©MOTELX/ Take it Easy

MOTELX’ 22 | Criança Lobo, em análise

Algo extremamente importante para o MOTELX, desde o início da sua jornada, tem sido a promoção do terror nacional. Por isso, a inserção de três obras nacionais na Competição de Longas Metragens – Prémio Méliès d’argent – Melhor Longa Europeia – deixou orgulhosa a organização. Não é motivo para menos, é a primeira vez que tal acontece. Debruçamo-nos agora sobre um destes filmes, “Criança Lobo”. 

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O júri do Prémio para longas europeias no MOTELX, Méliès d’argent, que apura uma longa-metragem para competir à escala europeia pelo prémio Méliès d’Or, composto em 2022 pela jornalista Ana Markl, pela gestora de festivais Sélina Boye e pelo artista Musical Tó Trips, atribuiu esta honra ao dinamarquês “Speak no Evil”, obra de relevo no panorama de festivais desde a sua estreia em Sundance.

Não obstante, é ainda assim de assinalar o facto de, pela primeira vez nos 16 anos do MOTELX, a secção ter acolhido três obras de produção nacional (duas delas co-produções de mão dada com Espanha). Será que o cinema de género, um termo que sempre foi associado a um certo preconceito, está finalmente a crescer em Portugal e a ver o seu potencial considerado?

“Criança Lobo”, uma produção da portuguesa “Take It Easy”,  que trabalha no ramo da publicidade mas é também presença assídua no circuito de festivais nacional, conta com realização de Frederico Serra (ele próprio já parte da história do terror nacional, como co-realizador de “Coisa Ruim“, de 2006), com produção do próprio e de Andreia Nunes e ainda argumento de Nuno Soler. No elenco figuram nomes como Rita Cabaço, Maria João Pinho e Manuel Nabais.

Lusitânia produção RTP Take it Easy
Um frame de várias curtas que integram a série “Lusitânia”, para a RTP, entre elas “Criança Lobo” | ©Take it Easy Film

A narrativa teve direito uma estreia mundial emotiva no MOTELX, com praticamente toda a equipa a ser chamada ao palco (À exceção de um departamento de som presente, mas tímido. Reforce-se que a sua mistura está mais que competente). Na generosa sala Manoel de Oliveira do Cinema São Jorge, o realizador e membros da crew debateram algumas das dificuldades envolvidas na criação e desenvolvimento do projeto. Inicialmente, “Criança Lobo” fora concebido como um episódio para uma série da RTP, realizada por Frederico Serra e escrita por Nuno Soler. A série, que dá pelo nome de “Lusitânia“, explora mitos e lendas da cultura portuguesa e irá ainda estrear.

“Criança Lobo” é a única de um total de seis histórias que mergulha de forma mais profunda no género do terror, sendo que outras narrativas da série divagam mais para a comédia ou fantástico. Com o bichinho de “Coisa Ruim” ainda a fervilhar, no que diz respeito aos mitos da cultura portuguesa, Frederico Serra decidiu que a história de “Criança Lobo” era demasiado especial para ser restringida ao formato de curta televisiva, decidindo dar-lhe uma existência no grande ecrã. Como razões reivindicou, em entrevista à Lusa, a “intensidade do drama e intimidade das relações estabelecidas entre as suas personagens”.

Quanto ao filme – que foi gravado no Sabugal, distrito da Guarda, perante um feroz inverno e testemunhando uma transição de outono para um clima invernal que se tornou benéfica para a fotografia altamente naturalista – narra a história de uma aldeia portuguesa, perdida algures no tempo e no espaço, sustentada antes na crença no paranormal, e onde se retrata uma lenda remota. Uma lenda originária de Viana de Castelo, que originalmente somava apenas três páginas, e que foi alargada recorrendo a um trabalho interessante de argumento.

A lenda de folclore nacional que se apresenta em tudo se assemelha a histórias de lobisomens que atravessam a mitologia de muitos outros povos. Todavia, em Portugal, na Europa e no mundo, a fonte do terror funciona igualmente como locomotiva metafórica para espelhar as desconfianças e medos dos povos. No caso de “Criança Lobo”, o receio face ao desconhecido e ao paranormal são retratados sem grande valor choque e com a construção de uma história que depende muito da humanidade das personagens que nela se movem.

Inicialmente é-nos apresentado um casal feliz, que vive no interior profundo e que não consegue ter filhos. Para o homem tal não é um problema maior, para a mulher, Maria da Cunha (Rita Cabaço), é uma sentença – marcada como diferente e “seca”. O que a jovem camponesa mais deseja na vida é abraçar a maternidade e, quando descobre, através da bruxa/curandeira local, Judite (Maria João Pinho num excelente papel, como habitual), que existe uma hipótese remota, uma árvore mística onde uma bruxa amaldiçoada, um espírito preso à floresta, concede desejos, a mulher pede uma criança a quem possa chamar sua.

A criatura, como premonitoriamente avançado pela curandeira local, amaldiçoa Maria, prometendo que a sua criança, ao crescer “trará dentes e sangue para a aldeia”. Com o passar dos anos a criança, João (Manuel Nabais), torna-se homem e com o ritual da maioridade aproxima-se uma perigosa promessa de cumprimento da profecia.

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João é um rapaz sensível, que tem em consideração os sentimentos alheios, não obstante a brutalidade com que foi tratado ao longo de toda a vida, nomeadamente pelo seu pai e também pelos aldeões. Todavia, a compaixão não deixa de ser transversal ao seu comportamento, mesmo nos momentos de maior adversidade. O filme é bastante auto-explicativo, não nos deixando inferir a sua bondade através de atos, reforçando, uma e outra vez, que a sua maldição não torna João cruel ou puramente animalesco.

Apesar do seu “bom fundo”, o nosso protagonista luta contra os seus instintos sanguinários e contra o preconceito daqueles que habitam a mesma pequena vila e, quando as colheitas de um grande latifundiário deixam de produzir num ano sem pestes ou falta de chuva, à la enredo “Lovecraftiano”,  depressa a superstição fala mais alto. Os aldeões procuram sangue e a longa-metragem avança para algumas das suas sequências finais que, do ponto de vista do argumento, trazem bastantes momentos interessantes e emotivos mas que, do ponto de vista dos efeitos e execução, não deixam de ver as pernas cortadas pelo parco orçamento.

 

 

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“Criança Lobo” equilibra, ainda assim, durante grande parte da duração do filme, a falta de grande injeção de capital com uma capacidade de sugerir em vez de explicitamente mostrar, criando ainda assim algum clima de tensão. Ocasionalmente, falha nesta edificação, suspendendo a nossa crença na realidade sobrenatural. Todavia, tal não acontece de forma tão frequente que nos seja capaz de enfraquecer a experiência.

Acima de tudo, louva-se a apresentação da diferença e a valorização das personagens femininas, como as curandeiras Judite e Rosário, as grandes heroínas da narrativa contra todas as expectativas. Aqui, temos uma subversiva representação daquilo que uma “bruxa” fora na realidade – muitas “bruxas” não eram senão mulheres corajosas que ousaram ter ampla curiosidade e vontade de ajudar. É bom vê-las ilustradas desta forma.

Quanto ao desfecho desta narrativa de Frederico Serra, pauta-se pela emotividade, pelas surpresas e pela palpável capacidade de nos deixar com curiosidade em relação ao mundo do folclore nacional terrorífico, o qual é muito transmitido no passa a palavra das nossas avós, mas menos através de obras de ficção nacionais. É importante desenvolver estas histórias e não as deixar morrer com as gerações mais velhas. Por isso, congratulamos toda a equipa pela sua criação.

Para a série da RTP, “Lusitânia”, a lançar em 2023, “Criança Lobo” surgirá com uma nova configuração e nova montagem. Quiçá possas, antes disso, encontrar o filme num outro festival de cinema. 

TRAILER COISA RUIM | FILME DO REALIZADOR DE CRIANÇA LOBO, TAMBÉM NO MOTELX’22

COISA RUIM / BAD BLOOD Trailer from Tiago Guedes on Vimeo.

Criança Lobo, em análise
Criança Lobo Poster no MOTELX

Movie title: Criança Lobo

Movie description: Numa assustadora aldeia portuguesa, há uma lenda. A lenda da criança lobo. Desejada e nascida numa noite de lua cheia, tudo começou quando uma jovem camponesa, desesperada por um filho, pediu um desejo a uma criatura da floresta. O desejo? Uma criança que pudesse chamar sua. Mas a criatura da floresta amaldiçoa a mulher. Quando crescer, a criança vai trazer dentes e sangue para a aldeia. Os anos passam, a criança torna-se homem, atormentado e perseguido pelos aldeões, dividido entre a sua natureza animalista e uma amizade com uma jovem bruxa. O rapaz tem de descobrir quem, ou o que é. Juntos, a criança-lobo e a bruxa vão tentar quebrar a maldição e encontrar o seu lugar no mundo.

Date published: 15 de September de 2022

Country: Portugal

Duration: 80'

Author: Nuno Soler

Director(s): Frederico Serra

Actor(s): Rita Cabaço, Maria João Pinho, Manuel Nabais

Genre: Drama, Terror

  • Maggie Silva - 72
72

CONCLUSÃO

“Criança Lobo” é uma produção portuguesa que bebe do folclore nacional antigo para o partilhar com um grande público que continua a desconhecê-lo. Em 11 dias e numa região do norte marcada pelas temperaturas negativas, Frederico Serra e sua equipa gravaram um drama com laivos de terror com charme e capaz de mascarar os seus parcos recursos com muita paixão por um projeto que coloca o ênfase na construção de personagens com as quais nos relacionamos facilmente – destaque para a própria ‘criança lobo’ e para as duas personagens das bruxas.

Pros

  • “Criança Lobo” consegue equilibrar a falta de orçamento para o teor sobrenatural da sua história com muito poder da sugestão e efeitos práticos e visuais bem conseguidos;
  • O sucesso pleno no que diz respeito à criação de um clima opressivo, nesta aldeia patriarcal suspensa no tempo;
  • A complexidade emocional transmitida pela relação entre as personagens;
  • Desmistificação de preconceitos sobre a “diferença”, seja qual for o elemento diferencial. Em particular, este trabalho tem muito valor quando aplicado à figura das bruxas;
  • Um desenlace forte.

Cons

  • Uma cena de perseguição armada em câmara lenta com uma mistura de som divertida e contrastante, mas que em geral fracassa na criação de tensão e que acaba por inviabilizar aquele que seria um importante momento emotivo;
  • Um moralismo bastante notório que, embora dê coração à parábola, se torna por vezes demasiado transparente e auto-explicativo (“ninguém nasce mau”, “ele é bom”, uma e outra vez);
  • Por vezes, para o envolvimento de quem vê, algum orçamento adicional teria ajudado. Não obstante, “Criança Lobo” fez das tripas coração para criar uma atmosfera concordante com a sua história, mesmo que por vezes tenhamos a sensação de que falta algo.
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Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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