouco a questão da personagem em função de um apelo ao heroísmo coletivo, dos sistemas humanos que permitiram aos sistemas mecânicos e políticos salvar vidas. Não houvesse aqui um cheirinho de crítica à burocracia estatal, poderíamos até categorizar como uma arma de propaganda nacionalista. Felizmente, há nuance suficiente para evitar esse fado.

Além do mais, existe a componente visceral que se junta ao aspeto humanista da celebração heroica. Se Wakamatsu às vezes descura na direção de ator ou na escolha musical, seus instintos vingam na moldagem de ritmos e ansiedades. Afigurando-se como o filho de “Shin Godzilla” e a minissérie “Chernobyl”, este “Fukushima 50” brilha nos momentos de disrupção, quando a calma da tensão acumulada se rompe com um rebentar inesperado. Mesmo para quem já sabe a história, Wakamatsu consegue gerar a impressão do choque, do retorcer das entranhas em nervosismo simpatético.

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© MOTELX

Chegado o fim da crítica, há confissão a fazer. Apesar de tentarmos permanecer num registo impessoal aqui na Magazine.HD, ocasionalmente justifica-se uma perspetiva mais direta. Quando este desastre ocorreu, eu estava no Japão, em Tóquio, e fiquei lá preso durante os dias dramatizados no filme, esperando voo para fora daquela crise, de regresso a casa. Ver “Fukushima 50” foi desenterrar memórias esquecidas, reviver algumas das conjeturas tenebrosas que me assolaram a mente na altura. A hipótese de uma Tóquio coberta por cinza radioativa apoquenta o espírito e certamente torna esta dramatização do desastre histórico no filme deste MOTELX mais predisposto a causar pesadelos. Só por isso, justifica-se a classificação do cinema do desastre enquanto ramificação do terror. Pelo menos, a nível puramente pessoal, este causou calafrios.

Fukushima 50, em análise
fukushima 50 critica motelx

Movie title: Fukushima 50

Date published: 14 de September de 2021

Director(s): Setsurô Wakamatsu

Actor(s): Ken Watanabe, Takumi Saitoh, Tomorô Taguchi, Kôichi Satô, Yasuko Tomita, Riho Yoshioka, Masato Hagiwara, Mitsuru Hirata, Masane Tsukayama, Yuri Nakamura

Genre: Drama, Terror, Ação, 2020, 122 min

  • Cláudio Alves - 65
65

CONCLUSÃO:

Entre o conto inspirador sobre heroísmos da vida real e o terror do cataclisma atómico, “Fukushima 50” executa um modelo convencional com apropriada precisão textual. Tombos no sentimentalismo prejudicam a qualidade geral, assim como algumas escolhas operáticas do elenco, mas não podemos negar que se trata de um filme poderoso. É lugar-comum dizer tais coisas. Contudo, neste caso, justifica-se.

O MELHOR: A fantasmagórica visão da conjetura fatalista, um Japão coberto de cinzas, cidades contaminadas, vidas perdidas.

O PIOR: O uso de filmagens repetidas e a maldita montagem sentimental. O heroísmo estoico daqueles que se sacrificaram pelo bem comum não precisa destes sublinhados excessivos para marcar forte impressão. Por vezes, a via do minimalismo é a mais correta e “Fukushima 50” ocasionalmente erra pela opção maximalista.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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