"Parsley" | © MOTELX

MOTELX’ 22 | Parsley, em análise

O realizador José María Cabral usa os preceitos do terror para dramatizar uma atrocidade histórica em “Parsley,” também conhecido no original como “Perejil.” Este filme da República Dominicana já fez sucesso no circuito dos festivais, tendo ganho um prémio Especial do Júri na Costa Rica e dois galardões em Miami. Na 16ª edição do MOTELX, a obra integrou a secção Serviço de Quarto.

De 2 a 8 de Outubro de 1937, um massacre sem precedentes teve lugar na fronteira noroeste entre a República Dominicana e o Haiti, na região conhecida como Cibao. Rafael Trujillo, o ditador dominicano em poder na altura, considerava a população de imigrantes Haitianos como uma praga que devia ser exterminada, ganhando muito do seu poder político com base no sentimento anti-Haitiano. Estas políticas intersectam-se com preconceitos racistas, sendo que a luta contra a imigração em muito se devia a um desejo de purificar, ou branquear, a sociedade dominicana.

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Como se veio a verificar, não interessava muito a nacionalidade de origem de cada um, mas sim a cor da pele – um gesto contra a população preta do país. O horror começou dia 2, quando Trujillo tornou claras as suas intenções assassinas num discurso dado durante uma celebração na província de Dajabón. Na sua retórica de ódio, ele definiu os Haitianos na República Dominicana como entidades deploráveis e culpadas da pobreza da nação. Ele chegou mesmo a apontar o dedo a eles como responsáveis por roubos de gado e outras provisões, delineando o povo marginalizado como fonte da fome nacional.

No discurso, Trujillo anunciou que trezentos Haitianos já tinham sido mortos em Bánica e que a limpeza étnica iria continuar. Assim aconteceu e o número certo de vítimas nunca foi divulgado. Houve quem tentasse atravessar o rio Dajabón, fugindo para o Haiti, mas também nessa travessia muitos morreram. Grande número dos chacinados nem eram imigrantes ilegais dentro do território da República Dominicana, mas sim descendentes de migrações passadas, sendo dominicanos em tudo menos ideais raciais.

Tais dados ajudam a caracterizar este massacre além de questões xenófobas, definindo-o como um genocídio autêntico que, por ordens do regime, não deveria ser discutido ou aludido, apagando-o da História. Nesse sentido, “Parsley” ou “Perejil” representa uma tentativa de trazer justiça a narrativas históricas, projetando a verdade no grande ecrã como ataque ao silêncio. O nome do filme devém de um teste cruel feito pelas tropas de Trujillo. Para distinguir Haitianos de Dominicanos, eles forçavam suas vítimas a dizer “salsa,” denunciando pelo sotaque as suas origens.

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A narrativa, escrita por uma equipa liderada pelo realizador José María Cabral, conta a história daquela primeira noite sangrenta, filtrando a experiência coletiva através da história individual. Tudo começa com ritos fúnebres, o momento mais paradoxalmente jubilante do filme, onde conhecemos Marie, uma jovem de ascendência Haitiana que faz o luto enquanto espera o nascimento do primeiro filho. Ela vive com Frank, seu marido Dominicano numa comunidade junto à fronteira, com quem partilha as ansiedades sobre boatos de uma deportação em massa.

O marido, do seu ponto de vista privilegiado, não lhe presta atenção – um erro com consequências mortais. Chegada a noite, o exército dominicano entra em ação, inclusive o meio-irmão de Frank, colecionando orelhas pelo caminho, quais troféus de caça humana. De um interlúdio erótico quando o casal se banha junto até ao parto nas águas fronteiriças, “Parsley” segue Marie através de uma odisseia noturna que é como uma descida ao inferno. Pelo caminho se encontram outras fações da sociedade Dominicana, como comunidades pretas mais abastadas que se julgavam incólumes graças à hierarquia económica.

Na sua oitava longa-metragem, Cabral faz do sofrimento um pretexto para o choque coletivo, exorcizando demónios históricos pela sua revelação à luz de olhares modernos. A recriação do ambiente de época é fantástica, desde os cenários rudimentares de Wihelm Perez até aos figurinos andrajosos de Mena Martinez. Também a sonoplastia prima pela expressividade – apesar de alguns problemas de projeção no Cinema São Jorge – e a maquilhagem segue as linhas do gore explícito sem se tornar demasiado grotesco.

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Dito isso, a fotografia é a verdadeira estrela do filme, negociando a penumbra da noite com a redenção matinal, labaredas assassinas e a luz baça de lamparinas a óleo. Nesses paradigmas formalistas, “Parsley” triunfa enquanto um exercício de terror com ambições sociopolíticas. Contudo, o argumento vacila no que se refere à caracterização e a perspetiva individualista não ajuda. Um retrato mais amplo do evento teria beneficiado o drama e poupado algum do foco posto nos atores. Custa-nos muito dizer, mas o elenco reunido por Cabral é um ponto fraco e poucos são os intérpretes capazes de sustentar as emoções extremadas da história. Louvamos as intenções de todos os artistas aqui representados, mas questionamos a execução final do seu projeto.

Parsley, em análise
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Movie title: Perejil

Date published: 14 de September de 2022

Director(s): José María Cabral

Actor(s): Cyndie Lundi, Ramón Emilio Candelario, Juan Maria Almonte, Lia Briones, Madison Diaz, Andy Frestner, Cynthia Guzmán, Pavel Marcano, Gerardo Mercedes, Toussaint Merionne, Paloma Palacios, Raul Placido, Phillip Rodríguez

Genre: Drama, 2022, 85 min

  • Cláudio Alves - 58
58

CONCLUSÃO:

Em “Parsley” ou “Perejil,” o cinema serve para iluminar horrores históricos e alertar audiências contemporâneas para os padrões que se repetem como ciclos viciosos. Apesar de uma base ideológica forte, o filme vacila no que se refere a argumento e interpretações, triunfando mais como um exercício em códigos de género aplicados ao docudrama. Trata-se de um trabalho urgente, mas imperfeito, merecedor de aplausos e algumas considerações mais críticas. Recomenda-se vivamente, porém com algumas reservas.

O MELHOR: A fotografia que pinta a noite com chamas e sangue, rubros tons em contraste com a liberação materializada pelo rio fronteiriço.

O PIOR: O trabalho de ator.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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