"Zalava" | © MOTELX

MOTELX’ 22 | Zalava, em análise

Em “Zalava,” ciência e superstição defrontam uma guerra antiga, batalha eterna que nunca será resolvida. A primeira longa-metragem de Arsalan Amiri é um fascinante exemplo de terror iraniano em cenário de época, justapondo os terrores do além com a crueldade humana, o sobrenatural com a História do Irão. Esta obra teve a sua estreia mundial no Festival de Fajr, mas também já passou em Veneza e Toronto, antes de chegar à secção Serviço de Quarto do 16º MOTELX. Entretanto, “Zalava” já ganhou muitos prémios, incluindo galardões para o seu argumento e para o ator Pouria Rahimi Sam num papel secundário.

Zalava é terra amaldiçoada, ora por demónios ou pela estagnação do seu povo. A gente dessa aldeia montanhosa não foi feita para permanecer no mesmo sítio, descendendo de comunidades monádicas marginalizados como ciganos para a sociedade Iraniana. Na conjetura em que os encontramos, em 1978, Zalava é habitada por agricultores supersticiosos que mantêm vivos os temores do passado, ameaçados pela investida colonialista do mundo moderno e seus impérios de conquista. Esses temores são personificados pelos intrusos que infiltram a povoação – figuras da medicina e das autoridades militares, ciência e força marcial, o progresso talvez.

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Malihe é a médica vinda da capital para recolher amostras de sangue e urina, tentando desvendar o que está por detrás das anomalias genéticas registadas em Zalava. Lá, quase toda a gente desenvolve manchas de pele descolorada e tem cabelo a condizer, cheio de partes esbranquiçadas prematuramente. Se a sua relação é amigável para com os aldeãos, o mesmo não se pode dizer sobre os militares. Masoud, em particular, está em constante revelia com aqueles que deveria proteger. Quando nos deparamos com este jovem sargento da gendarmaria, ele julga fazer isso mesmo, não obstante os protestos dos habitantes irados.

Acontece que, há décadas, Zalava experiencia aquilo a que chamam possessões demoníacas, eventos anuais que necessitam o exorcismo ou toda a comunidade está condenada. Enquanto esperam pela chegada do exorcista de eleição, o povo acalma a ameaça infernal com sangramentos rituais e mutilação voluntária. Neste caso, planeia-se alvejar a mais recente vítima de possessão, uma rapariga que acredita plenamente na sua aflição do além. O problema é que Masoud não crê em nada disso e confisca as armas do populus e, quando o muito amado Amardan aparece para confrontar o demónio, o militar prende o potencial charlatão.

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No meio disto tudo, concentram-se os nervos em volta de um frasco de vidro que aparenta estar vazio. Amardan, pois claro, diz que lá está preso o demónio invisível, alertando Masoud para a necessidade do ritual e para o perigo contido no objeto instável. Caso alguém abra o recetáculo, a desgraça cairá sobre Zalava. Trabalhando no intuito da ambiguidade absoluta, o realizador e argumentista Arsalan Amiri filma o adereço como um totem de possibilidades infinitas. Sonoplastia, montagem, composição e música muito fazem para vender a ideia de perigo, provocando muitos sustos pelo caminho. Há uma qualidade absurda nesta histeria e Amiri também deixa espaço para essa realidade cética na sua encenação.

Toda uma sequência entre o gatinho de Masoud e o frasco ominoso resulta numa mistura estranha de temor e farsa, como se o espetador estivesse numa perpétua prisão entre um soluço e a gargalhada nervosa. Quiçá o jogo fosse correr mal nas mãos de outros cineasta, mas Amiri demonstra um jeito classicista para com a flexibilidade de tons, o desenvolver de um enredo soberbo onde o preceito do medo serve como estudo social de um Irão no precipício da revolução. Os paralelos com o fundamentalismo contemporâneo são óbvios, especialmente à medida que o realizador concebe um estado tal de tensão acumulada que mais depressa se preferia o demónio à população inebriada pelo fervor proto-religioso.

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Louva-se “Zalava” pela plasticidade rigorosa e pela perspetiva generosa o suficiente para humanizar até os seus mais desprezíveis monstros humanos. Não há respostas fáceis para com as questões levantadas no guião, sendo que os atores ainda mais complicam a cena com prestações soberbas. Pouria Rahimi Sam, em particular, representa a epítome da ambiguidade cruel trabalhada por Amiri, fazendo de Amardan uma panóplia de diferentes realidades coladas umas sobre as outras, todas sobrepostas num palimpsesto de mentira e sinceridade. Baset Rezaei é brilhante de outra forma, oferecendo comédia humanista num registo que realça as qualidades Fordianas da fita. Por seu lado, Hoda Zeinolabedin e Navid Purfaraj fazem de Malihe e Masoud figuras tão românticas quanto incrédulas, gente moderna presa num mundo retrógrado onde não há espaço para a dúvida.

Zalava, em análise
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Movie title: Zalava

Date published: 15 de September de 2022

Director(s): Arsalan Amiri

Actor(s): Navid Pourfaraj, Pouria Rahimi Sam, Hoda Zeinolabedin, Baset Rezaei, Mahsa Hejazi, Payam Bavili, Sajjad Dolati, Fereydoun Hamedi

Genre: Drama, Terror, 2021, 93 min

  • Cláudio Alves - 80
80

CONCLUSÃO:

Na boa tradição do cinema iraniano do século XXI, “Zalava” é um conto moral que faz muitas perguntas difíceis ao espetador. Arsalan Amiri oferece poucas respostas definitivas, além de uma valorização da vida humana face à crueldade da tradição fundamentalista. Há generosidade na perspetiva autoral e complexidade no jogo de personagens, uma tapeçaria de complexidades interpessoais levadas ao extremo pela possibilidade de possessão. A gramática do cinema de terror é invocada como força perpetuadora da dúvida, resultando num precioso trabalho de cinema de género feito em prol do comentário sociopolítico e da análise histórica.

O MELHOR: O elenco é excecional, tal como todo o filme. Ninguém diria que se trata da estreia do realizador ou que “Zalava” foi rodado com orçamento minúsculo.

O PIOR: A banda-sonora é excelente nas primeiras passagens cheias de terror, mas torna-se redundante à medida que a história avança e se concentra no confronto direto entre dois forasteiros angustiados e o povo irado. Também questionamos alguns dos efeitos de maquilhagem e afins, mas nada de muito flagrante.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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