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MOTELx ’18 | Knife + Heart, em análise

“Knife + Heart” estreou no Festival de Cannes, onde fez parte da Competição Principal. Agora, este sonho erótico de Yann Gonzalez, com música dos M83, volta a competir num festival, mas desta vez é em Portugal, no MOTELx.

É 1979, a indústria pornográfica está a viver os últimos fôlegos da sua era doirada antes do advento do VHS e a comunidade gay experiencia os últimos momentos de um período inédito de liberdade sexual que irá inexoravelmente morrer com a crise do HIV. Em Paris, o submundo queer vibra com neons garridos e clubes noturnos que estão abertos toda a noite. Na sala de montagem de um estúdio de pornografia softcore gay, uma técnica trabalha no seu próximo projeto, enquanto num clube de cruising, um dos jovens protagonistas desse futuro porno é cativado pela presença de uma figura misteriosa, vestida de preto e com uma máscara a esconder-lhe as feições. O filme passa diante dos olhos da cineasta e o jovem leva a sua conquista para um quarto privado, a guilhotina cai na película e um dildo com uma lâmina cai sobre o corpo núbilo do ator, pondo um fim à sua vida. Assim começa “Knife + Heart”.

Indo buscar muita inspiração a De Palma e Argento, o realizador francês Yann Gonzalez pinta estes labirintos urbanos de luxúria com cores intensas, música indutora de transe e uma montagem que torna o trabalho cinematográfico e o homicídio num belíssimo dueto. O desejo e a morte repetem aqui a dança que têm dançado desde o início do tempo e, pela sua parte, o realizador pouco faz para encontrar novas permutações para a sua coreografia. Ele simplesmente imerge a sua audiência no fulgor e na melancolia do momento, como que seduzindo o espectador e dando-lhe um aviso urgente. Este é um filme que, aos olhos de muitos, será excessivo e grotesco, mas aqui o sexo é para ser celebrado, a morte é para ser bela e o cinema é para ser consumido como uma droga, deixando-nos dominar pelos seus impulsos sensoriais e levados à loucura e ao êxtase.

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O filme dá permissão para nos rendermos, por completo, aos prazeres sensuais da narrativa.

Ainda durante essa noite fatídica, o ponto de união humana destes dois eventos, na sala de montagem e na cama ensanguentada, cambaleia embriagado pela noite parisiense. Ela é Anne, dona do estúdio de cinema pornográfico, realizadora do assassinado e patroa da técnica de montagem. Para com Loïs, essa artista do corte e cose de celuloide, Anne nutre sentimentos muito além do decoro profissional, sendo que as duas mulheres há pouco terminaram uma relação amorosa já com uma década de idade. A empresária da pornografia certamente não está a lidar bem com a separação, anestesiando-se da dor com generosas quantidades de álcool e deixando mensagens telefónicas cheias de lágrimas e muita gritaria à sua antiga amante. Mal ela sabe nessa noite que o seu tormento está somente a começar.

No dia seguinte, notícias do homicídio chegam ao colorido estúdio de filmagens e, poucos dias depois, mais um ator é encontrado morto. Como boa autora cinematográfica na tradição definida pelos prodígios da Cahiers du Cinema, Anne injeta a sua vida na arte que produz e, em pouco tempo, as suas interações com a polícia e o mistério dos homicídios estão a ser convertidos numa nova obra-prima softcore. A relação simbiótica entre realidade pessoal e cinema vai além de questões narrativas e a obsessão amorosa de Anne por Loïs também aí se manifesta, com atores contratados para adoçarem os olhos da técnica de montagem e mensagens angustiosas arranhadas no celulóide. Anne chega mesmo a interpretar o papel da assassina no seu próprio filme, quando a ideia de que as duas mortes eram coincidência ainda se impunha.

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Isso muda rapidamente quando aparece um terceiro corpo. Tal reviravolta põe fim temporário ao trabalho do estúdio e à coerência narrativa do guião de Yann Gonzalez. Depois de uma passagem por um clube lésbico onde decorre uma pantomima sobre bestialismo que lembra um filme de Walerian Borowczyk, assim como uma explosão de agressividade sexual para com Loïs, Anne parte em busca de respostas em relação ao surto de homicídios no seu círculo social e profissional. Tais procuras levam-na para fora da cidade, para um mundo de simbolismo em cenário pseudo bucólico onde, por muito formalmente extravagante que a mise-en-scène continue a ser, Gonzalez perde controlo do seu exercício e, pior ainda, deixa que o filme perca energia.

Essa perda energética é infinitamente mais problemática que a progressiva falta de coerência narrativa ou abuso de simbolismo absurdista. Não é só no seu uso de neons e na cabeleira oxigenada da sua protagonista que “Knife + Heart” se assemelha a “Atomic Blonde – Agente Especial”, essa delícia de ação do ano passado. Ambos os filmes são ponderações sobre épocas históricas impregnadas por um fatalismo tão intenso como o hedonismo libertino dos ambientes urbanos em que decorrem e tanto o sonho erótico francês como o épico de violência americano são o tipo de filme que é para ser experienciado a um nível quase primitivamente sensorial, sem grande importância dada a questões de estrutura textual. As emoções de melancolia e júbilo sensualista que a obra possa despertar são mais consequência dos seus indicadores audiovisuais do que de qualquer reflexão sobre as ações ou interioridade das personagens.

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Um devaneio erótico, um sonho apaixonado, uma experiência cinematográfica imperfeita, mas sedutora.

Para muitos, isso torna “Knife + Heart” numa experiência superficial e necessariamente despojada de valor, mas superficialidade não deveria ser um direto indicador de irrelevância. De facto, como um tesouro de estilos retro apaixonadamente reproduzidos, este é um exercício belíssimo que consegue evitar o erro da pastiche através de gestos modernos, como suas aventuras musicais ou o surrealismo inebriado com que Gonzalez tem vindo a apimentar todos os eus filmes, quer sejam curtas ou longas-metragens. Sempre que o espectador está a começar a aborrecer-se, o cineasta atira para a frente dos seus olhos mais uma imagem estonteante, mais um corte espetacular ou então embala os seus ouvidos com mais uma criação sensacional do seu irmão, conhecido como M83.

Há um claro júbilo cinematográfico e cinéfilo na atitude autoral que aqui se afirma. Uma atitude que não tem paciência para quem encontra grotesco ou degradação nos mundos que está a representar, da comunidade libertina gay dos anos 70 ou a cena da pornografia com pretensões artísticas. Tais realidades e suas personagens são apresentadas com pura sinceridade e afeto, subvertendo o que normalmente ocorre em cinema, mesmo aquele mais putativamente celebrador de sexualidade queer. O vilão suprassumo do filme é a negação das maravilhas que a história celebra, é o abafo dos desejos e da beleza, é a violência que causa mais violência e vem destruir tudo o que é delicioso na vida.

Repare-se que, na sua conclusão Gonzalez não permite que, por muito sangue derramado, “Knife + Heart” seja uma tragédia. Na cena final do assassino há piedade, há lágrimas e há retribuição triunfal de quem procura lugares seguros para ser quem é. Na coda angelical, as figuras encontram o seu paraíso pornográfico, finalmente sorridentes e em paz, longe daqueles que queiram tornar as suas vidas em grotescos ou queiram encontrar algo degradante no seu estilo, no seu hedonismo e na sua fome. Há algo de libertador aqui, mesmo que o filme seja desastrado na sua articulação de certas ideias, mesmo que seja incoerente e confuso. “Knife + Heart” está longe de ser perfeito, mas há algo intoxicante em deixarmo-nos apaixonar pela sua natureza quimérica e imperfeita.

Knife + Heart, em análise
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Movie title: Un couteau dans le coeur

Date published: 9 de September de 2018

Director(s): Yann Gonzalez

Actor(s): Vanessa Paradis, Kate Moran, Nicolas Maury, Jonathan Genet, Khaled Alouach, Félix Maritaud, Bertrand Mandico, Bastien Waultier, Thibault Servière, Pierre Emö, Pierre Pirol

Genre: Drama, Thriller, Terror, 2018, 110 min

  • Cláudio Alves - 77
77

CONCLUSÃO

Tão empolgante como imperfeito, “Knife + Heart” é um filme feito para despertar paixões, melancolia e alguma tesão. Na sua viagem inebriada pelo submundo da pornografia gay dos anos 70, Yann Gonzalez volta a exibir a sua mestria formalista, mas seus dotes para construir narrativas coerentes continuam por provar. Enfim, não se pode ter tudo.

O MELHOR: A música e a sincera paixão com que Gonzalez retrata estes mundos normalmente tão demonizados na nossa cultura. Até o humor do filme não nasce do escárnio pelas figuras em cena, não obstante quão supostamente estranhas elas possam ser. Não seria de esperar outra coisa de um cineasta que pagou pela restauração de um filme pornográfico gay dos anos 70 e depois o exibiu na Cinemateca Francesa, em celebração do mérito artístico da obra.

O PIOR: As cambalhotas desajeitadas que o texto dá na sua segunda metade, especialmente quando leva Anne para fora de Paris.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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