Tamar Novas numa prestação complexa em "O Corpo Aberto" |©MOTELX/ Filmax

MOTELX ’22 | O Corpo Aberto, em análise

Num ano em que a competição europeia do MOTELX, Prémio Méliès d’argent para Melhor Longa Europeia, contou, pela primeira vez, com três obras nacionais na sua seleção: “Os Demónios do Meu Avô”, Criança Lobo” e “O Corpo Aberto”, analisamos este último filme. A co-produção entre Portugal e Espanha contou com uma triunfante estreia mundial na Sala Manoel de Oliveira, no Cinema São Jorge. 

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“O Corpo Aberto”, uma obra co-produzida a meias entre Espanha e Portugal e realizada pela guionista e cineasta Ángeles Huerta, teve estreia mundial no MOTELX e só em dezembro deste ano contará com estreia comercial espanhola. Esta co-produção foi apresentada a 10 de setembro, no Cinema São Jorge, pela realizadora, equipa e elenco da longa-metragem, contando com a presença de estrelas nacionais como Victoria Guerra e José Fidalgo e ainda com a presença do protagonista espanhol Tamar Novas. Foram recebidos por uma sala praticamente esgotada, com bastante pompa e circunstância.

O filme, tal como reforçado pela realizadora, é uma obra situada em regiões fronteiriças – posicionando-se entre povos que sempre conviveram ao longo dos tempos, o português e o espanhol, como um filme fronteiriço no sentido mais literal do termo, rodado e e situado numa zona entre a fronteira entre Portugal e Espanha. É também uma obra que se posiciona entre a fronteira dos vivos e a dos mortos, explorando a mortalidade de uma forma criativa e tenebrosa, mas sem nunca perder uma orientação muito curiosa entre o realismo e o romantismo.

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A natureza como peça preponderante e premonitória em “O Corpo Aberto” |©MOTELX/ Filmax

Por fim, e como evidenciado por Huerta na sua apresentação, “O Corpo Aberto” explora também as fronteiras entre o feminino e o masculino, encontrando na sua realização e escrita delicadas – e na incorporação de elementos fantásticos – a forma correta de não se tornar anacrónico ou demasiado “contemporâneo” na abordagem destas temáticas neste que é, ao fim de contas,  um filme de época.

Em primeiro lugar, louvamos “O Corpo Aberto” pela sua riqueza cultural e linguística. Uma narrativa falada em português, galego e castelhano, de forma intercambiável e realista (personagens de diferentes proveniências, falando entre si na sua língua mãe e entendendo-se na perfeição) é algo raro no nosso panorama cinematográfico.

A realizadora referiu ainda como esta se trata de uma co-produção não forçada por imposições de necessidade de encontrar orçamento mas antes impelida pela vontade de partilhar uma história que fosse genuinamente alusiva às particularidades da Península Ibérica. Dos rituais de paganismo retratados, à dinâmica entre personagens, à própria crónica de costumes do dia-a-dia no arranque do século passado, “O Corpo Aberto” é um estudo sobre a relação e tensões entre povos antes de ser uma obra de terror dedicada à recriação do folclore ibérico.

Quanto à história, situamo-nos no ano de 1909 e é-nos apresentada a partir do olhar do protagonista Miguel (Tamar Novas), um professor destacado para uma pequena aldeia no interior, Lobosandaus, um lugarejo na Galiza situado na fronteira entre Portugal e Espanha. Este é um típico começo sinistro que nos coloca perante um “peixe fora de água”. Lobosandaus é um local longe da “civilização”, sítio inóspito, terra de muito sofrimento e muitas palavras por dizer, onde as pessoas são distantes e onde os velhos costumes persistem.

Miguel é um pedagogo, alguém interessado em defender a razão, a luz e o conhecimento entre aqueles que serão os seus alunos. O novo “mestre” encara de forma positiva o seu novo posto, garantindo que as crianças “são puras” e que poderá trazer-lhes educação e sapiência. Todavia, o seu ciúme e o seu desejo pela misteriosa Dorinda (Victoria Guerra), começam a toldar a razão aparentemente inquebrável de Miguel. A escuridão, essa começa a tomar conta da sua alma e do pequeno local depois do amante de Dorinda aparecer morto, enforcado numa árvore. Eis que uma presença fantasmagórica começa a tomar conta de Lobosandaus, com muitos acontecimentos bizarros a influenciarem o desenvolvimento da trama.

Victoria Guerra em The Open Body
Victoria Guerra interpreta a complexa Dorinda em “O Corpo Aberto” | ©MOTELX/Filmax

Para Miguel, a linha entre a realidade e a fantasia vai-se tornando cada vez mais ténue, nesta que é uma história emocionalmente pesada e que tem um pendor sobrenatural muito forte. Paralelamente, o protagonista estabelece também uma relação complexa com Obdulia (possivelmente a presença mais forte deste filme, interpretada por María Vázquez, perfeita enquanto subverte o cliché da “mulher louca”).

Uma relação de animosidade e que demonstra uma aversão a comportamentos femininos que possam ser rotulados como desviantes. Assim, Miguel, alegadamente o homem da razão entre uma aldeia de tacanhos, acaba por revelar uma natureza obscura presente dentro de si (o apogeu disso mesmo é a noite do ritual pagão, em que acaba a arder em febre depois de uma manifestação de dança em que a câmara nos leva também a rodopiar de forma incessante). Esta revelação final, no âmago de Miguel, é inquietante e testemunho de uma progressão bastante bem conseguida no que diz respeito ao desenvolvimento da personagem central.

Outro trunfo de “O Corpo Aberto” é a existência, dentro da narrativa, de imensas reviravoltas inesperadas, as quais giram em torno da forma como a alma se separa ou não do corpo, neste conto extremamente gótico. Por fim, e no fim, vários dos detalhes do desfecho provocam grande impacto emocional e estimulam a problematização das temáticas expostas ao longo do filme. Um desconforto persegue-nos para fora da sala…

O Corpo Aberto
The Open Body Poster MOTELX

Movie title: O Corpo Aberto

Movie description: 1909. Miguel, um jovem professor, é destinado a uma pequena cidade serrana na fronteira entre Espanha e Portugal: Lobosandaus, um lugar inóspito, habitado por pessoas distantes e com tradições remotas. Não parece o lugar ideal para alguém como Miguel, obstinado em difundir luz e conhecimento entre os seus alunos. Mas a razão não pode dominar o desejo e, à medida que o inverno avança, Miguel sente como a escuridão toma conta de tudo ao seu redor.

Date published: 17 de September de 2022

Country: Espanha, Portugal

Duration: 88'

Director(s): Ángeles Huerta

Actor(s): Tamar Novas, Victoria Guerra, María Vásquez, José Fidalgo,

Genre: Drama, Terror

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  • Maggie Silva - 80
80

CONCLUSÃO

“O Corpo Aberto” é um inquietante conto gótico com uma imagética concordante, onde as fronteiras entre o reino dos vivos e o dos mortos se tornam muito ténues, a alma e o corpo operam uma dança doentia e onde Ángeles Huerta consegue brilhar no papel de realizadora a assinar uma primeira longa.

Pros

  • Uma representação interessante – e sentimos que historicamente consciente – de como as populações rurais lidavam não só com a superstição, mas com os próprios rituais que envolviam a partida de um entre querido. Uma das cenas mais tenebrosas envolve um ritual funebre, a típica fotografia com o morto, ainda com elevado tempo de exposição, popular na altura, e todo o processo até chegarmos a esse momento;
  • As prestações centrais de todo o elenco;
  • Um esquema de cores fantasmagórico q.b, envolto em tons terra que reforçam, com naturalismo, a ruralidade do meio envolvente da narrativa;
  • Um final empolgante, embora ligeiramente previsível depois da narração inicial do filme abrir desde logo com uma frase que nos remete para o conceito de “eterno retorno”.

Cons

A falta de respostas. O filme torna-se quase um whodunnit, a certo ponto marcado por reviravoltas sem fim. Existem também vários crimes a solucionar, mas nenhumas ou poucas pistas para que possamos preencher os espaços vazios. No final da projeção, Ángeles Huerta animou o Q&A ao perguntar ao público quem considerava ter sido responsável por ato “X” ou “Y”. Todavia, gostaríamos que a equipa de argumentistas tivesse assumido, pelo menos em parte, algumas respostas sobre eventos centrais do filme que ficaram por responder.

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Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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