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MOTELx ’18 | Vestir o Terror com Luís Sequeira

No 12º MOTELx, Luís Sequeira, o figurinista lusodescendente que, este ano, foi indicado para o Óscar por “A Forma da Água”, deu uma masterclass em que falou da sua carreira e da arte de vestir o terror.

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Os figurinos de A FORMA DA ÁGUA (2017) valeram a Luís Sequeira uma nomeação para o Óscar.

O público português não está habituado a ouvir nomes lusófonos entre os nomeados para os maiores prémios de cinema do mundo, os Óscares. Afinal, Portugal até é famosamente conhecido como o país que há mais anos submete filmes para a categoria de melhor Filme Estrangeiro sem nunca ter recebido uma única mísera indicação. Com isso dito, este ano, quando as nomeações foram anunciadas, foi com muito deleite que cinéfilos lusitanos lá perscrutaram pelo meio o nome de Luís Sequeira.

Não se tratava de um cineasta português ou de um dos brasileiros que ocasionalmente chegam ao palco do Dolby Theatre, como Claudio Miranda e Fernando Meirelles, mas sim um figurinista lusodescendente que foi assim reconhecido pelo seu esplendoroso trabalho em “A Forma da Água”, o filme que acabou por ganhar o tão desejado galardão de Melhor Filme.

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Luís Sequeira no 12º MOTELx.

Terá mesmo sido essa nova notoriedade de Sequeira, tanto a nível nacional como internacional, que acabou por resultar na sua presença no MOTELx deste ano, convidado a participar numa conversa estilo masterclass. Talvez não tenha sido essa a razão, mas é difícil não chegar a tais conclusões, especialmente quando consideramos quão raro é ver o trabalho de figurinistas a ser reconhecido no circuito dos festivais de cinema que tanto celebra a importância de atores e realizadores.

Isso é pena, pois, com ou sem a nomeação para o Óscar, Sequeira seria uma preciosa presença neste festival de cinema de terror, tanto pela importância do figurinismo no edifício cinematográfico, como pela presença imensa de obras de género na filmografia de Sequeira. Tendo trabalhado em séries e filmes como “The Strain”, “Carrie”, “Mamã”, “A Forma da Água” e a sequela de “It”, Sequeira é certamente um especialista na arte de vestir o terror.

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Nascido de pais portugueses que emigraram para o Canadá, Luís Sequeira nem estudou nem começou a sua vida profissional no mundo do cinema. Talvez inspirado pela mãe que fazia vestidos de noiva em Portugal, o futuro figurinista de “A Forma da Água” iniciou carreira em moda, mas, em meados dos anos 80, acabou por ser atraído para as maravilhas da sétima arte.

O primeiro contacto com o cinema num meio profissional veio com a criação de algumas peças para um projeto de David Cronenberg, mas é em 1990 que Sequeira tem o seu primeiro crédito, como assistente de guarda-roupa numa série de televisão baseada no franchise de “Sexta-Feira 13”. Segundo o próprio Sequeira, cuja conversa foi bem moderada pela jornalista de moda Catarina Rito, no figurinismo ele encontrou um trabalho com maior sentido de comunidade que o solitário mundo da moda, para além de lhe dar muito mais possibilidades criativas, inclusive a criação de novos mundos jamais vistos senão no ecrã.

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Sean Young em BLADE RUNNER (1982), com figurinos de Michael Kaplan e Charles Knode.

Esse interesse na criação de novos universos estilísticos e culturais também se regista nas referências cinematográficas que mais marcaram o figurinista enquanto cinéfilo e cineasta. “Blade Runner” de Ridley Scott e o primeiro “Mad Max” de George Miller foram duas obras apontadas como influências por Sequeira. Talvez o seu trabalho, até agora, não tenha alcançado os píncaros de iconografia popular desses filmes, mas a filmografia de Sequeira é bastante rica e a sua atenção ao detalhe e vibrante amor pela profissão são tão fáceis de verificar no seu trabalho como nas suas palavras.

Ele próprio diz que deve ser doente, quando refere como coleciona gravatas para mais tarde usar em potenciais projetos. A coleção já vai nos milhares. Outro exemplo de possível doença, ou simples amor ao trabalho, é o método de Sequeira, que gosta de estar presente em todas as fases de desenvolvimento dos seus projetos e gosta de comunicar e trabalhar em concordância com outros departamentos como cenografia e efeitos especiais.

Tal empenho resulta em dias de trabalho que só deixam espaço para umas parcas quatro horas de sono, e acabam por dar angústias a Sequeira que, para estar presente no MOTELx, tem de estar ausente do plateau da sequela de “It”, deixando a coordenação de guarda-roupa à sua equipa. O figurinista é o primeiro a tecer elogios aos cerca de vinte indivíduos que fazem das suas ideias realidades materiais, mas ele prefere sempre estar presente. Afinal, é durante as filmagens que as roupas efetivamente aparecem em frente à câmara e é o que essa objetiva captura que importa no fim.

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Julianne Moore e Chloë Grace Moretz em CARRIE (2013), com o vestido cor-de.rosa para o baile de finalistas.

Mais em detalhe, Sequeira falou de uns quantos projetos e referiu algumas das questões técnicas que mesmo cinéfilos ferrenhos raramente ponderam, como a necessidade de cópias múltiplas do mesmo figurino dependendo das exigências do guião. Em “It”, por exemplo, para além de múltiplos, o departamento de guarda-roupa teve de encontrar maneira de iludir o olho do espectador e tentar esconder o crescimento dos atores juvenis, em cenas que requisitam momentos do primeiro filme.

Outra obra influenciada por filmes do passado foi o remake de “Carrie”. Aí, Sequeira teve de trazer a história de Stephen King para a contemporaneidade sem piscar demasiado o olho ao original de 1976, um filme perfeito segundo o figurinista, ou criar algo demasiado distante da imagem coletiva que temos de Carrie White. No final, ele manteve o vestido rosa do baile de finalistas, mas tentou apropriar-se do design clássico ao conceber uma nova explicação e estilo para ele, edificando a peça como algo baseado em modelos velhos dos anos 30, a que Carrie poderia ter acesso, no seu quotidiano dominado pela mãe fanaticamente religiosa.

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Aaron Lazar e Jack Kesy em THE STRAIN (2014-2017).

Em “The Strain”, que é o trabalho televisivo preferido de Sequeira, a multiplicidade de registos históricos e fantasiosos levou à necessidade de duas equipas de guarda-roupa para vestir todo o universo da narrativa. O filme favorito, por seu lado, foi “A Forma da Água”, onde o figurinista colaborou com Guillermo del Toro, um realizador que entende a importância da roupa em cinema, chegando a dizer que, em grande plano, os figurinos são o cenário.

De facto, os figurinos de Sequeira e suas belíssimas gradações de verde são uma parte essencial da estética do romance fantasioso de del Toro, reconstruindo estilos de época e mesclando referências cinematográficas com admirável elegância. A produção, contudo, nem sempre foi fácil, começando com o facto de que o filme originalmente iria ser a preto-e-branco até problemas com um alfaiate que teve um esgotamento nervoso e em muito atrapalhou a feitura dos fatos de Michael Shannon. Felizmente, o transtorno lá se resolveu e o ator chegou mesmo a dizer que Sequeira tem mais precisão que a Prada.

Este figurinista preciso e modesto, defensor de humildade profissional, até agora nunca trabalhou em nenhum projeto português, mas isso pode estar prestes a mudar. Segundo, Sequeira, ele mesmo adoraria colaborar numa produção do nosso país, sendo que teria particular interesse em fazer uma adaptação do livro “O Último Acto em Lisboa” de Robert Wilson. Se esse sonho se irá concretizar, não sabemos, mas algo é certo, o futuro de Luís Sequeira no mundo do cinema é risonho e nós, enquanto cinéfilos e amantes do terror, somos muito sortudos por isso.

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Michael Shannon e Sally Hawkins em A FORMA DA ÁGUA (2017).

Se te interessas por figurinos e moda em cinema, vem descobrir a nossa rubrica Figura de Estilo, onde exploramos o guarda-roupa de inúmeros e variados projetos, tanto do grande como do pequeno ecrã.

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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